Há discos que constroem uma carreira. E há discos que constroem um mito. Folksongs & Ballads pertence claramente à segunda categoria: um único registo, gravado numa tarde, que atravessou décadas em silêncio até ser redescoberto e transformado num objeto de culto.
Tia Blake, nascida Christiana Elizabeth Wallman, não faz parte dos nomes mais reconhecidos do folk da sua época, mas podemos falar dela como uma figura de devoção discreta. Não construiu carreira e, durante muitos anos, tornou-se uma espécie de mito menor dentro do universo folk. Considerado um álbum perdido, foi redescoberto entre as décadas de 1990 e 2000, transformando-se então numa obra de referência para um público fiel. A sua ausência prolongada, não editou mais discos nem continuou como cantora, exceto por algumas participações pontuais até aos anos 80, até à sua morte em 2015, acabou por reforçar essa aura quase lendária que a rodeia.
Folksongs & Ballads, o seu único longa-duração, foi gravado em 1970, numa única tarde, e editado no ano seguinte, em Paris, quando Tia Blake tinha apenas cerca de vinte anos. É um disco que se move no território do folk tradicional anglo-americano, interpretado com um minimalismo mais próximo da tradição oral britânica do que do revival urbano dos anos 60.
A sua viola, acompanhada pela sua banda, um grupo não norte-americano ou britânico, mas com um verdadeiro coração folk, e a sua voz madura e firme, sobretudo para alguém da sua idade, estão sempre envolvidas por uma emoção muito particular. Foi essa emoção que me levou a descobrir o disco já nos anos 20 do século XXI, cerca de cinquenta anos depois da sua edição, e a nunca mais o largar. Rapidamente se tornou um dos meus discos de estimação.
Quer Tia esteja a cantar sobre relações condenadas, separações ou morte, como em “The Unquiet Grave”, “Black Is the Colour” ou “Pretty Saro”, quer aborde acontecimentos históricos, “The Rising of the Moon”, uma balada histórica irlandesa ou até a ironia de “Plastic Jesus”, a sua alma encontra-se sempre derramada nas canções. A sua entrega não se manifesta através de gritos ou dramatismo excessivo. É o coração de Tia exposto com um despojamento quase espiritual.
Quando ouvimos a sua interpretação, estamos a ouvir dezenas de vozes de mulheres antigas. Muitas das histórias das canções centram-se na mulher que fica para trás e, em Folksongs & Ballads, Tia Blake não está apenas a fazer versões de temas folk, está a emprestar o seu corpo e a sua voz para que essas figuras do passado voltem a falar. É uma jovem que parece carregar um cansaço milenar.
Acredito que muitos dos que me leem ainda não conheçam esta obra singular. O que aconselho é uma pequena audição, para que fiquem tão encantados como eu. E os que já conhecem, aproveitem para regressar a este disco e deixar novamente que a emoção vos entre na alma.