Um excelente disco maduro de uma banda eternamente adolescente.
Cinco anos depois da nova vida trazida por Father of the bride, que conquistou lugar entre os nossos discos favoritos de 2019, os Vampire Weekend regressam com um dos discos mais aguardados do ano, este Only God was above us. Se esse disco anterior foi bem conseguido, através de alguns grandes singles, deixou também vários pontos de interrogação que poderiam agora ser respondidos. E, de certa forma, são-no.
Father of the bride trouxe uma inédita abertura no som dos Vampire Weekend, que alargaram claramente o seu arsenal de composição e de soluções de arranjos, levando-os a terrenos até então não explorados, como o country, apenas para dar um exemplo. Se essa foi a prova de que a banda de Ezra Koening poderia quebrar o molde e, musicalmente, ir para onde quisesse, não estava claro se o devia fazer ou o que iria fazer com esse poder. Ora neste novo disco a resposta foi, na nossa opinião, a mais acertada.
Isto porque, agora, o grupo apresenta um disco igualmente ambicioso mas de forma diferente. Se, no álbum anterior, os Vampire Weekend se estenderam “para os lados”, aqui essa ambição concentra-se em explorar de forma aventureira aquilo que eles são, na sua essência, em vez de procurar uma nova. Por outras palavras, em vez de explorar “para os lados”, concentraram-se em explorar “em profundidade”, dentro do que é o seu espaço natural e o que os torna tão especiais e tão idiossincráticos.
Only God was above us é, por isso, um disco auto-referencial, piscando discreta ou descaramente o olho a frases, truques e private jokes de músicas e discos anteriores que os fãs entenderão, com um sorriso saudoso de quem eles eram e de quem nós éramos. O que é difícil fazer – e eles conseguem-no – é revisitar esse passado e essas traves-mestras do seu som sem cair na repetição. E, aqui, esses toques são meras referências, pequenas vinhetas – um riff aqui, um break de bateria ali – que nos transportam imediatamente para o seu universo sonoro tão particular mas sem se esgotar naquilo que já foi feito.
É claro que estão aqui as canções, algumas grandes canções, aquilo que sempre foi um dos fortes do grupo, liderado de forma sempre familiar pela voz inconfundível e o timbre eternamente adolescente de Koenig.
Mas este já não é um adolescente, já é pai, e já nem sequer vive em Nova Iorque, cidade-berço da banda e sua grande inspiração temática. E isso, na verdade, faz parte do universo deste disco. Um trabalho que olha para trás, para de onde se veio e o que isso significa. Talvez a distância e as saudades – os músicos vivem em Los Angeles – tenham apurado essa lente nostálgica sobre a cidade que continua a pulsar desse especial magnetismo, mesmo que a eterna gentrificação a mude todos os dias.
Podemos notar isso em várias letras, referências de uma cidade que existe ainda ao lado de outras de um espaço que já passou, numa nota de maturidade e de algum cansaço emocional carregado de dignidade. Essa análise, essa busca de respostas do que somos e do quanto isso é formado pelo que fomos – enquanto indivíduos e até enquanto geração – confunde-se com uma espécie de carta de amor emocional a Nova Iorque.
Aquilo que mais salta à vista após repetidas escutas do disco é a sua enorme profundidade, tanto na composição como, sobretudo, nos arranjos e na produção. Cada canção tem dezenas de camadas de pormenores, surpresas subtis, opções arrojadas e frescas a cada cruzamento melódico. Não que Only God was above us seja um disco difícil, até porque tudo é servido por melodias de base com o costumeiro sentido pop dos Vampire Weekend. Mas é um trabalho que, felizmente, não se esgota rapidamente em dois ou três singles açucarados mas dos quais nos fartamos rapidamente, por falta do que explorar.
As canções estão lá, muitas e boas, mas sempre trabalhadas e carregadas de pormenores e boas ideias, que asseguram a este disco – apostamos – uma longevidade muito interessante. Aqui chegados, ainda não falámos de canções específicas. Isso não é coincidência, porque este é um trabalho muito coeso e ganha se ouvido como um todo.
É claro que nos deixamos conquistar facilmente pela energia esfuziante da abertura, com “Ice cream piano”; ou pelo clássico melódico instantâneo de “Classical” – que até começa com uma assumidíssima batida hip-hop – ; pela lenta, cansada e belíssima balada “Capricorn”; pela auto-referencial “Connect”, com um contrabaixo e uma bateria a lembrar outros tempos; pela adolescente “Prep-School Gangsters”; pela livre e tocante deambulação quase jazzística de “The surfer”; pela strokesiana rocker de “Gen-X Cops”; pela pequena e discreta pérola que é “Mary Boone”; pela leveza quase fantasmagórica de “Pravda”; ou pelo fecho com uma quase campfire singalong que é “Hope”. E, neste parágrafo, temos as dez canções e os 47 minutos de Only God was above us, todas e todos com motivos de interesse.
Ao quinto tomo, os Vampire Weekend ainda estão por fazer um disco abaixo de um nível médio-alto. E este Only God was above us pode ser visto como seu Pet Sounds (perdoe-se a heresia), pela forma como combina mestria pop com uma enorme ambição de produção, composição e arranjos.
Certamente um dos discos marcantes de 2024.