Há 13 anos que Jackson não tocava na Aula Magna, o seu palco lisboeta de preferência desde 2001. Será que valeu a pena esperar? Será que este texto tem mais perguntas retóricas?
Após uma longa e sentida ausência de Portugal nas rotas de Joe Jackson e dos compinchas que o acompanham, quer seja a banda original com que fez cinco álbuns de 1979 a 2004, quer seja os alinhamentos alternativos como este que apresenta, Jackson volta com saudades no peito (pelo menos, assim pareceu) e uma vontade renovada não só de voltar em breve como de deixar tudo o que conseguir em palco.
Verdade seja dita, houve uma tentativa em 2022 mas uma ressaca pandémica não permitiu que Jackson voltasse tão cedo. Na altura, o cantor pediu desculpas sentidas, emitiram-se reembolsos e houve a promessa de uma remarcação em breve.
Pois bem, corta para quatro anos depois e aqui está ele, em carne e osso. Bem vestido, penteado e tenho a certeza que também perfumado. Podemos dizer que Jackson está, tal e qual como o nome que deu ao seu primeiro álbum. Não se preocupem, eu já digo o nome no próximo parágrafo para isto não parecer estranho.
A sua missão é simples ao mesmo tempo que traiçoeira, especialmente para quem já não vai para novo. Apresentar o seu mais recente trabalho, um disco chamado Hope and Fury, enquanto mostra a uma plateia não muito jovem que o tempo é meramente uma questão de semântica, pelo menos no que diz respeito à música. E, raios e coriscos, Joe Jackson fá-lo rapidamente ao entrar a rasgar corações com “Is She Really Going Out with Him?” do seu tal disco de estreia, o fantástico e adoravelmente londrino Lookin’ Sharp – que ocupa a maior parte do alinhamento, paralelamente com o trabalho novo que apresenta e ainda um ou outro de um clássico chamado Night and Day. Vai a outros discos, claro, embora fãs da sua música clássica ou das suas bandas sonoras apanhem uma pequena desilusão.
É uma mera formalidade dizer que o público estava a vibrar com Jackson nas teclas, o fiel Graham Maby no baixo, o janota Teddy Kumpel na guitarra e uma dupla incrível nos batuques – Felipe Fournier na percussão e um verdadeiro cefalópode de oito braços chamado Doug Yowell na bateria. Não, Joe Jackson não tem mesmo um polvo a domar baquetas e “cefalópode” não é nenhum insulto erudita. É apenas a minha forma bacoca e pateta de elogiar o baterista enquanto vou aos perdidos e achados da Aula Magna para encontrar o queixo que deixei cair durante o concerto. Podem crer que ele foi assim tão bom.
Infinitamente fascinante é também a voz de Jackson e o dedilhar bastante emotivo que aplica ao seu Roland cujo modelo prometi não esquecer mas de que não me lembro agora, especialmente em músicas como “End of the Pier” ou “Home Town” – o número de despedida que meteu a cereja no topo do bolo a um público que ficou completamente desejoso de ter um novo concerto de Jackson nos cinco minutos posteriores ao final deste. Se calhar, alguns pegaram no veículo e seguiram o autocarro da banda até à Casa da Música, no Porto, onde Jackson tocou no dia a seguir.
A sério, estava mesmo tudo louco. Eu sei que às vezes é necessário algum exagero quando se escreve e alguma falsa modéstia em que se amplia desproporcionalmente a entrega do público, mas estava tudo doido (de forma saudável) aqui. A aplaudir tudo e mais alguma coisa, a cantar as músicas, a gritar de forma incoerente pedidos para outras. Foi um verdadeiro forrobodó de carinho entre a audiência e os artistas em palcos. E não era por menos, visto que a química de todos estava à vista – especialmente numa troca de solos de percussão entre Yowell e Fournier.
Joe, vou acabar o texto a dizer o seguinte. Ouve-nos com atenção. Não demores tanto. Vá lá, tu prometeste. Não digas o dito por não dito e vê lá se voltas pois já temos o tempo a fazer tiquetique-tique na nossa cabeça. Eu prometo vestir-me tão bem como tu para a próxima. Obrigado.
Fotografias de Ben do Rosário, gentilmente cedidas pela organização.



