No início do fim de semana no Tremor, fomos de Ponta Delgada à Ribeira Grande, com uma paragem nas montanhas para recarregar baterias. Uma viagem ao som de Violas da Terra, beats hipnóticos e Hip-Hop Açoriano.
Comércio local em Ribeira Grande e o futuro da música em Rabo de Peixe
O terceiro dia do festival propunha uma excursão, com várias paragens, tempo para degustar a gastronomia local e até e direito a autocarro (para quem quisesse). Partimos de Ponta Delgada a meio da tarde com o concelho de Ribeira Grande como destino. Primeira paragem: o mercado municipal (e você, caro leitor, há quanto tempo não apoia o comércio local?).
Os La Jungle, duo belga de rock meio noise, meio kraut, meio techno, foram o aperitivo para o que a noite ainda nos traria. Num palco meio improvisado no meio do mercado, conseguiram conquistar os festivaleiros presentes com a sua bateria incansável e a sua guitarra dançante, sabendo puxar pelo público. As expressões faciais do guitarrista Jim (que várias vezes esteve perto de bater com a cabeça na cobertura do mercado dada a sua altura de centro-europeu) e a estamina braçal do baterista Roxie foram provavelmente os pontos que mais nos impressionaram num concerto impressionante ao início, mas que rapidamente se tornou repetitivo.

A vila de Rabo de Peixe pode ter ganho uma renovada notoriedade graças à série da Netflix mas não terá sido por isso que esteve, desde o primeiro dia, presente no pensamento dos festivaleiros do Tremor. Seria ali, mais precisamente no porto de pescas, um dos concertos mais aguardados do evento, Sam The Kid com a Escola de Música de Rabo de Peixe e convidados.

Há que dizer que as condições que ali criaram para o espetáculo estavam longe de ser as melhores: o palco baixo e o terreno plano tornaram a visibilidade muito difícil e o PA fraco acabou por dar de si no fim do espetáculo. Tudo isto é uma pena porque o concerto que Sam The Kid preparou com a escola de música de Rabo de Peixe, honrando a tradição de colaboração entre o festival e esta instituição, foi realmente memorável, não tanto pelo conteúdo musical apresentado, mas pelo simbolismo do momento e pela emoção e entrega de todos os envolvidos.
“De Chelas para Rabo de Peixe” – foi assim que, depois de ouvirmos a sua primeira e única intervenção musical da noite com “Sendo Assim”, Samuel abriu as hostilidades dizendo que era uma honra estar ali, naquele contexto, a mostrar o talento que há nos Açores. De um lado do palco a banda da escola de música, que preparou os arranjos, e do outro os rappers açorianos que responderam à open call lançada pelo festival. No meio, o local onde, à vez, cada um dos artistas teve a oportunidade de mostrar uma música, sob o olhar atento do mentor Sam The Kid. Relações amorosas, amizade, vida nos Açores, em português, mas também em inglês, foram variadas as apresentações dos rappers, todos rapazes exceto uma rapariga, a fantástica Joana Pacheco, da ilha Terceira. Na “maior concentração de Hip-Hop Açoriano”, pudemos assistir comovidos ao entusiasmo de todos os jovens quando chegava a sua vez de “subir ao palco”, agradecendo sempre a Sam The Kid, aos músicos e aos “colegas de ofício” que, como eles, perseguem o mesmo sonho. Foi com uma versão reinventada do clássico “Eu Não Vou Chorar” que se fechou em beleza este momento especial. O legado de Sandro G, nome maior do Hip-Hop Açoriano, está, até ver, assegurado.

Uma Aventura nas Montanhas
Ficou para o penúltimo dia do festival a nossa vez de ir ao Tremor Todo-o-Terreno, o concerto-caminhada que nos levaria a descobrir a música dos Lavoisier através de um trilho no interior da ilha, ou será que seria descobrir o trilho através da música? As expectativas eram altas, depois de ouvir vários relatos da experiência maravilhosa que seria. Finda a caminhada pudemos confirmar que, de facto, deixámos o melhor para o fim.
Não há dúvida de que o festival Tremor é, acima de tudo, uma excelente desculpa para visitar São Miguel e ir aos Açores e não fazer um trilho é como ir a Roma e não ver aquele senhor de branco. O tempo estava, à falta de outra expressão descritiva, açoriano. Foi sob chuvinha miudinha, vento e uma neblina mística que fizemos play na faixa de 16 minutos que todos tínhamos recebido previamente e que acompanharia a primeira parte da caminhada. Os murmúrios elétricos que levávamos nos auscultadores acrescentaram uma camada extra à experiência sensorial de andar entre o musgo verde e as árvores altas da floresta insular, fundindo-se com o vento como se também a meteorologia tivesse sido cuidadosamente escolhida. Depois de subirmos durante algum tempo, tendo até passado por um ponto onde era possível vislumbrar ambas as pontas da ilha, à esquerda e à direita, finalmente uma planície e depois uma descida. Aproximávamo-nos do nosso destino, a lagoa das Empadadas. Já sem a banda sonora pré-estabelecida, pudemos ouvir o som dos passos na gravilha húmida enquanto o grupo descia junto e em silêncio, obedecendo às instruções dadas pelos guias. Um tambor juntou-se então a esta envolvência, marcando o passo ao nosso caminho. Começava a performance.
Ecoando pela enseada criada pela lagoa e pela floresta mais acima, a voz de Patrícia Relvas deu-nos as boas-vindas, cantando a cappella e chegando até nós à boleia do vento, ali mais calmo. Pacientemente, esperou que todo o grupo se dispusesse à volta do deu palco natural e lançou-se em mais uma versão a cappella que pudemos, desta vez, apreciar de perto. Continuando a não querer revelar tudo de uma vez, e mantendo a mística, a voz de Roberto Afonso surgiu então, cantando em resposta aos refrões entoados pela companheira, do outro lado da lagoa, onde tínhamos ouvido o tambor – tudo fez sentido. Foi então a vez de Roberto Afonso vir ter connosco, caminhando calmamente e trazendo consigo uma bonita viola da terra, instrumento típico de São Miguel caracterizada pela abertura em forma de dois corações. Já juntos, os Lavoisier ainda tocaram duas canções, incluindo uma fantástica versão de “A Presença das Formigas” de José Afonso, que soou particularmente poderosa naquele contexto.

No fim o grupo contornou a lagoa ainda em silêncio e a digerir o que ali tinha visto, voltando a escutar os sons da lagoa e do vento nas árvores. O que veio primeiro? A performance ou o local para a apresentar? Parece impossível separar os dois, como se a simbiose entre a natureza e a música já lá estivesse antes de nós chegarmos. Se os Lavoisier cantarem na floresta e não estiver lá ninguém a ouvir, acreditamos que seja maravilhoso à mesma, mas ainda bem que pudemos estar.

Teremos sempre Ponta Delgada
Os passeios durante o dia são quase obrigatórios na experiência deste festival, mas uma coisa é certa: à noite o mundo todo está em Ponta Delgada. Quinta e sexta-feira no Tremor trouxeram opções variadas, desde o art pop de Kate NV ao rock da floresta tropical profunda dos DEAFKIDS, passando pelo noise de sala de estar de Pedro Sousa e Filipe Felizardo. A degustação musical foi abundante, mas deixamos aqui os nossos favoritos.
Rezgate
Mal puseram os pés em palco, a atmosfera mudou de tons. Percebeu-se imediatamente que algo grandioso estava para acontecer. E assim seria. Com um electro-techno do inferno, a dupla presenteou os corpos na pista com uma instalação sonora dançante, magistralmente teatrealizada. O concerto foi um constante non-stop de live beats com uma sonoridade completamente narcótica, alcandorado na voz macia mas crua do vocalista, que é a spitting image do Bela Lugosi, depois de acabar a colour run. Com um olhar guloso e mesmerizante, que enfeitiçava os espectadores um a um, foi desfilando pela catwalk improvisada no meio do público, capaz de fazer a Naomi Campbell corar de vergonha. Em simultâneo, as explosões de cor dos seus movimentos e do seu outfit iam maravilhando os mortais embasbacados.
O último estertor fez lembrar um revival de Woodstock em reciprocidade sincronizada: o vocalista distribui beijos na boca por quem passou, o público respondeu com corações estilizados. Até o Phillip, alemão viril de semblante austero que conheci no dia anterior, me confessou envergonhado com um ar muito cândido: -“This is love”, enquanto apontava para a marca pronunciada de batom vermelho no seu bigode germânicamente bem escanhoado.
A banda sonora do Odisseia no Espaço, se tivesse sido composta por um filho do Ney Matogrosso e da Peaches, passou como uma avalanche pelo Tremor e matou de amor todos que tiveram a felicidade de ter lá estado. Foi, como me disse alguém no público, “melhor do que uma surra de piroca”.

Glockenwise
A banda de Barcelos anda a celebrar o primeiro aniversário do seu Gótico Português e o Tremor foi a primeira de várias passagens por festivais que já têm marcadas para o verão. Com um slot injustamente curto (“Olá Tremor, hoje temos 45 minutos, não se fala, é sempre a abrir” – disse-nos Nuno a correr), os Glockenwise trouxeram uma versão apurada do concerto que tinham dado há menos de um mês no Musicbox em Lisboa. “Vida Vã”, “Lodo” e “Margem”, do disco mais recente, soaram excelentemente oleadas na sala maior do festival, despertando desde o início coros por parte dos fãs devotos nas primeiras filas, mas também as mais antigas “Muito Para Dar” e “Moderno” conseguiram reações entusiasmadas. “Corpo” não teve o mosh que devia ter tido considerando a estupenda performance da banda, já bem aquecida, mas o público compensou cantando a plenos pulmões o refrão de “Besta”, a última canção do alinhamento (“é o que dá festivais, malta”). Num concerto quase sem pausas, ainda houve tempo para contar como tocaram há 10 anos no festival, “num bar minúsculo aqui ao lado”, confessando-se apaixonados pelos Açores e pelo Tremor desde então. Faltaram “Dia Feliz” e “Calor” para ser perfeito.

Lambrini Girls
O concerto das Lambrini Girls ficou algures entre um comício político e um ringue de box cheio de positivismo e boas vibes. Phoebe Lunny e Lily Macieira apresentaram-se no Tremor prontas para, dali, deitar abaixo o patriarcado. A julgar pela desfaçatez com que dirigiram a plateia açoriana, dando ordens sobre como nos devíamos comportar (“abram espaço, façam um círculo, baixem-se, levantem-se, gritem Free Palestine”), arriscamo-nos a dizer que é bem possível que um dia consigam. E ainda bem!
Vindas de Brighton, as Lambrini Girls ainda não têm um álbum, mas trouxeram-nos (maioritariamente) as canções do seu EP de 2023, You’re Welcome. As letras de canções como “Big Dick Energy”, “Help Me I’m Gay” ou “God’s Country” foram cuspidas, de forma rápida e zangada, com um carregado sotaque britânico, à boa e velha maneira do punk e pós-punk que aquelas ilhas parecem produzir tanto e tão bem. Às vezes em palco, às vezes no meio da plateia e às vezes em cima dela (e nem sempre completamente vestida), Phoebe foi uma incansável e muito bem-vinda explosão de energia feminina que tanta falta faz a esta cena musical. No fim do concerto, que nos bateu como um furacão, já não se distinguia bem a plateia, tudo era um gigante mosh, entregue à bateria irresistível e aos comandos das Lambrini Girls. Saímos meio atordoados, mas com vontade de viver tudo outra vez. Possivelmente a maior surpresa do festival e, sem dúvida, um nome a prestar atenção no futuro. O rock está vivo e é feito por mulheres.

Marie Davidson
O Tremor este ano apostou em ritmos repetitivos e hipnotizantes, talvez no intuito de, mesmo que inadvertidamente, provocar viagens ao futuro com analepses constantes. A canadiana eletrónica e elétrica apostou por navegar em mar alto, sem amarras, sem lastro e sem GPS, havendo momentos em que quase se conseguia ouvir, ao fundo, Sheep on Drugs em loop. O seu jeito pueril quase desajeitado não deixou antever a máquina de beats que ali estava, firme e segura. O concerto foi de uma pureza desarmante, em entrega total, com a DJ constantemente a dançar e a interagir com o público. Antes do encore, ainda nos disparou a banda sonora do Tetris, numa versão musculada dos Swans, com participação especial dos Kussondulola. Marie Davidson é uma Olivia Palito anabolizada a quem o Popeye não faz falta nenhuma. É ela, que no final, nos salva.
Texto de Ana Lúcia Tiago e Sílvio Fernandes
Fotografias de Vera Marmelo e Marina Cruz cedidas pela organização