Para quem conhece, como eu conheço há mais de 30 anos, o percurso de Caetano Veloso no mundo das canções, e para quem o idolatra acima de tudo e de qualquer coisa que mexa e faça música neste mundo, sabe que a escolha para um primeiro artigo (de muitos, assim o espero) sobre um trabalho seu, dificilmente seria esta: Araçá Azul (1972). No entanto, várias são as razões que me levaram a elegê-lo. Primeiramente, por ser um objeto de verdadeiro culto, e “um disco para entendidos” – esta é uma frase ironicamente exposta no interior do encarte de Araçá Azul. Depois, por exemplo, pela capa de contornos cubistas, revelando-se nela a magreza física do mano Caetano, metáfora dos tempos de míngua democrática no Brasil da ditadura militar. Mas não só, como é óbvio. Também, e acima de tudo, a propósito do disco em si mesmo, obra prima que prima por se distinguir de tantas outras pelo avesso do que geralmente apreciamos nas grandes manifestações de génio. É, pois, tempo de celebrar a estranha pérola sonora de nome Araçá Azul.
Não adianta muito dizer o que é Araçá Azul. Esse indefinível objecto sonoro é, de facto, inclassificável. Nele há conversa (e pouco se percebe do que é dito enquanto a mesma decorre), há melodias presas por um fio de som frágil, há Caetano a bater no seu próprio peito em jeito de ritmo primitivo, há loucura suficiente para Araçá Azul ter ficado na história da MPB como o disco que mais devoluções proporcionou à sua editora, a Philips. Mas também há “Cravo e Canela“ (“ê, morena, quem temperou, / cigana, quem temperou, o cheiro do cravo”, de Milton e Ronaldo Bastos), como há também “Gilberto Misterioso”, canção ladainha que nos fica na memória pela estranheza do pequeno poema de Caetano e Souzândrade. Mas há mais: “Tu Me Acostumbraste”, magnífica canção que aparece no disco, como se a estivéssemos a ouvir através de um velho rádio de pilhas… E ainda “Júlia/Moreno”, “Sugar Cane Fields Forever” e “Araçá Azul”, a faixa que dá título ao trabalho e que fecha o disco da melhor maneira. É uma mini-canção perfeita, um poema perfeito a terminar aquele que é o disco assumidamente mais experimental de Caetano Veloso.
Conheço o disco há tempo, que desde os meus 13/14 anos uma espécie de assonância melódica me habita a memória, aparecendo na minha cabeça sem pedir licença, dizendo assim: “sou um mulato nato/ no sentido lato/ mulato/ democrático do litoral”. Na verdade, eu não sou mulato, mas de tanto cantar estes versos (às vezes para dentro, outras vezes para fora) dou por mim a pensar que o efeito das canções em quem as ouve tão devotamente, pode fazer de nós aquilo que elas quiserem fazer. Parece que nos adotam, e quando dou por mim sou o que os versos dizem, orgulhosamente. É estranho perceber isto? Pode muito bem ser, não duvido. No entanto, e para terminar, lembro que estas linhas surgem a propósito da deliciosa estranheza de Araçá Azul. E quem nunca ouviu Araçá Azul não merece perdão, mesmo que saiba antecipadamente que o disco não é pêra doce: é araçá azul, e ponto final.
Muito obrigado pelas suas palavras. É um disco eterno, de facto.
É, de facto, um disco fabuloso. Descobri-o, há 34 anos, ao mesmo tempo que Ummagumma dos Pink Floyd e mais dois discos. O pai de um amigo veio pousar os quatro vinis na sala enquanto ouvíamos T-Rex. “Um dia terão pedal para isto”. Tivemos logo para o Astral Weeks e o Rock Bottom, mas durante uma década suspeitei que os outros dois tinham sido um equívoco. Estava enganado.
Duas notas: não consigo dissociar esse disco do Jóia, que é para mim o seu irmão gémeo, menos luminoso mas não menos deslumbrante; achei curioso não mencionar as minhas três canções favoritas do disco: viola meu bem, de cara / eu quero essa mulher e épico.
Mas que bom ler palavras tão apaixonadas por um disco que continuo a adorar e admirar.