O projeto da cantora albicastrense começou a ganhar maior espaço de evidência há cerca de ano e meio, embora já tivesse alguns antecedentes. E o EP foi um passo importante na trajetória de afirmação.
O tom é melancólico e onírico, lembrando as sonoridades de Elizabeth Fraser com This Mortal Coil ou Cocteau Twins, embora sem a exuberância do timbre da britânica. Vêm de 2020 os passos iniciais na música de MaZela, nome de guerra de Maria Roque, uma embaixadora musical de Castelo Branco que tem feito um percurso muito interessante. Já havia os singles “Naveguei (onde os outros vão)”, de fins de 2023, mas também “Luz no Escuro”, lançado no verão do ano seguinte, ambos englobados no EP.
E foi este Desgostos em Canções de Colo, que ganhou vida em novembro de 2024 e conta com as guitarras atmosféricas, ao estilo de Editors, do também produtor Alexandre Mendes, a promover melhor o seu trabalho junto de um público mais alargado. Incluiu mesmo uma digressão que foi do Maus Hábitos, no Porto, à S.H.E. em Évora, sem esquecer a presença no BOTA, em Lisboa. Neste caso, contando com A Garota Não, uma das vozes no coro final do tema “Entre Amor e Ódio”, outro dos que estão no EP, mas também “Canção a Zé Mário Branco”, uma das canções-sucesso do magnífico segundo álbum da cantora sadina, intitulado “2 de Abril”.
Toda a estética, seja das canções ou dos vídeos, tem uma aura de enorme sensibilidade, privilegiando a serenidade e a Natureza, como acontece com o tema “Naveguei (onde os outros vão)”, marcado por um entardecer deslumbrante. “Luz no Escuro” é uma preciosidade desse género e o vídeo, a elegante preto e branco, mostra a artista, de vestido claro na penumbra e carregando por entre as árvores uma pequena luz que alumia, até se juntar por instantes a tocar guitarra com Mendes.
“Fuga Habita No Meu Quarto” não destoa e o registo em imagens mostra a cantora na cama a escrever a letra da canção num ambiente de cores saturadas em que o vermelho predomina. E “Em Órbita” devolve a intérprete ao acento sonhador, entre o descanso e a leitura com vista para o rio.
Agora já anda por aí “Bordado”, outra prometedora beleza sonora da cantautora. MaZela é uma joia da nova música portuguesa e a sua voz doce o enquadramento perfeito para sofrimentos que se vivem no feminino. Mas que já deixaram de estar silenciados.