Ao 12.° álbum, a banda conta com participações de notáveis como Beck e Noel Gallagher. Resultado? Um disco camaleónico.
Canções de territórios blues, rock e soul, por vezes combinados; guitarras que tanto descarregam eletricidade imparável como acordes harmoniosos, ritmos desenfreados que convidam a abanar corpos, colaborações sonantes: Ohio Players, 12.º trabalho discográfico dos Black Keys desde 2001, congrega tudo isto e mais em 14 músicas. A principal dúvida é se estas serão capazes de devolver a banda de Akron, Ohio, ao plano de evidência que já lhes rendeu admiração mundial, milhões em vendas que valeram dupla platina em alguns casos e uma coleção de prémios Grammy.
Que trabalharam para isso não há dúvidas. Há músicas vibrantes e muito dançáveis como “Beautiful People (Stay High)”, principal candidata a êxito imediato e associada à escrita de Beck. Pois, é verdade: não faltam participações de peso – claro que se destacam o referido Beck, cuja colaboração representa metade do disco e começa logo no tema de abertura, “This is Nowhere”, e Noel Gallagher. Mas também fica bem exposta a piscadela de olho ao rap em canções como “Candy and her Friends” (com Lil Noid) ou “Paper Crown”, neste caso juntando à de Beck a cumplicidade de Juicy J. Leon Michels e Greg Kurstin (no tema que fecha o disco, “Every Time You Leave”, uma explosão de energia com batida bem vincada), são outros intervenientes no mosaico musical.
Quanto ao ex-Oasis, que assina temas como o bem ritmado “Only Love Matters” ou “On the Game”, outro candidato orelhudo, aqui a aventurar-se em geografias sonoras mais próximas dos Beatles, a participação exigiu um esforço suplementar a Auerbach, conforme admitiram ao LA Times. Foi preciso ir a Londres – nada de mais, não fosse o trauma vivido pelo vocalista dos Black Keys, que tocava em Paris no dia do ataque terrorista responsável por 90 vítimas no Bataclan, durante o concerto dos Eagles of Death Metal, e desde 2015 não voltara a sair dos EUA…
Há uma cover da canção que William Bell lançou em 1968, “I Forgot To Be Your Lover”, mas também outras que contam histórias (“Don’t Let me Go”) ou incendeiam o ambiente, como “Please Me (Till I’m Satisfied)” e “Live Till I Die”. “You’ll Pay” poderia ter o carimbo autoral de Amy Winehouse, “Read Em and Weep” remete para um Chris Isaak mais acelerado, “Fever Tree” é camaleónica, entre tons pop e rock.
Longe vão os tempos dos primeiros discos, gravados na cave de Patrick Carney. Amigos desde os tempos de escola, Dan Auerbach (44 anos) e Carney (43) foram incentivados pelos irmãos, a meio dos anos 90, no sentido mais óbvio: a união da guitarra de um com a bateria do outro e a escrita de canções a ganhar dimensão extra-caseira, daí resultando uma banda que juntasse o seu nome ao de LeBron James, estrela da NBA, como referências incontornáveis da pequena cidade de Akron.
Desde 2010 estão instalados em Nashville. Pode falar-se em expectativas cumpridas? Em algumas facetas, sim: nas características zangas, embirrações com a parceira do parceiro, pausas e projetos paralelos, tão típicas de grandes nomes da história da música, aqui com expressão mais nítida a partir de 2015. Ou na ambição que, por exemplo, conduziu o duo a ter Irving Azoff como manager, o mesmo de U2, Eagles ou Bon Jovi. Associado a este álbum está ainda um documentário sobre a banda, realizado por Jeff Dupre, estreado já em Austin e com título que não engana: “This is a Film about the Black Keys”. Hora e meia em que ganham realce as dificuldades de comunicação entre Auerbach e Carney.
Contas feitas à experiência musical que nos propõe Ohio Players, não faltam diversidade e energia renovadas. A banda mantém a identidade, não se afasta da linguagem habitual e, se corre alguns riscos, são calculados. Falta, talvez, um efeito surpresa ou uma reinvenção após 20 anos de estrada. Mas o duo parece satisfeito com a concretização do espírito cooperativo que não conseguiria no começo ou a meio do caminho. Tem a palavra o público.