Quando chegou à idade de Cristo mais 1/3, George Harrison pôs de parte as cítaras e os cânticos hindus e entregou-se ao soft rock, mas sem nunca perder a espiritualidade e sarcasmo, que foram a sua imagem de marca.
Em 1976, George Harrison já tinha vivido várias vidas numa só. Desde os primórdios em Liverpool, passando por Hamburgo – ainda menor – atingindo o estrelato durante a Beatlemania, experimentado alucinógenos e descobrindo a sua espiritualidade com a conversão ao hinduísmo, culminando no quebrar de correntes com os outros Beatles e seguindo a sua carreira a solo. Essa carreira a solo começou da melhor maneira mas, lentamente, George foi perdendo terreno. Os seus discos seguintes, embora de qualidade, já não apelavam tanto aos fãs de Beatles que viam em Paul e John e até Ringo, uma espécie de metadona para o vazio deixado pela separação do grupo. Enquanto All Things Must Pass ainda mantinha semelhanças com os sons dos Beatles do final dos anos 70, Living In The Material World e, especialmente, Dark Horse, começavam a alienar os mesmos fãs, levando a sua música para um campo menos apelativo ao público mais mainstream.
Este foi um ano bastante impactante na vida de Harrison. É o ano que marca o fim do longo contrato que tinha com a EMI, editora inicial da sua carreira com os Beatles e dos seus primeiros seis discos a solo (quatro após o fim dos Beatles), o que permitiu, finalmente, a publicação dos seus álbuns através da sua própria label, Dark Horse Records que, até à data, só tinha publicado trabalhos de outros músicos, nomeadamente Ravi Shankar, através de parceria com a A&M. Insatisfeita com os resultados financeiros desta parceria, a A&M roeu a corda, o que fez George dar a dita aos sapatos para ter uma distribuidora para lançar o seu futuro trabalho. A Warner Bros entrou em cena e fez um contrato com George até meados dos anos 90, distribuindo todos os seus discos gravados ainda em vida, incluindo os do supergrupo Traveling Wilburys.

Os percalços ainda não tinham acabado. Neste mesmo ano, o processo que envolvia a Bright Tunes Music Corp vs Harrisongs Music Ltd relativo ao suposto plágio que George teria cometido com “My Sweet Lord”, lançado em 1970 e com relativas semelhanças a “He’s So Fine” das Chiffons, chegaria ao veredicto final. Após várias sessões em tribunal em que o ex-Beatle teve de levar a sua guitarra e mostrar como compôs a música, o juíz decidiu que Harrison fez plágio, embora inconscientemente, tendo sido condenado a pagar uma soma bastante elevada. O caso foi sendo sucessivamente adiado até ao início dos anos 80 e originou voltas e reviravoltas com o seu antigo manager Allen Klein, que comprara a a Bright Tunes para tentar chegar a um acordo mais vantajoso para Harrison, acabando com Klein a tentar processar Harrison após este o ter despedido.
Este episódio foi bastante traumático para George Harrison, começando a ter ansiedade sempre que pegava numa guitarra para compor uma canção nova. A resposta a este evento deu-se com George utilizando o seu humor e sarcasmo, outra das suas características, menos perceptíveis a quem o conhecia mal, mas bem óbvias para os mais atentos, com ‘This Song’, em que, com toda a ironia, o músico diz-nos que esta canção não tem nenhum truque ou Bright (nome da editora que o processou) e que todos os seus conselheiros lhe deram luz verde e que não infringia nenhum direito autoral.
Para terminar, é também em 1976 que lhe é diagnosticada hepatite B, provavelmente devido à vida errática que andava a ter, que culminou na separação de Pattie Boyd, dois anos antes. Não melhorando com meditação, nem sequer com medicina tradicional, a sua doença foi, supostamente, curada com acupuntura, sugerida pela sua namorada e futura mulher, Olivia Arias.
É nesta altura que George se conecta a Eric Idle, um dos Monty Phyton, que participaria em “Thing Song”, com vozes e produzindo o seu teledisco, além de “Crackerbox Palace” e “True Love”, o que, certamente, levou Harrison a decidir hipotecar a sua própria mansão em Friar Park para patrocinar o filme Life of Brian, dos humoristas britânicos – “o bilhete de cinema mais caro de sempre da história”, ironizou Harrison.

Em Thirty Three and 1/ॐ, George reaparece mais ‘saudável’, com um espírito mais leve e isso é bem demonstrativo neste seu novo disco. Nele, George entrega-nos um som mais soft rock, sem entrar no campo mais vulgar, pois George nunca resvalou para esse precipício. É um álbum que nunca perde a classe, nem a sua espiritualidade, que sempre foi uma marca bem presente na sua música, especialmente após Rubber Soul.
Mas comecemos pelo início – o título do disco – que tem um trocadilho com a idade de Harrison à altura e as rotações de um vinil 33 e 1/3. O ॐ (Ohm), aqui a fazer de 3, é o símbolo do mantra mais importante do hinduísmo, religião a qual o Beatle aderiu com todo o seu coração, na altura de Sgt Pepper.
O álbum abre com “Woman Don’t You Cry For Me”, uma das canções com mais groove da sua longa discografia. A faixa, juntamente com “Beautiful Girl”, foi escrita ainda no final dos anos 60, quando George andava na estrada com Delaney and Bonnie, juntamente com Eric Clapton. Delaney ofereceu uma guitarra slide a George e este começou a compôr canções. A música esteve para ser incluída em All Things Must Pass mas acabaria por ser arquivada e apenas recuperada para este disco.
Após o groove inicial, George recupera a sua espiritualidade com “Dear One”, uma faixa acústica belíssima. E se, nesta canção a devoção era a Deus, em “Beautiful Girl”, a devoção é a Olivia Arias, a mulher que o salvou do buraco onde se encontrava. A parte instrumental da canção é, um pouco como todo o disco em geral, uma homenagem à guitarra slide, que flutua por quase todas as faixas, dando um sentimento de pura felicidade.
Após a já mencionada “This Song”, Harrison continua a sua saga espiritual e de conselheiro na sempre actual ‘See Yourself’. Uma música que começou a ser criada após as declarações de McCartney, em 1967, admitindo que tinha tomado LSD numa entrevista televisiva – “It’s easier to tell a lie than it is to tell the truth”.
Em Thirty Three and 1/ॐ, George também homenageia alguns dos seus ídolos, como Smokey Robinson ou Cole Porter, como na belíssima interpretação de ‘True Love’, que com a sua guitarra slide se tornou mestre. A canção é a jóia da coroa.

A slide guitar regressa na pueril ‘Crackerbox Palace’, canção com letras nonsense, inspiradas pelo encontro de George com George Greif, na sua mansão com o nome da faixa, nome esse que George imediatamente escreveu num maço de tabaco, apercebendo-se do potencial para uma futura canção. O teledisco, de inspiração surreal, idealizado por Eric Idle, foi filmado na residência de Harrison, cenário perfeito para as letras e som da canção.
De modo a voltar a ter mais protagonismo no meio musical, George Harrison tomou medidas mais extremas na promoção do disco, coisa que não era costume em si. Essas acções incluíram os tais telediscos humorísticos idealizados por Eric Idle e inúmeras participações em programas de rádio e televisão, onde se destaca uma presença no Saturday Night Live com Paul Simon.
Após dois desastres comerciais (Dark Horse e Extra Texture) e uma tourné norte-americana tão problemática que o fez desistir de voltar a tocar ao vivo até aos anos 90, Thirty Three and 1/ॐ marca um regresso à boa forma, tanto musical como comercial, com um som mais luminoso e de visível felicidade, acabando por ter mais sucesso nos EUA, até pelo seu som mais “americano” do que no seu país natal, onde o punk reinava e os Beatles eram vistos como coisa de velhos.
Num disco que não tem as habituais sítaras, tablas ou sarods, que não contém nenhum cântico hindu, George Harrison consegue manter todo esse seu lado oriental, apenas cantando e tocando instrumentos ditos ocidentais. Thirty Three and 1/ॐ é um compêndio de toda a genialidade de Harrison: espiritualidade, humor e música.