A edição deste ano do Tremor esteve longe de ser apenas – e já seria muito – o consolidar de um sonho: foi uma celebração dos Açores, eixo central de encontro entre arte, sustentabilidade e natureza.
Durante quase uma semana, São Miguel voltou a ser um verdadeiro palco vivo, onde cada trilho, cada som e cada gesto contavam uma história de conexão e descoberta – isto é a leitura de quem vem de fora. Para quem, como o escriba, reside nos Açores, esta é a semana de reencontrar amizades, umas mais presentes, outras menos, ao som de algum cançonetismo alternativo.

Infelizmente, foi um ano de algumas limitações pessoais que impediram a plena fruição do festival, nomeadamente dos seus momentos mais imprevisíveis, mas o balanço final é de sucesso e consolidação – ao contrário da edição de 2024, mais difícil e com menos projetos mais imediatos, este foi um ano com música mais orgânica e abrangente, que terminou, inclusive, em modo de fúria dançante, com a celebração rock a José Pinhal.
As ‘performances’ conduziram os participantes por paisagens únicas – houve banhos termais, caminhadas, um diálogo entre música e natureza. Mas não se assustem os menos esotéricos – houve também rock, concertos com ‘mosh’, contemplação de violas, e, grande elemento deste ano, muito Açores nos palcos.

Com efeito, o concerto de Romeu Bairos no Coliseu Micaelense terá sido um dos momentos mais globais de celebração: houve Zeca Medeiros em palco, repertório das ilhas, religiosidade e música de qualidade. A certa altura, avistamos Nuno Costa Santos e Rui Pedro Paiva (duas figuras maiores do espaço mediático e cultural do conceito atual, amplo, de açorianidade) a abanar a cabeça em jeito de aprovação. Só faltou Pedro Pauleta, mar e uma vaca para um retrato pleno dos Açores naquela noite.
A colaboração deste ano da Escola de Música de Rabo de Peixe, sempre um momento alto de cada festival, foi com o saxofonista francês Guillaume Perret: foi bonito e até comovente a espaços. O Tremor é, ainda, largos anos depois, palco para muitas emoções – consta que Eugénia Contente e as várias figuras ligadas ao hip-hop também promoveram momentos de acentuada açorianidade.


Num certame ainda e sempre dedicado à novidade, foi aconchegante tomar contacto com dois veteranos como Norberto Lobo e Ben Chasny (o senhor Six Organs of Admittance). O projeto “Paredes”, de homenagem ao histórico guitarrista, é mais que uma dedicatória e menos que uma epifania – celebra-se uma herança mas há um louvável transcender de fronteiras, com novas peças e não a pura adaptação de temas de Paredes. Muito recomendável.
Reforçado foi, uma vez mais, o compromisso do festival com a sustentabilidade e a valorização do património local. Esta é uma aposta arriscada: sabemos que uma t-shirt oficial do evento vender-se-ia certamente na casa das largas dezenas, mas a aposta é de cada festivaleiro trazer a sua peça de roupa para estampagem no evento. Sustentabilidade, pois claro.

O Tremor tem recebido distinções nacionais e internacionais – algumas até bem recentes, como as do Iberian Festival Awards ou da TimeOut -, mas, felizmente, tem-se sabido manter um evento autêntico e genuíno. Com dificuldades e dores de crescimento, este ano pouco visíveis.
Sem grandes novidades nos espaços de concertos, Ponta Delgada, em concreto, tornou-se por estes dias um organismo vivo, pulsante. Até deu, no sábado, para cruzar festivaleiros com adeptos do Sporting (houve jogo com o local Santa Clara) e, importante também, os locais. Houve também degustação de iguarias locais em Rabo de Peixe, ‘dj sets’ (bons apontamentos de Las Makinas e Gay da Cinemateca) entre o anárquico e o catártico – para alguns não terá faltado o bife à regional, as tradicionais lapas (apesar de ser ainda época de defeso e só se poderem comer as congeladas) ou aquele bolo lêvedo maroto com manteiga e alho.

Houve várias ‘talks’, o garboso Diogo Lima teve um espaço diário na RTP/Açores, e, correndo bem, para o ano que vem o escriba terá oportunidade de ver mais concertos e falar menos da experiência extra-musical – que é sem dúvida única e inesquecível, sim, mas que para os locais se vive 12 meses por ano. Até já.
Fotografias de Vera Marmelo, André Saudade e Your Dance Insane gentilmente cedidas pela organização