Na noite em que a língua portuguesa foi a única a ouvir-se, faltou a vitória desejada noutras geografias. Mas ganhou o Brasil, na voz de Adriana Calcanhotto.
Ontem, a espaços, e literalmente, todos cambaleavam no recinto do Festival Jardins do Marquês. A culpa, é bom sublinhar, não era etílica, por muito que a vontade de beber umas nortadas (a cerveja oficial do evento) fosse muita. Era do vento, essa circunstância aérea que tantas vezes invade o Festival, ano após ano. Nada a fazer, a não ser fechar um pouco mais o blusão e encarar a noite de cara alegre. Enquanto o país inteiro se afundava em sofás, ou poisos equivalentes, em frente a tvs na perspetiva de um golo para nos alegrar, outros faziam-se à luta, ao encontro de um verão de mãos dadas com um outono ventoso e fora de época.
Mário Laginha embalava o canto do homem da terra, Camané, que tentava fazer da Casa da Mariquinhas um abrigo para a pequena intempérie que parecia sentir-se. O vento brincou a noite inteira no Jardins do Marquês, de rédea solta e de feitio encabrestado. Fados ao piano, uma homenagem ao já saudoso Fausto, que o vento da morte levou há dias. Mesmo não sendo aquele o melhor espaço para a dupla em palco atuar, ouvimos com o gosto do costume a voz de Camané e o piano sensível de Laginha, até que foi com a maravilhosa “Sei de Um Rio” que o primeiro concerto da noite foi chegando ao fim. E como quem não quer a coisa, íamos deitando um olho maroto ao resultado entre os pães de Deus e os croissants. Zero a zero ao intervalo de Hamburgo. Em Oeiras, o fresco (quase frio) ambiente ganhava de goleada. Paciência. Se vier gripe a caminho, há-de passar.
No Palco Nortada, os primeiros sons “de Gilberto Gil pra tocar hoje à noite” de Leo Middea punham toda a gente a dançar para espantar a temperatura, até porque “eu tô na Europa” e é “chique demais dizer que eu tô na Europa”, mesmo “passando frio”. Foi um concerto com muito axé, samba no pé, canções ensolaradas na noite que ia caindo a pique, aos poucos, como se não quisesse perder pitada da luz de Middea em palco, que para mexer com o público parece já ter a lição toda muito bem estudada. Tudo nele é simpatia, até as canções parecem feitas dessa mesma substância. Também Middea estava interessado em saber “se Portugal já marcou algum golo? Não? Então, beleza”. Mas a “beleza”, como sabemos, é caduca, não dura sempre e o tique-taque do relógio caminhava no sentido errado. Depois, mais canções fáceis de entoar: “as moças do meu bairro são bonitas” e as moças que o ouviam quase gritavam os versos que vinham do palco. Festa rija, portanto. “A tua beleza é rara / Como o disco Bicho de Caetano”, cantava Middea. Foi um bonito concerto, sim senhor!

No entanto, e naturalmente, todas as atenções e expectativas estavam dirigidas para o Palco Jardins do Marquês, onde pelas 22 horas 8uma pouco antes) iria apresentar-se Adriana Calcanhotto. Talvez já não aquela que arrasou nos primeiros ótimos discos e também como Partimpim, um pouco mais tarde. Quiçá, e apenas, a Adriana dos últimos trabalhos, mais sinuosos e com canções menos capazes de se nos colarem à pele, como algumas das do recente Errante. Dúvidas que o espetáculo se encarregaria de desfazer, naturalmente. Tudo muito morno de início, até que “o nosso amor não vai parar de rolar”. Foi aí que furámos o dedo e voltámos a fazer um pacto com Adriana Calcanhotto. Todos precisamos de “rimas fáceis” como aquelas de “Mais Feliz”, do maravilhoso Marítmo (1998). Mas foi ainda maior a analepse, indo até “Naquela Estação”, do seu primeiro longa duração, o longínquo Enguiço, de 1990. Ambos os referidos temas foram tocados com roupagens diferentes, mas elegantes e bonitas. “Esquadros” foi cantado por muitos, com Adriana dançando uma qualquer dança que parecia vir das arábias dos tempos, sem parangolés colados ao corpo. “Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?” E a resposta pareceu-nos óbvia: muitos estavam ali, à sua frente. Bonito também o momento candomblesco (digamos assim) em que Adriana parecia estar num terreiro baiano de umbanda, baixando nela algum orixá cheio de ritmo e de magia. Assim como a roqueira “Era isso o amor?”, extraordinária como poucas. E a quase irreconhecível “Mentiras”, que encerrou o concerto, em versão quase ska. Depois, os encores: “Maresia”, “Fico Assim Sem Você” e a eterna “Vambora”. Uma festa de canto e de charme ao correr do pano. É claro que Adriana sabe bem o que o público quer ouvir. Mas é artista, das boas, e faz em palco o que lhe ditam os temas mais recentes, a sua vontade do momento, por isso foi capaz de misturar as novidades mais gourmet com o feijão com arroz que o povo quer e merece. Assim, o resultado nunca engana e tudo acaba de sorriso nos lábios.
Noutras geografias bem menos musicais, calaram-nos o pio e fomos, uma vez mais, “vencidos da vida”. Temos uma longa história desse conformismo. Quando uns perdem, outros ganham. É a lei que nos rege desde sempre. E assim, o vencedor da noite foi, sem margem para dúvidas, o Brasil.