Escrever sobre The Lexicon of Love, dos ABC, é um exercício misto de nostalgia e prazer. A razão, se apenas uma houvesse, seria fácil de explicar, mas nem tudo é tão simples assim. O disco saiu em 1982 e nessa altura, tinha eu 14 para 15 anos, os ABC surgiram como a next big thing mundial. A new wave ganhava força, e o toque funky que transbordava do disco, tornava-o ainda mais delicioso. Os ABC estavam em toda a parte, sobretudo na televisão, com o teledisco de “The Look of Love (Part One)”. O disco, que andava comigo para todo o lado numa cassete BASF de cor verde (ferro super LH I, lembram-se?), encheu completamente as minhas medidas de teenager. Poucas vezes terei vibrado tanto com um álbum pop, tirando os particulares casos dos discos dos Blondie, uma vez que era (e confesso ser ainda) totalmente fanático pela loiríssima Debbie e restante companhia. Nesse tempo, deixem-me contextualizar, surgiram também dois discos que competiam pelo podium da minha predileção. Eram Select, da igualmente loira Kim Wilde, e Pelican West, dos Haircut 100. Mas, para dizer a verdade, o primeiro lugar sempre foi dos ABC. Tudo isto acontecia na cabeça de um jovem rapaz (eu, como já terão percebido) completamente apaixonado por música, numa época em que essa mesma música evoluiu para lugares tão novos e estimulantes, como também para outros menos interessantes e embaraçosos, digamos assim. No início dos anos 80, bandas como Duran Duran, Spandau Ballet e Classix Nouveaux (os new romantics, pois claro) surgiram em força, e isso mexeu com muita gente. Eu não escapei a esse vírus. No entanto, sobrevivi a males maiores, e quase todos os nomes referidos, pouco tempo depois, mais não representavam para mim, do que boas recordações de um tempo igualmente bom, o da juventude. Ainda tenho discos de todos eles, e vários, na minha coleção de LPs e Cds. Guardo-os com gosto, obviamente.
Mas voltemos a The Lexicon of Love e aos ABC. Todo o álbum é perfeição pop, estilização e charme. Repleto de ótimos temas, o disco varreu os tempos em que surgiu, impondo-se nas rádios, nos jornais, nas revistas e na televisão, como já referi anteriormente. Tornou-se um instant classic, e até hoje perdura como o melhor registo da banda. Depois de o terem feito, os ABC tornaram-se vultos maiores da cena pop mundial, mas o futuro não lhes sorriu. Foi sempre a perder, como diz a canção. (Mesmo assim, não quero deixar de referir o disco seguinte, de que gostei e gosto ainda, intitulado Beauty Stab, de 1983.) The Lexicon of Love, produzido pelo grande Trevor Horn dos Yes e dos The Buggles, vinha carregado com cinco hit singles, todos eles com brilhantismo suficiente para ainda hoje não envergonharem os seus criadores. Falo de “The Look of Love (Part One)”, “Poison Arrow”, “All of My Heart”, “Tears Are Not Enough” e “Valentine’s Day”. Para além destes temas, que dispensam quaisquer apresentações, The Lexicon of Love trazia outros de igual estatura. Todos prontos a fazer-nos dançar, canções mais ou menos ritmadas e para todas as situações. Tocava muito em festas de garagens, e parte das minhas boas memórias desse disco residem precisamente nesses momentos. Alguns deles mais íntimos que festivos, se é que me faço entender.
Uma das características mais interessantes do primeiro longa duração dos ABC reside na teatralidade das suas canções, como é fácil perceber pela capa (hitchcockiana, maravilhosa, intemporal, icónica) e pela introdução orquestral da brilhante “Show Me”, logo na abertura do disco. Martin Fry, o vocalista e principal mentor do grupo, estava no centro de todas as atenções, impondo a sua voz por sobre canções de amor distorcido. A balada “All of My Heart”, que Brian Ferry gostaria certamente de ter feito, era a preferida das meninas (de novo a recordação das tais festas…), e o impacto daqueles cinco minutos e picos fez milagres em muita e boa gente. Eu sei bem do que falo…
Resumidamente, The Lexicon of Love é um disco que aconteceu no tempo certo, com as canções certas, a produção certa, um trabalho em que tudo deu certo. É, portanto, um prodígio sonoro, um portento de ritmo, de energia, de estilo (discutível, como são todos os estilos e todas as tendências), de classe pop orelhuda, sem receios de se assumir como tal. Ainda hoje tenho um soft spot inequívoco pelo disco. Pelo disco, mas também pelo que ele representou para mim, daí a tal mistura de sentimentos a que me referi no início deste texto. E estou bem desconfiado que assim continuará para sempre.