Se procuram músicas modernas, irresistíveis e boas para cantar no carro com os vossos avós, chegaram ao sítio certo. Os Lemon Twigs aproximam novamente gerações com o seu toque mágico para eletrizantes composições e letras carismáticas em A Dream Is All We Know
Ora, cá estamos. Eis o retorno dos irmãos maravilha. Já tinham saudades? Pronto, está bem, não interessa. Eu sim. Chegou finalmente, A Dream Is All We Know. O último álbum da dupla Brian e Michael D’Addario, para além de ser um sucessor mais que à altura do tenebroso Everything Harmony, do ano passado – devem naturalmente recordar-se de uma brilhante crítica feita sobre este álbum por um distinto redator deste site em junho de 2023 – foi também um grande impulsionador da sua outrora estagnante popularidade. Este ano conseguiram até atuar em lugares longínquos e mirabolantes, como Portugal.
Ano de 2023. Everything Harmony é lançado em maio e, dado o surpreendente sucesso do single “Corner of My Eye”, o álbum chega a mais ouvidos do que os esperados. Destes, os detentores de mínimo bom senso receberam o álbum com entusiasmo e atribuíram-lhe generosas classificações, como aconteceu na generalidade das revistas musicais e associações de música de referência – assim de repente, lembro-me da Altamont. Everything Harmony chegou até a ser considerado audaciosamente “álbum do ano” pela revista inglesa Shindig!. Em poucos meses, os Lemon Twigs voltavam a entrar mapa.
Porém, houve, entretanto, muitos desistentes. Defensores ávidos de que Everything Harmony perdeu uma dita “frescura”, como sempre os há. A velha lengalenga da perda da frescura. Este irritante fenómeno congeminado pelas pessoas que têm um qualquer complexo contra dizer que não gostaram. Aquelas que ouvem um álbum como quem usa um chapéu ridículo, só por estar na moda. Só que, o problema é nunca admitirem que o chapéu é ridículo, mesmo já depois de o terem deixado de o usar (duas semanas, no máximo). Tiram-no pela calada, protegendo-se de quaisquer perguntas ou advertências dos pares. É verdade que as modas existem, disso não há dúvida. No entanto, somente os verdadeiros apreciadores continuam a dar-lhe seguimento após a sua morte. Não se limitam a apanhar a onda quando ela está grande, como fazem os chamados ondistas. Pegam na prancha de skimming e mantêm-se fiéis até quando só lhe restam uns poucos centímetros de água. Assim, ao longo da história, os ondistas foram fabricando este fenómeno reles – com discursos do tipo: porque “na altura era bom, mas…” – como desculpa para esconder o facto de lhes ter sempre sido totalmente indiferente, sem sequer ter de incorrer ao sacrífico de construir argumentos que justifiquem as apertadas curvas das suas opiniões.
Hoje, vive-se uma praga de ondistas. O livre acesso a muita música induz-nos à tentação de gostar de tudo e fazer playlists de duas mil e quinhentas músicas, quando o que acontece é estarmos sempre a fazer skip até chegar àquelas quinze de que gostamos. Infelizmente, não se adivinharia que esta estirpe representasse quase metade dos novos ouvintes dos irmãos limão, o que levou a que as suas audições mensais no Spotify, a maior plataforma digital de música, começassem a cair a pique.
Bom, como devem imaginar, os Lemon Twigs não se deixaram ficar sentadinhos a assistir ao seu rápido declínio. O single “My Golden Years” sai poucos dias depois do início do ano de 2024, como uma injeção de esteroides num corpo frouxo e lívido e salva os Twigs de afundarem nas profundezas das recomendações do Youtube. Um tema tão melodicamente dotado que damos por nós a cantá-lo antes de sequer ter acabado, é o hit de que precisavam para se manter à tona – e onde também alcançam novas altitudes. «Podia até dizer a sua melhor canção até agora», pensei para mim, ingénuo e inocente, enquanto acabava de o ouvir pela primeira vez. E ainda bem que não disse. Porque mais canções estariam por vir, tão excitantes e aditivas quanto “My Golden Years”.
A partir daí, com uma frequência de mais ou menos um mês, singles apareciam, elevando-nos progressivamente os níveis das águas da boca para o que aí se anunciava para junho: o seu segundo álbum no espaço de dois anos. Em fevereiro, sai “They Don’t Know How to Fall in Place”, uma saltitante canção sobre falta de adequação quer perante o sucesso, quer frente o insucesso. Depois, em março, “A Dream Is All I Know”, uma tese filosófica em formato balada contagiante sobre como a vida se resume ao ingénuo e inconsequente esforço por atingir uma enganadora imagem, apenas possível em sonho. O último, em maio, “How Could I Love You More?”, uma produção digna de um musical para um tema que os Beach Boys se esqueceram de escrever. Podiam até ter ficado por aqui que já tínhamos música que chegue para o resto do ano. Felizmente eram só as entradas. Por fim, em junho, é-nos apresentado o prato principal: “A Dream Is All We Know”, a cereja no topo do bolo, e também o próprio bolo.
Nesta excitante meia hora de música, todos os temas são rápidos e intensos, como são os melhores momentos da vida, e produzidos ao mais minucioso pormenor. Não se trata apenas de guitarra, baixo e bateria. E quando assim é, são tocados como se lá estivesse mais uma banda. Por exemplo, “In the Eyes of The Girl”, co-produzida por Sean Ono Lennon, é uma prova monstruosa de poder que o equipamento de estúdio oferece. “Ember Days”, outro tema transcendente, com uma orquestração que encaixa com a guitarra acústica tal chave na sua fechadura, mais as harmonias vocais, que seriam o som agradável de uma conversa ouvida do outro lado de uma porta que nos impele a entrar. Ao longo do álbum, sempre que achava “isto não pode ficar melhor”, vinha-me à cara mais um esplendoroso tema, levando a que a envergadura da minha boca aumentasse mais uns centímetros, ficando cada vez mais exposta à entrada de moscas e outros insetos alados.
Enfim, podia continuar a enumerar com fulgor e um desmesurado uso de locuções adjetivais os restantes temas, todos tão bons e diferentemente bons. Só que, simplesmente não tenho o espaço nem o tempo para exprimir os meus sentimentos na integra – fiz as contas e daria mais ou menos um romance divido em sete volumes, em que um deles seria meramente uma coletânea de onomatopeias produzidas pelo meu corpo durante a audição do álbum. É excelente, inigualável, assustadoramente bom, fantástico, bom demais para ser verdade, simplesmente magnífico. UAU! Acho que apanharam a ideia.
Bem, afinal acabei por falar pouco sobre o álbum. Também, que piada teria? Ouvir um álbum que alguém já contou de ponta a ponta, de fio a pavio, sem deixar acorde de sétima ou lá bemol por descrever? Mascaro assim a minha falta de habilidade com um convite para tomarem as vossas próprias conclusões. E, depois, acabarem por concordar comigo.