Os meus primeiros tempos enquanto melómano foram ali entre o final dos anos 80 e o início da década seguinte. Isto significa que já não sou do tempo do vinil mas que também não sou do tempo do cd (lembro-me de ouvir falar nisso, antes de os haver à venda). Eu sou, isso sim, do tempo da cassete. Este era, e foi durante muito tempo, o meu formato de eleição. Carismático, barato, altamente personalizável. E depois morreu.
Seguiu-se, obviamente, o longo e absoluto reinado do cd, que parecia não ter fim. Afinal, era muito portátil, extremamente durável e resistente, facílimo de usar e dava bom som. Até que chegou e massificou-se o mp3, que rebentou com tudo (pelo meio ainda tivemos o Minidisc, que por acaso era um produto fabuloso, mas que por algum motivo não pegou e foi abandonado).
Hoje em dia, as vendas estão ainda em cd (cada vez menos), um nicho crescente mas pouco representativo em vinil, numa corrente extraordinária de venda e tráfico de ficheiros digitais, e no streaming.
Sendo um gajo da velha guarda, tenho centenas de cds e umas dezenas valentes de discos em vinil; sou, desde há uns cinco anos, praticante da pirataria através de downloads ilegais; e sou, há um ano, assinante do serviço de streaming Spotify. Serve este artigo, assim, para vos dar a minha opinião: será que um gajo old school pode, de facto, gostar do Spotify? Sim, pode. E muito.
Para mim, a grande vantagem é a acessibilidade, rapidez de acesso e organização do site. Basicamente, serve para encontrar, fácil e rapidamente, quase tudo o que quero. Isto é especialmente útil para bandas/discos novos e coisas de artistas de que gosto mas dos quais não tenho tudo. Gosto do facto de, através do smartphone, ter acesso remoto ao serviço, o que significa que posso ter toda a música do spotify sem ter de estar em frente ao computador: no carro e na rua, deixando obsoleto o ipod e coisas semelhantes. Acima de tudo, para quem tem sede de conhecer mais e mais música, é um serviço praticamente perfeito. Isto custa-me, por mês, sete euros. Um negócio genial, na minha opinião.
Em termos de defeitos, posso apontar o facto de o spotify não ter tudo (não tem Beatles e não tem o catálogo da Drag City, ou seja, Silver Jews, Bill Callahan, etc), mas encontrei praticamente tudo o que alguma vez quis (e algumas das coisas eram rebuscadas); e o som, naturalmente. É suposto a versão premium, que eu assino, ter um som muito bom, mas nenhum som é muito bom ouvido assim, num computador, com phones manhosos, etc. A verdade é que é melhor que qualquer mp3 sacado da net, e serve perfeitamente para ouvir música no dia a dia.
Prefiro ouvir música no streaming ou na aparelhagem? Nesta última, obviamente. Quando estou em casa, se quiser ouvir Led Zeppelin não vou ao spotify, meto na aparelhagem, como faço em todos os casos em que já tenho fisicamente os discos que quero ouvir. Mas como o sistema de som fica em casa, fora dela não há melhor alternativa.
Desde que comecei a usar o spotify, não comecei a comprar menos música: antes pelo contrário. Não parei de descobrir música que me apetece ter em formato físico. Deixei foi de fazer downloads ilegais (quanto aos legais nem comento, não entendo pagar para ter no computador um ficheiro mp 3 igualzinho ao que se saca de borla…), que nem sempre funcionam e que acabam por trazer um problema: um gajo descarrega 50 coisas e não vai ouvir nem metade. Para além desse pormenor de violar a lei que, confesso, não me incomoda grande coisa.
Sei que o artigo já vai longo e parece publicidade ao Spotify (há outros serviços de streaming, mas que não posso avaliar por nunca os ter usado), mas asseguro que: 1) o Spotify não me fez qualquer desconto! 2) o objectivo do artigo é apenas dar uma perspectiva de um consumidor de música acerca de um serviço, porque muita gente me pergunta como é, se vale a pena ou não, etc.
Sim, o vinil é a coisa mais mágica que há. Sim, o cd continua a ser um formato excelente e o que eu mais uso. E sim, acho que, no futuro, boa parte do comércio musical se fará através do streaming (se não fizerem merdas no serviço e não aumentarem os preços). Mais, esta história do streaming vai mudar, na minha opinião, também o mundo da televisão e do “aluguer” de filmes. A grande vítima destes fenómenos parece-me ser, de facto, a pirataria e os downloads legais (para quê pagar 90 cêntimos por canção para ser o dono de um ficheiro informático se, por 7 euros, podes ouvir todas as faixas que quiseres?). Quem gosta de música continuará a consumi-la. Quem gosta de música tanto como eu, se tiver meios, continuará a comprá-la em formato físico para ouvir numa boa aparelhagem e para manter a ligação romântica e táctil à música.
Para quem acha que a “luta” é entre o cd/vinil e o streaming, provavelmente discordará das minhas conclusões. Para quem pensa, como eu, que o streaming responde, isso sim, aos downloads, tem aqui uma excelente solução.
Que continuemos, todos nós, a desfrutar de muitos e bons discos, seja de que forma for. Espero que tenha ajudado, pelo menos, a lançar a discussão.
