Onde o disco de estreia era zangado mas vital, pois há sempre uma esperança escondida na cegueira da raiva, Corações Felpudos é todo ele morte e rendição (o mundo está estragado, não há nada a fazer, e o amor dói como um espinho no peito).
Daí o seu tom gótico e entorpecido, a tragédia da vida acontecendo em slow motion, e a volúpia do abandono como único consolo. Que a minha miséria seja ao menos bela (segreda-nos), pelo menos o sangue desenha um poema.
Nas suas quatro décadas de existência, os Mão Morta nunca voltaram a repetir tamanho lirismo, tão terna delicadeza, tão imprudente fragilidade. Hiper-cerebrais, dos mais puros espécimens da intelectualidade à esquerda, nunca ninguém percebeu como se permitiram baixar a guarda ao mais selvagem dos “ventos animais”: o amor traído.
Cega pela dor, a besta ferida tudo derruba com os seus coices aflitos, tingindo de vermelho o peito dos adolescentes, uma melancolia pegajosa que se cola aos lençóis. “Soltou-se o amor”, sussurra Adolfo em “Facas em Sangue”, o vago conceito que atravessa o disco.
E uma vez solto, pouco há a fazer. Nenhum ferrolho é inviolável. Nenhuma fechadura aguenta o seu embate…