O BOTA recebeu a apresentação do novo álbum de Orca, Apneia , numa noite de verão tardio, serenando-nos com músicas doces e melancólicas, que ao mesmo tempo pedem intervenção.
De voz doce e guitarra, Sallim arrancou com músicas que soaram sinceras e transparentes, de tom assertivo e incisivo, sem nunca perder a doçura. Com três álbuns já editados, Sallim tem uma sonoridade melancólica e folk, cantando temas universais (amor/desamor, dores de crescimento/resiliência), acompanhada pela sua guitarra, numa espécie de autorretrato cantado, simples nos acordes, mas com segurança nas palavras.
Com um breve agradecimento a Orca (Leonor Cabrita) pelo convite (há uma cumplicidade entre as duas que se traduz numa proximidade dos sons), Sallim termina com o que diz ser a única canção editada da noite: “Novo Início”, uma música que a própria afirma ser uma ponte com a música de Orca “Todo o Luto é uma Luta”.
O projeto de Leonor Cabrita contou, para este concerto, com uma banda composta por piano, órgão, baixo e bateria, e o arranque mostrou que iríamos estar perante uma banda bem oleada. Leonor tem uma voz poderosa, de tom simultaneamente melodioso, grave e forte, capaz de ser sentida no peito. Veio apresentar o mais recente disco, Apneia, mostrar que têm uma capacidade grande de nos surpreender, com letras cheias de sentimento e dores, intercaladas com os coros de piano e guitarra. Ouvimos sonoridades que vão do mais tradicional ao folk, e que vão ganhando outras dimensões à medida que as músicas avançam, com toques de jazz.
À segunda música chegou a apresentação, de sorriso e voz tímida, contrapondo com a sua segurança em palco, antes de arrancarem com uma música do álbum anterior, “Tudo Tem um Fim”.
O disco novo fala sobre coisas difíceis: “Lugar Miserável”, por exemplo, é uma canção sobre pessoas que nos fazem mal, seja isso intencional ou não. Pelo meio, aparece também uma crítica social, sem que a música deixe de ser profundamente pessoal. “Chegámos à altura das baladas”, anuncia, antes de cantar canções do álbum “Paisagem de Trânsito”. Mas é nas músicas com mais ritmo, mais aceleradas, que Orca parece brilhar particularmente.
A meio de “Acordar Tarde”, há ainda uma participação especial que vem da plateia: um clarinete envergado por Yaw Tembe (que já contribuiu nos seus álbuns) que acaba por subir ao palco e acompanhar a banda em algumas músicas. O concerto vai ganhando, assim, uma dimensão cada vez mais colectiva, sem perder a intimidade que esteve presente desde o início, e aonde voltamos. Leonor fica no palco sozinha, sentada ao piano. A música que se seguiu é dura, carregada de dor e tristeza. É talvez um dos momentos em que a voz ganha mais peso, sem precisar de mais nada à sua volta.
Mais tarde, volta a chamar ao palco a banda e Sallim para cantarem uma música que fizeram em conjunto com Leonor Arnaut, “A Expectativa”. A canção faz parte deste novo disco, editado pela Facada Records. Há uma proximidade evidente entre elas, que se percebe não apenas nesta música, mas também na forma como os universos sonoros de Sallim e Orca parecem conversar ao longo da noite. O concerto termina com “Todo o Luto é uma Luta”, antes de um encore incentivado pela própria banda, onde tocaram “Convoca Solidão”.
Foi uma noite de dores cantadas, de coisas mundanas transformadas em canções e de artistas que, cada uma à sua maneira, sabem para onde querem seguir e fazem-no com graciosidade.
Fotografias de Eddie Speaks Love




















