No passado fim-de-semana as Edições Umbria presentearam-nos com a segunda edição do Festival Penumbra. Dois dias em que a Bota encheu até ao seu limite para assistir a seis dos mais interessantes projetos musicais do panorama underground nacional.
penumbra
nome feminino
- Ponto de transição da luz para a sombra.
- [Física] Estado de uma superfície incompletamente iluminada por um corpo luminoso cujos raios são em parte interceptados por um corpo opaco.
- [Astronomia] Sombra de um corpo celeste onde a fonte de luz é parcialmente ocultada.
- [Por extensão] Luz pouco intensa, própria de fases do dia como o amanhecer ou o entardecer ou de ambientes pouco iluminados. = meia-luz
(“penumbra”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/penumbra.)
O jogo entre luz e sombra, as suas transições, os seus cambiantes e os seus contrastes são elementos que, não por mero acaso, ajudam a descrever o que se pode viver durante o Penumbra.
Se é verdade que a analogia poderá ser enganadora porque, na prática, se crê que o objetivo da Umbria seja, precisamente, contribuir para tirar estes projetos da sombra, penso que será mais interessante não ficarmos só pela dimensão da visibilidade dos artistas e das bandas presentes. É claro que isso é importante e, por aí, penso ser claro que o objetivo da referida editora terá sido muito bem cumprido.
Sem querer abusar da vossa complacência, permitam-me extravasar um pouco no jogo da palavra, porque o que eu senti com mais força nestes dois dias foi precisamente o oposto. A Umbria pegou em nós, pegou em mim, e fechou-nos quase literalmente a luz … para nos podermos absorver na música e nas sensações que esta nos transmite.
Dia 12/01
O sonho de Olivia Combs
Olivia Combs é o nome do projeto solitário de Miguel Moura – com quem temos a sorte de privar no Altamont – e não … nunca pretendi que esta reportagem fosse neutra e objetiva.

Apesar de escondido por detrás da maquinaria (órgão e laptop) e escudado pela guitarra elétrica, o Miguel aproveitou a penumbra precisamente para se expor … expor sentimentos, emoções e sonhos através de uma atmosfera eletrónica conduzida, ora pela sua voz, ora pela guitarra. Eu vinha à espera de outra coisa, confesso … muito focado num registo mais frio do EP Platforms (de 2018), a ambiência pop eletrónica do início do alinhamento e sobretudo a sensação de proximidade, de conversa íntima, transmitida pela sua voz, obrigou-me a recalibrar a mente … a situar-me e a abraçar o escuro! Com artista e público cada vez mais distantes do bulício maquinal de um fim de tarde de sexta-feira na cidade, o som foi progressivamente fugindo para tonalidades mais ambientais e o concerto acabou numa aura próxima do que imagino ser uma aula de yoga.

As (boas) vibrações de Iguana Garcia
Vamos lá recalibrar outra vez! Não, Rui … o som não vai ser igual ao que estiveste a ouvir nos dias antes do Festival … até porque a Iguana, ou melhor, o João Garcia, não veio sozinho e trouxe um comparsa no saxofone.

A malta apanha-se no escuro e toca de fazer surpresas! Repito, esta reportagem não é clara nem objetiva e a roupagem que Iguana Garcia trouxe ao Penumbra custou-me muito mais a entrar! Nem todas as coisas são fáceis de entrar à primeira, tenho essa muleta, tenho essa desculpa. A mim soou-me demasiado lounge para os meus ouvidos, sobretudo quando o saxofone enveredou por caminhos mais doces. Em minha defesa tenho apenas a ideia de que ainda não cheguei à fase de pensar que serão todos os outros que estão em contramão … porque, na verdade, todos os outros presentes na sala da Bota mostravam estar perfeitamente sintonizados nas boas vibrações da Iguana.

A bolha enfeitiçante dos Galgo
Alerta fanboy parte I: os Galgo têm-se tornado numa das minhas bandas preferidas, sobretudo, numa das minhas bandas preferidas em concerto. Sinto que o quarteto lisboeta tem construído a sua entidade sónica integrando de forma muito personalizada um conjunto de elementos provenientes dos mais diversos estilos. Dance-rock, post-rock, space rock, dance punk, kuduro, psique, afrobeat, … as etiquetas são muitas, e ainda podem ir buscar mais … dependerá sempre dos vossos ouvidos!

Eu cá, acho que eles conseguiram achar a receita perfeita do feitiço sónico: matemática com groove. Executado em palco, toda a sala é envolta por uma bolha que transforma os presentes em corpos e mentes dançantes que nem tribo indígena à volta da fogueira. Que maravilha!

Dia 13/01
Deixa-te hipnotizar pela Jibóia
Alerta fanboy parte II: Cada vez estou mais convencido que os dedos de Midas reencarnaram nas baquetas do Ricardo Martins. À medida que vou descobrindo um disco ou uma banda onde o homem está, cresce a lista de concertos a que quero ir.

O segundo dia começou no mesmo estado de espírito de como o primeiro acabou, em hipnose coletiva. Ainda que existam pontos de contacto entre os Galgo e os Jibóia, nomeadamente o equilíbrio entre o orgânico e a eletrónica e a magia do groove, parece-me claro que estes últimos se movem em paisagens diferentes … igualmente cativantes, mas mais calmas e contemplativas … em que a matemática dá lugar à geografia.
Saímos da bolha, entramos no globo da Mafalda e passeamos por ambientes musicais que têm tanto de rico como diverso. Para concluir o roteiro, os Jibóia trazem ao palco a maravilhosa Daiyen Jone. Primeiro na flauta transversal e depois na voz, os quatro músicos rompem a penumbra e criam o momento mais iluminado de todo o festival.

O breu intenso dos Erosão
Não sei se é por os Erosão serem parte integrante da Umbria, mas os rapazes levaram o conceito de Penumbra mesmo a sério. A sua atuação pareceu-me, sem grandes dúvidas, o momento mais escuro do festival.

Se há uma parte literal nesta assunção, e daí as fotos a preto e branco, quero-me focar (no pun intended) sobretudo no lado metafórico. Os erosão parecem agarrar por completo o conceito de “abraçar as sombras”, seja na dinâmica de irromperem pela calma jazzística com explosões sónicas a roçarem o metal alternativo, seja pela pesada profundidade da poesia que conduz as suas composições. Brutal … de tão bom!

O delírio consciente das Sereias
Como estamos a chegar ao fim, vou mesmo tomar a liberdade de abusar no jogo dos contrastes resultantes da Penumbra. Penso que tenho fortes razões para isso, se não, vejamos.

Erosão e Sereias parecem partir do mesmo sítio, da mesma base. O som de ambas é fortemente marcado por tonalidades jazz rock contemporâneas – assinaturas rítmicas atípicas, utilização de metais (Saxofone nos primeiros, trompete nos últimos) – que acompanham a poesia declamada.
No entanto, se como vimos antes, os Erosão seguem, sem medos, para o buraco escuro da dicotomia preto e branco, os Sereia enchem a tela de cor. Há um groove permanente nas suas composições, que nos faz automaticamente dançar enquanto tentamos entrar na mente de António Pedro Ribeiro. O que se demonstra ser particularmente difícil, porque para além da música nos querer levar para o nirvana de desligarmos o cérebro e só sentirmos, os poemas de intervenção são debitados num registo perto do delírio … como se os índios, dançando à volta da fogueira sob o som dos tambores estivessem verdadeiramente a entrar em consciência sobre a sua condição de guardiões da natureza acossados pela ganância do progresso material.

Fotografias e texto por Rui Gato
























































