Quinze anos depois de terem desaparecido sem um verdadeiro aviso prévio, os Macacos do Chinês regressaram diferentes, mais velhos, mas intactos no que realmente importa.
O concerto no terraço da Casa Capitão serviu de apresentação para Bolos Depois da Noite, novo EP de cinco temas que marca o reencontro da banda com o presente sem apagar o ecletismo que sempre os distinguiu dos demais grupos de hip-hop tuga. Numa altura em que grande parte da música, seja do ponto de vista nacional, seja do ponto de vista internacional, continua obcecada em traçar fronteiras estilísticas, colocar rótulos e identidades demasiado fechadas sobre si próprias, os Macacos do Chinês parece que reaparecem precisamente para lembrar que a mistura e a contaminação de estilos uns pelos outros continuam a definir uma das formas mais livres e interessantes de fazer música.
Ainda que a ergonomia da sala seja estranha, com um palco comprimido e uma disposição pouco convencional, no início do concerto, isso acabou por contribuir para uma sensação de proximidade muito especial entre plateia e banda. Viveu-se um ambiente familiar nesta noite, como se banda e público se conhecessem há tempo a mais para existir distância. Entre copos na mão, telemóveis permanentemente levantados e letras cantadas do princípio ao fim, o concerto foi ganhando, pouco a pouco, a forma de celebração coletiva que foi mote principal para esta reunião aparecida quase de surpresa.
O concerto arrancou pouco depois das 21h:45 e começou pelo fim deste EP de comeback. “Sem Recusa” inaugurou assim a noite seguida de “Dai-me Forças”. À terceira música do alinhamento surgiu “Desta Vez”, mais um dos novos temas do novo EP da banda. Mas foi em “Saudade”, música que integra o disco “Vida Louca” que a noite encontrou uma das suas imagens mais fortes: sobre a guitarra portuguesa, desenhou-se um solo suspenso por cima de um beat impossível de pertencer a outra banda que não aos Macacos do Chinês. “Tu não vês, tu não vês, a saudade existe mais em português” cantou-se em alto e bom som por artistas e público, num daqueles bonitos momentos de comunhão em a música deixa de pertencer à banda para passar a existir enquanto propriedade do público.
Surge então “’96”, tema que recupera o ano em que Pité e Drupez (nova aquisição da banda) se conheceram, canção que funciona como síntese perfeita desta nova fase da banda da Amadora. Pode não ter a fusão de estilos a que a banda nos habituou, através da capacidade de fazer coexistir crioulo e português, guitarra portuguesa e keytar, dubstep e funaná, kizomba e drum n’ bass sem que nenhuma dessas linguagens pareça deslocada daquilo que os junta, o hip-hop. Noutras mãos seria, provavelmente, apenas colagem, mas aqui transforma-se em identidade. Durante demasiado tempo ninguém ocupou realmente este lugar e o regresso da banda aos palcos, desde o NOS Alive 2025, e aos trabalhos de estúdio serve também para reativar essa memória e ter um estilo dito mais “normal” dentro do hip-hop tuga, contendo de resto tudo aquilo que faz dos Macacos do Chinês uma anomalia tão singular dentro da música portuguesa. Pouco depois, na tela por detrás do palco, são projectadas imagens de Fernando Pessoa a vaguear pelas ruas de Lisboa, numa canção que se introduziu deturpando a letra de Carlos do Carmo para “Lisboa menina e moça, macaca!”, sabíamos por isso que se tratava da canção “Pessoa”.
“A Vida é Assim”, dedicada ao padeiro retratado no teledisco do tema, trouxe um dos momentos mais queridos da noite, com direito a ovação prolongada e um coro coletivo recuperado no encore da própria canção. “Lázaro” aparece mais tarde enquanto tema mais quente e fervoroso, envolvendo a plateia num ambiente mais denso. Entre o tarraxo, os desvios eletrónicos e as mudanças bruscas de velocidade, o concerto funcionou sempre seguindo uma lógica própria.
Depois chegou “I’m Rolling na Reboleira”. O momento do serão. Não apenas pela reação da sala, mas porque ali se juntava tudo aquilo que este comeback representa. Uma banda que regressa sem uma nostalgia que nos deixa paralisados, sem vontade de reproduzir um passado intacto, mas consciente do lugar que continua a ocupar. Sentiu-se isso com “Volta Completa” e “Rufias de Molho”, mas o final com “Babilónia” sublinhou-o.
Mais do que a sensação de um concerto de regresso, esta noite na Casa Capitão confirma os Macacos do Chinês como uma das propostas mais singulares da música portuguesa sem que se dependa exclusivamente da nostalgia para o justificar. Não tentam repetir mecanicamente aquilo que foram há quinze anos e o seu novo EP é prova disso.
Texto de Luís Judícibus, fotografias de Gonçalo Nogueira.












