No primeiro dia do Coala Festival Portugal 2026, uma particular trindade da música veio a terreiro. Pai, filho e o espírito santo da criação musical abençoaram-nos. Que tarde e noite gigantes!
Por vezes é bom andarmos enganados. Quando todos julgavam que Caetano Veloso não mais regressaria à Europa, ei-lo em Cascais, fazendo uma aparição no Coala Festival. Que bom, que belo, que divino-maravilhoso! Cabeça de cartaz da terceira edição do Coala em terras lusas, “Caetano nos Festivais” cruzou o Atlântico para nos dar um abraçaço e aterrou em Cascais. Veio bem acompanhado, como lerá daqui a pouco. É só continuar a percorrer estas linhas. Venha daí.
À hora exata, o filho Tom do deus Veloso, subiu ao palco com fato de pierrot, cara pintada de branco e aquela voz límpida e quase inatingível que bem conhecemos. O início do concerto foi roubá-lo ao pai, com “Peter Gast”, do extraordinário álbum Uns. O concerto foi o da apresentação do seu primeiro título, Boas Novas. A intimidade das letras, os desenhos das melodias, tudo combina para uma experiência tranquila, pontuada por alguns temas que convidam a maior vibração de pernas, peito, coração. De repente, o céu de Cascais parecia “o céu de Salvador”. Depois da sempre exuberante “Volta Por Cima”, voltaram as canções sofridas, dilaceradas, como “Amor é Sacrifício”, quase física de tão próxima da pele. A bilíngue “Carolina” é assombrosa, troveja baixinho por dentro, ecoa nostalgias, outras eras, outros tempos. “Carolina, veja que aqui é bem melhor”. E tem razão. Ontem, ali, foi bem melhor do que em qualquer outro lugar. Carolina, tímida e dolente, expressou-se pela voz de Tom Veloso. Queria cantar, “então cante o que quiser, mas eu prefiro coisa nossa”. Foi muito belo! Houve “Garota de Ipanema” pelo palco do Coala. Helô Pinheiro dançou, invisível, suas danças etéreas, vinda do Olimpo das musas bossanovistas. “Colors of the Wind”, da atriz, cantora e ativista norte americana Judy Khun foi uma breve, mas boa surpresa. Ainda houve samba, Rosaleta, francês, inglês e foxtrot, cinema falado de todos os tempos, tudo graças ao grande Noel Rosa que, convenhamos, “Não tem Tradução”. Com “Todo Homem”, inevitavelmente, deu-se a explosão total. É das mais belas canções das últimas décadas e a interpretação de Tom Veloso foi perfeita, imaculada, soberba. Ainda se homenageou Tim Maia com “Réu Confesso” e as ultimas notas foram para outro tema vindo do céu, “O Sopro do Fole”. O ”sertão não virou mar”, mas Cascais virou Brasil.
Por detrás do cenário, o pai Veloso terá assistido à beleza de tudo o que aconteceu no palco. Deve ter-se comovido, talvez ao ponto de lágrimas. Por meio destas palavras que agora vai lendo, também aconteceu.
O concerto de Branko no Coala Festival Portugal 2026 foi uma celebração vibrante das pontes musicais que unem Portugal, Brasil e África. Num espetáculo pensado para ser especial, o produtor e músico apresentou uma atuação marcada por ritmos pulsantes, batidas eletrónicas envolventes e uma energia contagiante, que rapidamente conquistou o público. A presença dos brasileiros Tuyo acrescentou novas camadas emocionais ao concerto, criando momentos de grande cumplicidade em palco. Ficaram todos muito bem na fotografia sonora apresentada. Ao longo da atuação, Branko explorou sonoridades que cruzam tradição e modernidade, misturando referências urbanas com influências do criôlo e de diferentes expressões da lusofonia. A ginga característica da sua música esteve presente do início ao fim. A reação da plateia respondeu com dança e entusiasmo. O concerto destacou ainda a capacidade do artista para transformar linguagens culturais distintas numa experiência coletiva e contemporânea. Um dos momentos mais relevantes foi quando o sampler de “Tudo Certo” (de Dino d’Santiago) fez festa. Muita dança, palmas, mãos no ar, barulho! Estava concluída a segunda atuação da tarde / noite do primeiro dia do Coala Festival 2026.
Com a sua voz particular e a energia humilde que o caracteriza, Bonga levou o público por um repertório marcado pelos ritmos do semba, pois claro, e houve momentos de dança, emoção e comunhão. “Agora vai ficar bom. Eu estou a ver…”, disse o angolano. Ao longo do concerto, percebeu-se porque continua a ser uma das figuras mais importantes da música africana. “O Homem do Saco” foi cantado por milhares de gargantas em uníssono. “Lágrima no canto do Olho” foi uma granada de festa atirada à multidão à sua frente. O dobro dessa explosão deu-se com “Mariquinha” e o seu eterno convite “vem comigo pra Angola”. Com uma carreira de várias décadas e um legado que atravessa gerações, apresentou canções que unem tradição, memória e identidade cultural, mantendo uma ligação genuína com o público. Num ambiente festivo e caloroso, o concerto destacou-se pela autenticidade e pela capacidade de reunir diferentes públicos em torno da música. A atuação reafirmou a relevância artística de Bonga e o seu papel como embaixador da cultura angolana, num dos momentos mais marcantes do festival.
“Depois dessa vida vai ter a outra”. E veio Slow J a lembrar os ritmos do concerto anterior, de início. O hip-hop sadino de João Batista Coelho é um caminho de fusões, bifurcações (“onde é que tens andado?”), com camadas mais tradicionais, mas outras que andam rentes ao R&B, música tradicional africana e beats caseiros. Esse caldeirão de sons e ritmos também se nota nos instrumentos em palco (incluindo a guitarra portuguesa, a que acompanha o nosso fado), ingredientes musicais que fazem a cachupa sonora de Slow J. Numa batida mais lenta, algo melancólica, como quem “quer estar sozinho”, o tema “Teu Eternamente” vibrou bem nos ares de Cascais. “Cacau” também causou idêntico efeito, naquela batida falsamente lenta e dengosa. Outro momento grande voou pelo meio do concerto, o tema com nome do aeroporto de Luanda, “4 de Fevereiro”. Aterrou bem nos corações de muita gente, que cantavam com o cantor em palco. E como qualquer caldeirão a cozinhar durante uma hora, há sempre um momento que borbulha mais que qualquer outro, extravasando emoções. Foi assim com “3,14”. Ponto final.
O momento mais esperado da noite começou com “Branquinha” e seguiu com “Gente”. Era Caetano no palco, Caetano de novo em Portugal, Caetano astro maior da música popular brasileira! E, por falar em deuses e deusas, “Vaca Profana” (com imagens de Gal Costa em pano de fundo) foi “leche buena toda en mi garganta” e “nada de leite mau para os caretas”. Mas, “atenção para o refrão”, pois tudo é “Divino Maravilhoso” na voz e nas canções do baiano de Santo Amaro da Purificação. Caetano continua movendo multidões, sabendo que cada gesto, cada palavra, cada olhar provoca fortes sismos de emoções em quem o escuta, acompanha e ama. “Cajuína” e “Podres Poderes” seguiram-se (com uma pausa entre ambas para um golo de Coca-Cola, porque estava “um ar frio que secou a boca” ao nosso mais querido leãozinho humano. A moderníssima “Anjos Tronchos”, de Meu Coco, sombria, algo tétrica, resulta ainda melhor ao vivo do que nos sulcos do vinil. Com tão vasta discografia, andar de décadas em décadas, para a frente e para trás, é coisa simples para Caetano. “Eclipse Oculto”, do já aqui mencionado Uns, foi uma agradável surpresa. Fomos percebendo que o show é mesmo festivaleiro, bem rock n’ roll, aguerrido e pujante. Mas claro que chegou “Sozinho”, naquele momento igualmente maravilhoso de voz e violão. “É que um carinho às vezes cai bem”, como bem sabemos.
O primeiro fado que Caetano cantou na vida, ainda garoto, foi “Rosinha dos Limões”. Cantou-o, comovidamente, como havia cantado nos anos oitenta, em pleno Coliseu dos Recreios, ao piano. Que bom! “Sampa” e a dura poesia concreta” dos seus sons não poderia faltar. Segui-se a também inevitável “Leãozinho”, com coro imenso da parte do público. A recente “Um Baiana” deu prova de vida com batucada a propósito. Muito Bahia, muito a cara de Caetano também. Tudo “Muito Romântico”, naturalmente. “Um acorde perfeito maior”! “Alegria, Alegria”, canção icónica de um movimento que revolucionou a música popular brasileira, está jovem e fresca como nunca. “Não Enche” não encheu nem um pouco, de tão mágica e de letra tão sabida que apresenta. Nem nos queixámos de “Queixa”, antes pelo contrário. Já quase no fim, vindo de uma “estrela colorida” chegou “Um Índio”, elegante e sempre bela canção do distante Bicho, que ainda hoje se acarinha, passando-lhe a mão pelo pelo de tão perfeitas canções. E como há uma nova ordem mundial anunciando-se de forma inequívoca no planeta, “Fora da Ordem” nunca pareceu tão atual. Só os génios fazem isso, antecipando tempos, prenunciando o que o futuro parece esconder. Os últimos minutos do show pertenceram a “Desde que o Samba é Samba”, “Reconvexo” e “É Hoje”. Foi assim, ontem. “Odara” foi a única canção do encore. Que hino à dança e à alegria! Que fim de festa!!!
Nota de rodapé: os deuses também envelhecem, e esta frase preenche-se com um misto de sensações, nem sempre boas, quase nunca más. Ver e ouvir Caetano Veloso é algo que faço constantemente desde os meus 14 anos. Não ando distante dos 60, agora. Ouvi-lo e vê-lo não é apenas o que essas ações revelam, antes um muito vasto horizonte de vivências, memórias, construções mentais à flor da pele, inesquecíveis e fundamentais em toda a minha vida. Ontem, Caetano tinha, em cima do palco, mais de 80 anos, mas também metade dessa idade, e também eu estive no presente e no passado, jogando com datas e lembranças da nossa existência comum, a minha e a do meu adorado baiano. Ele será sempre o maior de todos, e eu o maior de todos os seus fãs à face da terra.
Texto de Carlos Lopes, fotografias de Felipe Kido.

































