Com Idols, Dom Harrison, o senhor YUNGBLUD, continua a sua missão de reinventar o rock com pose, pulso e propósito. É um disco marcado por uma ambição crescente, onde a teatralidade encontra a vulnerabilidade, o refrão bate mais forte, o passado de várias latitudes sonoras é revisitado com olhos postos no futuro.
Primeiro as notícias que, longe de más, podem desanimar os adeptos mais fervorosos: este ainda não é o álbum que consagra YUNGBLUD de forma definitiva — mas é o que mais nitidamente, desde o começo da discografia em longa duração, em 2018, anuncia a chegada de alguém destinado a algo maior.
Vindo de Doncaster, cidade do norte de Inglaterra mais associada a centros comerciais e linhas férreas do que a revoluções musicais, YUNGBLUD construiu-se à margem do previsível. A sua música carrega a urgência de quem cresceu num lugar onde o ruído era mais social do que artístico. Mas foi em Londres, numa escola de artes performativas, que Dom Harrison afinou o seu lado mais teatral, polido e tecnicamente apurado. O resultado é um artista completo — cantor, performer, presença magnética — que tanto sabe rasgar o palco como entregar um sussurro com peso dramático.
Em Idols, essa faceta brilha. A voz de Harrison é flexível e crua, ora agressiva, ora emotiva, sempre com uma entrega instintiva. Há canções que convocam as figuras tutelares de David Bowie e Iggy Pop — com Brian Molko a acenar do lado de lá da porta, cúmplice na escuridão glam, e Elton John a espreitar à janela. “Lovesick Lullaby” é a melhor de todas, ginga inglesa dançante, rock saltitante e festivo, “Hello Heaven, Hello”, logo a abrir, marca o passo e impõe respeito.
YUNGBLUD pisa terreno sagrado com respeito, mas também com a irreverência de quem quer deixar a sua própria pegada. Essa ousadia teve um dos seus pontos altos no recente festival onde os melómanos se despediram dos Black Sabbath, Back to the Beginning – aí, interpretou “Changes” com uma intensidade rara. Foi o seu momento “Live Aid”: já era conhecido, claro, mas ali, diante de uma multidão e de um legado imenso, terá começado para a maioria o verdadeiro culto. Um miúdo de Doncaster, um microfone, a emocionar o público com uma canção que não era sua — mas a fazer com que sempre o fosse (ah, a guitarra era de Nuno Bettencourt).
Idols não é um disco sem falhas. Em alguns momentos, nota-se uma produção excessivamente limpa, demasiado pop no mau sentido, que esbate a energia suja e crua que tão bem lhe assenta. Há temas que parecem mais preocupados em soar atuais do que em ser autênticos. Há algumas baladas mais desinspiradas – é no rock mais duro que YUNGBLUD brilha.
Não é todos os dias que aparece alguém assim: carismático sem forçar, teatral sem perder a emoção, ambicioso sem cair no vazio. Idols ainda não é o disco da consagração total, mas é o mais sólido até agora — e deixa claro que, se há hoje alguém preparado para ser uma espécie de Bowie dos tempos modernos, com um pé no punk e outro no drama pop, é este miúdo de Doncaster. O culto já existia para alguns, mas a partir daqui o artista vai até ao fim da rua, ao fim do mundo.