Descrição só com palavras-chave: Tortoise. 21 de abril de 2026. Culturgest. Casa cheia. Sentimentos mistos.
Mentes mais sãs do que a minha conhecem o nome Tortoise como um dos mais influentes grupos daquele tipo de rock que parece ser completamente impenetrável em almas mais jovens. É o equivalente a um tipo de música que usa camisa de gola alta, bebe um Baileys e fuma cachimbo com tabaco de boa qualidade. Verdade seja dita, eu não sei se esta pessoa existe como quase não sei se a música dos Tortoise existe mesmo.
Sim, tocam instrumentos, têm uma banda, dão concertos e serão, certamente, tema adequado para montes de artigos super cativantes e reveladores sobre a quantidade de barreiras e obstáculos que contornam para obterem o som único e hipnotizante que têm. Certamente, admiro isso.
Tal como admiro a verdadeira liberdade e até o frenesim que acompanha a verdadeira roda viva em palco que nunca deixa cada um dos membros da banda sentar-se no mesmo instrumento por mais de x determinado número de músicas. Isto é certamente refrescante, não é?
Também é inegável o facto de terem esgotado uma Culturgest e terem, claramente, uma legião de fãs prontos a ocuparem cadeiras confortáveis e a desafiarem a lei dos frentes de sala que os proibem de tirar fotografias. Se forem uma dessas pessoas e estiverem a ler isto, talvez já estejam a fumegar. Longe de mim querer provocar isso em alguém. Odeio quando leio alguma coisa escrita por um banano qualquer que, claramente, não percebeu a banda. Especialmente se for sobre uma banda que admiro.
Como já devem ter percebido, este artigo não será revelatório. Nem terá muitos likes, ou muita interação na próprio universo do Altamont. Simplesmente porque, surpresa, não é uma boa reportagem. Não é incisiva, nem conhecedora. Aliás, estou relativamente ansioso só de a estar a escrever. Não está cheia de apontamentos positivos nem elogios transcendentais a tudo o que vi ou ouvi, simplesmente para agradar e fazer algo simpático de ser lido.
Mas estas inquietações e convenções, caro cibernauta, não lhe interessam.
E faz você muito bem. Você que ouve Tortoise merece um artigo melhor, um artigo de alguém que percebeu o concerto, que admirou todo o arraial de músicas instrumentais que consegue reconhecer logo na primeira nota, que sabe de cor todos os nomes de todos os membros da banda (até o do Jeff Parker que não estava), que admira uma viagem complexa e completa pelos interstícios da sua música.
Não quer ler esta sopa de letras de marca branca de alguém com um vocabulário limitado como o meu que não tem o ouvido treinado para saborear o que estes meninos de Chicago andam a cozinhar. Quer ler um artigo que celebre o espírito explorador e experimental da banda, que expresse quão divertido esteve Dan Bitney a noite toda (e não John McEntire como alguém erroneamente apontou) ou até como a banda, no final, desejaria ter tido um público iluminado em vez de ter gramado com uma grande mancha de escuridão interminável.
Será que, na verdade, adorei ver Tortoise mas não sei mesmo o que dizer? Será que não gostei e estou a tentar mascarar isso com o último pingo de criatividade diária que me resta? Ou será que estou atrasado para uma aula de uma cadeira de Mestrado, da qual já me arrependi de ter escolhido, e dedilho isto furiosamente enquanto olho para o relógio no canto inferior direito do ecrã?
A resposta é: não sei.
Mas escrevi este delírio febril ao som de Touch, o disco que dá o mote à visita dos Tortoise. E eu nem estou com febre, portanto deve ser mesmo da música. Dizia eu, ao início, que mentes mais sãs conhecem os Tortoise como um nome influente, talvez até imponente. Eu conheço-os porque estão num CD da banda sonora do filme mais obscuro
alguma vez escrito pelo icónico John Hughes, “Reach The Rock” (“O Desafio do Futuro”, em português) que tem contribuições do próprio John McEntire. Será que este facto obtuso faz de mim apto para gostar de Tortoise ou a pior pessoa para estar a falar deles? Talvez um bocadinho dos dois…
Talvez um bocadinho dos dois.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização de Vera Marmelo

















