O que é ver Samuel Úria em concerto se não um regresso a casa, uma celebração que não precisa de desculpa ou pretexto para acontecer?
Já foi dito inúmeras vezes e um pouco por todo o lado (aqui certamente que sim) que Samuel Úria é um dos maiores escritores de canções da nossa praça, e muito será ainda dito sobre isso no futuro, estamos certos disso. Ademais, é sobejamente conhecido que as suas capacidades performativas não ficam aquém das criativas, e o que não falta por aí são elogios ao seu gingar de anca rock and roll. Assim se explica que não tenhamos saído particularmente surpreendidos do concerto que deu no Teatro São Luiz na passada terça-feira, dia 8 de outubro do ano da graça de 2024. “Mais foi mau?” – pergunta o leitor inquieto – não, foi estupendo… como é sempre.
A festa abriu com “Espalha Brasas”, do saudoso álbum O Grande Medo do Pequeno Mundo, que celebrou dez anos no ano passado. Acompanhado pelos colegas habituais – Jónatas Pires, Silas Ferreira, Miguel Sousa, António Quintino e Tiago Ramos – e por um coro gospel que emprestou ao concerto ares de missa-punk, Samuel Úria apresentou-se impecável num fato branco e bota de tacão, qual Roberto Carlos dos pobres, como o próprio se apelidou. Depois de agradecer aos amigos que encheram o Teatro São Luiz, uma sala onde se sente em casa, para o ver, explicou que aquele concerto não era de lançamento de um disco novo, mas sim de prenúncio de um disco que sairá no final do ano (6 de dezembro) e cujas canções começam a ser “vertidas” para a internet. “Canção de Águas Mil”, já cá fora, foi a primeira das canções novas que surgiu na setlist, depois de “Aeromoço”. Numa bonita versão acústica – Samuel Úria referiu várias vezes que aquele era um concerto com predominância de guitarras acústicas – foi-nos explicado que o tema da segunda faixa de 2000 A.D. é “a revolução que aconteceu há 50 anos e que ainda está em curso”, sendo, portanto, apropriado tocá-la ali tão perto do Largo do Carmo.

A celebração prosseguiu sem arriscar muito no alinhamento, que privilegiou, fora as canções novas, os hits de Carga de Ombro, que em 2016 teve naquela mesma sala a sua festa de lançamento, Marcha Atroz, o EP de 2018, e Canções do Pós-Guerra, de 2020. “Ei-lo”, uma canção para a eternidade, como lhe chamou Samuel Úria, teve direito a uma estupenda versão com a solista Rebeca Reinaldo a ocupar muito bem o lugar de Selma Uamusse. “A Contenção”, uma canção de hétero-ajuda, teve direito à ajuda do público do costume no refrão – “segue em frente, segue em frente, segue em frente ah ahhh”. “Fusão” foi talvez o momento mais pesado de um concerto que se manteve mais gospel-folk do que panque-roque, e “Barbarella e Barba Rala”, a canção tondelense gravada em Coimbra, regravada em Évora e que teve sucesso em Lisboa, foi doce e deliciosa como é sempre (a escriba deste texto é de Lisboa e tem todo o gosto em confirmar a teoria do sucesso da canção que o seu autor apresentou).
Do novo álbum, Samuel Úria mostrou seis das nove faixas. Das já conhecidas, para além de “Canção de Águas Mil”, tocou também “2000 A.D.”, canção que dá nome ao novo trabalho, e “Xico da Ladra”, a bonita homenagem que fez ao amigo e figura icónica da cena alternativa lisboeta que faleceu em 2020, em jeito, não de lamento, mas de celebração da vida. De resto, a julgar pelo que foi desvendado no São Luiz, podemos adiantar que o novo álbum de Samuel Úria trará mais gospel, com mais impressionantes participações do seu coro (em “Era de Ouro”), e uma nova voz para quem Samuel planeia ser o Júlio Isidro, no que a divulgação diga respeito: a doce Carol (em “Daqui para trás”).

Terminadas as novidades e já quase a acabar, o encore trouxe Samuel Úria em modo solo para o início de “Lenço Enxuto”, outro hino cuja genialidade já não espanta ninguém, mas que reconforta sempre ouvir. “Vem de Novo”, a canção menos elétrica de todo o alinhamento, soou belíssima na sua simplicidade texturada pelos instrumentos acústicos que de repente surgiram em palco para o fim da festa, e “É Preciso Que Eu Diminua” fechou com chave de ouro, com a plateia de pé a juntar-se à dança.
Saímos do São Luiz felizes e de coração quente para o ar morno de um outubro ainda pouco outonal. Nada do que aconteceu no interior nos deixou estarrecidos e não podemos deixar de suspirar por pérolas antigas e menos vezes tocadas do já vasto repertório de Samuel Úria, que teriam encaixado bem na onda acústica deste concerto. Mas a verdade é que o desempenho de todos os músicos em palco (e não foram poucos) foi exemplar, todas as canções soam soberbas quando tocadas como foram gravadas em estúdio, com banda completa e coro, e o disco novo promete. Sorte a nossa quando um concerto deste nível não mexe especialmente connosco e sorte a nossa por ter Samuel Úria sempre tão perto.
Alinhamento:
- Espalha Brasas
- Aeromoço
- Canção de Águas Mil
- Tema Triste
- Ei-Lo
- A Contenção
- Xico da Ladra
- Era de Ouro
- Quem Me Acende a Voz
- 2000 A.D.
- Daqui Para Trás
- Fusão
- Barbarella e Barba Rala
- Carga de Ombro
Encore
- Lenço Enxuto
- Vem de Novo
- É Preciso Que Eu Diminua
Fotografias: Hugo Amaral

































