Neste antecipado refresco de verão, os nossos típicos Real Estate, na sua típica toada alegre, cantam típicos problemas da vida e, como é típico, acrescentam umas décimas à nossa qualidade de vida. No entanto, este novo conjunto de canções, aparentemente típicas e perpetuadoras da fiel fórmula que elevou a banda ao atual estrelato, compõe, na verdade, um importante ponto de viragem no seu crescimento.
Ao longo de quinze anos, os Real Estate contribuíram em abundância e qualidade para o legado indie rock. O seu estilo despretensioso, reminiscente do pop elétrico outrora popularizado pelos Byrds, distingue-se sobretudo por contar com harmoniosas atmosferas sonoras, quase sempre basilares numa cacofonia de guitarras e assiduamente acompanhadas pela sibilante voz de Martin Courtney. Este que, por sua vez, junta-lhes letras melancólicas e desgostosas e, em contraste com o gáudio instrumental, cria um espaço híbrido de sentimentos; um agradável paradoxo que coloca o ouvinte entre o leve sorriso de conforto e a benigna lágrima de fugaz melancolia. Desde 2009 que tem sido esta a receita, e desde 2009 que não sofrera grandes alterações. Mas, agora é tempo de metal…; não, ainda não.
Pronto, digamos que foi “apenas” (muito) aperfeiçoada. Apesar de continuarem a seguir a doutrina lírica e instrumental de sempre, os Real Esatate demonstram em Daniel um estrondoso refinamento das suas composições. Dominam finalmente um pop perigosamente viciante que, a partir de melodias mais simples, e, no entanto, mais presentes, dera origem a temas que tão naturalmente nos perseguem o dia todo, do duche até ao escritório.
Refrões, versos, “pontes” e segundos versos jamais coexistiram em semelhante harmonia em todo o historial da banda, e, impressionantemente, em cada um dos temas de todo o álbum. Ainda assim, há sempre filhos que saem melhores do que outros. “Water Underground”, “Hunted World” e “Flowers” representam nitidamente o cúmulo do seu desenvolvimento composicional e merecem o devido destaque, com refrões que vão ser difíceis de raspar da língua – embora, “Somebody New” e “Interior” estariam logo a seguir.
E não pensem que se trata do mero melhoramento de uma antiga fórmula que se repetirá, novamente, até aos confins do tempo. Não. “Freeze Brain” e “You Are Here”, enquanto território nunca antes explorado pelos Real Estate, representam um primeiro impulso de emancipação da velha monotonia: temas quase isentos de guitarra (deve-lhes ter custado horrores), onde a bateria ganha uma nova hegemonia e a melodia é posta em segundo plano; dando-lhe uma pitada de trip-hop, que, para dizer no mínimo, não lhes fica nada mal.
Daniel muito simplesmente marca o início do aguardado amadurecimento de uma banda isolada na sua juventude, no seu confortável e imperecível recanto sonoro, durante quase uma década e meia. Chegou, por fim, a puberdade, para que se apague a obstinada criança, e com ela vir um outro aproveitamento da vida. Os Real Estate, em 2024, abraçam a música com mais maturidade e mostram que crescer não significa necessariamente deixar morrer: as guitarras são as mesmas de 2009, 2011, 2014, 2017 e 2020. No entanto, a música é outra.