Os Lemon Twigs voltam a Lisboa, mas Lisboa pura e simplesmente não estava lá.
Numa noite conturbada, em que metade de Lisboa aguardava com ânsia os messiânicos Fontaines D.C no MEO Arena, os Lemon Twigs não poderiam esperar uma grande enchente em Marvila. E, como se a situação não fosse já pouco favorável, descobri desafortunadamente, assim que cheguei ao LAV, que a ascendente – e inoportuna – artista eletrónica Kelela atuava também naquela noite na sala principal do LAV, exatamente ao lado dos nossos azarados irmãos nova iorquinos, que ocupavam o espaço secundário. Temi ser o único naquele concerto, por isso, comecei a rever as letras. Se falhasse alguma, eles iam decerto notar e eu não ia aguentar os seus olhares de desilusão.
Apesar de toda a sobreposição de eventos daquela noite, algumas pessoas começaram a chegar ao remoto LAV 2. Mas eram tão poucas que, se semicerrase os olhos, perderia-as de vista. Aliás, quando estava atrapalhado à procura da fotógrafa do Altamont ao serviço, ainda pensei, por desespero, perguntar a cada mulher que lá estava (perto de seis) se era ela, porque talvez fosse a maneira mais rápida de a encontrar. Depois de finalmente encontrada a Elena, entre algo perto de vinte e cinco pessoas, começaram a tocar os Mod Lang, a banda de entrada.

Composta por dois vocalistas/guitarristas, que pareciam ter saído do Woodstock com as suas camisas floridas e calças à boca de sino, uma baixista dos anos 2000, com um look de ganga e botas pretas, e ainda um baterista metaleiro dos anos 80, musculado e com uma t-shirt de manga cava vintage, peculiar será uma boa forma de os descrever. O som, típico dos anos 70, com harmonias de voz e refrões gritantes, denunciou logo porque foram escolhidos para abrir: eram muito parecidos aos Lemon Twigs. Só que, para além de parecerem visualmente um erro no contínuo espaço-tempo, cada um vindo da sua década da história da música, pareciam-me também pessoas isoladas, que só se juntariam se um trabalho de grupo de universidade as obrigasse. A performance deles foi, porém, coesa e também bastante intensa, graças sobretudo aos dois vocalistas, que eram especialmente enérgicos e mexiam-se como dois cães pulguentos no palco – uma característica que, apesar de mal-vista pela fotógrafa, que disse ter sido um verdadeiro teste conseguir apanhá-los numa imagem fixa, foi o que conseguiu manter a energia da música bastante alta durante os vinte minutos em que tocaram, pois puxavam pelo público e pelos outros dois da banda.
Meia hora após terem acabado, vieram os Lemon Twigs, que, como os músicos excelsos que são, deram um brilhante concerto, acompanhado como uma cerimónia religiosa pelos membros dos Mod Lang, que ao meu lado olhavam para eles com um brilhozinho nos olhos. Deram tudo: saltaram, gritaram, vieram para a beira do palco fazer solos, riram, choraram. Ou seja, fizeram aquilo que uma banda normalmente faz para suscitar alguma espécie de reação no público. Só que o público decidiu dar vista a estas mensagens. As pessoas pareciam desconectadas, e foi quase tragicómico assistir ao contraste de entusiasmos: a banda, no fundo, dava corpo e alma para menires que assistiam.

Pensando bem, e sem querendo abordar o facto de os Lemon Twigs serem mal apreciados em Portugal e no resto mundo, de um modo geral e incompreensível, a maioria nem devia conhecer a banda lá muito bem. Apareceram por causa de um dia terem feito Shazam de uma música deles, que era muito provavelmente “In The Corner of My Eye”, e lembram-se de terem gostado na altura. Ou por causa de um amigo que depois de um jantar, já bebidos, mostrou-lhes e, naquele momento enebriado, pareceu a melhor cena do mundo (e podia estar mais longe…). Ou estavam a passear pelos Olivais e, olha, decidiram entrar, não sei. Só sei que, no fim de cada música, batiam sempre umas palmas pouco genuínas, de pessoas motivadas por aquela culpa de estarem a assistir a algo muito difícil de se fazer e que talvez nunca irão conseguir fazer na vida, como olaria ou voltas-ao-mundo com uma bola de futebol, mas, bem lá no fundo, sabem que aquilo realmente não lhes interessa. É verdade que também houve muitos dos novos temas a serem tocados, lançados este ano, por isso o desconhecimento de algum repertório é desculpável, mas até achei que as novas foram as mais bem tocadas (com destaque em “True Enemy”, “Mean To Me” e “You’re Still My Girl”), onde a banda mostrou que o seu habitat natural é num palco a com amplificadores, a ídilica e tão procurada qualidade que os Twigs alegaram tentar reproduzir nas versões de estúdio do novo álbum, Look For Your Mind!.
No fim, lá veio Brian, o irmão mais velho, com postura de derrotado, fazer o seu rotineiro epílogo acústico, e, como que por magia, o público pareceu de repente estar vivo. Fiquei mesmo pasmado quando começaram todos a cantar “In The Corner of My Eye”, não os reconheci naquela vivacidade. Talvez tenha sido mesmo o Shazam que trouxe esta gente toda para o LAV 2, mas se gostaram, nem que seja por três minutos, já valeu a pena para os Lemon Twigs terem vindo, acho. Acabado o set, Brian deve ter saído do palco com um sorriso na cara, porque o saldo foi, no final, positivo.
Fotografias de Elena Leon.














