Desafiámos os nossos escribas a fazer a difícil escolha de selecionar um álbum, uma banda/artista, uma música, um concerto e um artigo escrito no altamont que os tenha marcado, nestes últimos 20 anos. Poderão vê-las no decorrer das próximas semanas, aqui e na nossa página de instagram.
Um álbum: Gorillaz – Demon Days (2005)
Um trabalho diverso, recheado de músicas suculentas, colaborações de variados géneros e ritmos da banda virtual, que resultou, acima de tudo, da magia criativa de Damon Albarn. São 15 faixas a deliciar quem ouve a explosiva “Feel Good Inc.”, mas também “Dirty Harry”, “All Alone”, “November Has Come” que nos conduzem por territórios como rock, rap, punk, eletrónica, blues, etc. E inclui a presença do Cinema em “Fire Coming Out of the Monkey’s Head“, cuja narração é de Dennis Hopper (“O Gigante”, “Easy Rider”, “Apocalypse Now”, “Blue Velvet” ou “Speed”). Um disco memorável.
Uma canção: “Canção a Zé Mário Branco” – A Garota Não
A Garota Não, nome de guerra de Cátia Mazari Oliveira, é a principal revelação da música de intervenção em Portugal nos últimos anos. Crítica certeira, mordaz, atual, sempre a cantar “o que dói no país”, como refere na “Canção a Zé Mário Branco”, homenagem a um dos mais marcantes cantautores de Portugal e defesa intransigente da Liberdade em tempo de crescimento do cancro que é a extrema-direita. O primeiro álbum, Rua das Marimbas, n.º 7, afirmou-se de mansinho nas rádios; 2 de abril, cujo título remete a um tempo para o bairro social de origem da artista e para a data de aprovação da Constituição em 1976, consagrou-a. E já aí está o terceiro.
Uma banda / artista: Clã
Manuela Azevedo é gigante e camaleónica em palco; as letras das canções, que foram tendo autores como Carlos Tê, Manel Cruz, Arnaldo Antunes, Adolfo Luxúria Canibal, entre outros, transformaram-se logo em clássicos; a composição de Hélder Gonçalves facilita a vida de toda a gente na banda; a qualidade dos instrumentistas completa o quadro. E os Clã, formados no dealbar da década de 90, conquistaram audiências a cada novo trabalho, a cada concerto, a cada digressão, num percurso artístico com identidade própria. Aí estão “Problema de Expressão”, “Pois É”, “Um Sopro do Coração”, “Sexto Andar”, “Não te Cai Bem”, “H2omem”, “Dançar na Corda Bamba” ou “Tudo no Amor” a demonstrá-lo.
Um concerto: Chico Buarque || Coliseu de Lisboa (2006)
Foi a enésima visita do génio brasileiro a Portugal e, como de costume, inesquecível. Era um regresso após 13 anos de ausência e assinalava o lançamento do álbum “Carioca”. Mas Chico é sempre muitíssimo mais do que o disco do momento. É História. É Liberdade e Democracia. É “A Banda”, é “Apesar de Você”, é “Construção”, é “Fado Tropical”, é “Tanto Mar”, que celebra a nossa Revolução, é “O Que Será”, é “Olhos nos Olhos”, é “João e Maria”, é “Cálice”, é “Geni e o Zepelim”, e tantas, tantas outras canções imortais. Em Lisboa como no Porto, o Coliseu cantou em coro e explodiu de aplausos. Quem lá esteve guardou cada precioso instante na memória. E as emoções todas no coração.
Um artigo: Pulp – Different Class (1995)
Uma análise imersiva e quase mística de um disco fantástico que, de uma forma ou de outra, deixou marcas musicais e não só, associadas a passagens da vida de uma geração. Different Class é, de facto, uma rara coleção de tons que vão do mais claro ao mais escuro e sempre a atrair melómanos, porque a estranheza de Jarvis Cocker entranha-se mesmo. E, por isso, não é possível deixar para trás “Common People” tal como não é possível esquecer outras canções que nos hipnotizam pela simplicidade das linhas melódicas, mas também pela sofisticação das letras. Se há banda e disco a que sempre se volta, Pulp e Different Class são disso bons exemplos.