O ciclo Conta-me uma Canção regressou em grande, com Sérgio Godinho, Nuno Rafael e os Clã a encantarem o Teatro Maria Matos numa noite de histórias, duetos e momentos musicais que se revelaram tão épicos quanto o jogo Benfica–Real Madrid que acontecia ao mesmo tempo.
O ciclo Conta-me uma Canção está de volta, e é aquela altura do ano em que artistas se juntam e nos encantam com histórias e canções. Em 2026, o pontapé de saída esteve a cargo do gigante Sérgio Godinho, acompanhado por Nuno Rafael, e dos não menos enormes Clã.
Há já algum tempo que costumo dizer que Sérgio Godinho e os Clã são a base da Santíssima Trindade da música moderna e minha contemporânea. O terceiro nome fica em segredo, mas posso adiantar que o encontrei na plateia. Para quem, como eu, passou ao lado dos espetáculos de Afinidades, uma das primeiras colaborações entre o mestre e os seus herdeiros mais diretos, este concerto foi uma forma de apaziguar essa dor.
As canções começaram tímidas, entre conversas que, mais do que entre amigos, assumiam o tom de entrevistas. Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves faziam perguntas ao seu ídolo, quem não faria o mesmo diante de Sérgio Godinho? Rapidamente se percebeu que muitas das canções dos Clã nascem da escrita de Godinho, e isso esteve sempre muito presente ao longo da noite. Falou-se bastante do processo de criação, sobretudo das canções escritas a meias.
O alinhamento de canções foi tão extraordinário que me sinto na obrigação de enumerar alguns dos momentos que mais me tocaram. “Aprendi a Amar”, uma canção carregada de “pré-histórias”, vinda precisamente do disco com esse nome e, nunca antes cantada ao vivo, aguardava um momento especial como este. “Mariana Pais”, uma das canções mais belas de Sérgio Godinho, ganhou na voz de Manuela Azevedo uma nova sensibilidade. Provavelmente é a isso que chamam sensibilidade feminina, mas sem condescendências. “Quatro Quadras Soltas” contou com a participação especial do Guarda Serôdio, também ele personagem do universo de Godinho, aqui interpretado pela voz de Manuela. E se eu esperava ouvir “O Rapaz da Camisola Verde”, com música e imortalização do grande Frei Hermano da Câmara (no pun intended) e letra de Pedro Homem de Melo, não, mas mesmo assim, foi mais um dos momentos marcantes da noite. Porque é quase sempre no encore que os concertos nos arrebatam do chão, ouvimos “O Sopro do Coração”, que eu nem sabia fazer parte do rol de canções de Godinho, e que foi um desses momentos de revelação tardia, pelo menos para mim. A noite fechou com “Espectáculo”, e posso dizer sem pudor que um dos meus pequenos desgostos até agora era nunca ter podido fazer um dueto a três vozes com Manela Azevedo e Sérgio, dizendo:
Não me olhes só desse maple estofado
Desce pela antena e vem comigo ao programa
Vem falar à gente como gente que se ama
E até não se poder mais
Vamos caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaantar
No dia 28 de Janeiro de 2026, no Teatro Maria Matos, aconteceu.
Numa noite marcada por uma ilustre competição desportiva, quem trocou o jogo Benfica–Real Madrid, que se revelou épico, por esta noite de canções não tem motivos para se arrepender. Sempre que Sérgio Godinho e os Clã se juntam, o momento não é menos épico.
Fotografias: Felipe Kido



















