Ao quinto disco de Tame Impala, Kevin Parker revela um vazio criativo, ao editar um exercício demasiadamente arriscado para alguém que aparentemente já não deveria ter que provar os seus dotes invulgares.
Ok, estamos em 2025 e Kevin Parker foi pai. Uma circunstância que costuma mudar de forma radical a vida das pessoas. Mas será que isso faz com que tudo tenha que mudar na vida de um músico? Talvez já não se recordem mas já passaram cinco anos desde que “The Slow Rush” foi lançado. Cinco anos de jejum após um disco que na altura foi premiado com um 8.0 pela Pitchfork. As expectativas estavam altas, bem sei. A espera foi longa e o apetite por mais Impala fazia-se sentir no apetite voraz dos aficionados. Começaram então a surgir os tão esperados singles. “End Of Summer”, “Loser” e “Dracula”. Por fim, e a poucos dias do lançamento do álbum “My Old Ways”, tema de abertura do quinto longa duração do australiano de Sydney.
Não há dúvida que o percurso do projecto de Parker tem vindo a manifestar uma viragem gradual. O flirt com a música de dança tem vindo a ganhar uma dimensão cada vez mais assumida nas suas escolhas musicais. Talvez o facto de ter trabalhado directamente com Lady Gaga (para quem produziu um disco inteiro) e Kanye West tenha contribuído para exacerbar em KP o deslumbre pelo fascínio da Pop(ularidade). É óbvio que não seria de todo de esperar um regresso ao imaginário “InnerSpeaker”. Só lá vão 15 anos desde o seu lançamento. Um disco daquela envergadura precisa de amadurecer e ganhar estatuto de clássico para voltar a ser reinventado. Poderá também estar por trás uma estratégia ardilosa de privação psicadélica, para eventualmente daqui a mais uns anos o músico nos surpreender com um acto de revivalismo arrebatador. Por ora, o azimute traçado nos dois últimos álbums tem sido, sem equívoco, o da música electrónica por oposição aos dois primeiros longa duração mais rockeiros e psicadélicos. Mas atenção, eu não sou daqueles que acho obrigatório que um bom artista tenha que se metamorfosear constantemente para se manter à tona das exigências da indústria. São inúmeros os casos de sucesso intemporal de músicos que se mantém fiéis ao seu adn e que de forma mais conservadora constroem carreiras fenomenais ao longo dos anos.
Como tal, e lamento informar os mais saudosistas, a trajectória dos Tame Impala continua a divergir cada vez mais da sua génese. Poderemos quiçá estar perante o síndrome de desorientação profissional, da qual os médicos também padecem quando tentam diagnosticar o seu próprio estado de saúde. A verdade é que “Deadbeat” resume-se a uma amálgama indefinida e tosca de um aglomerado de referências do quadrante da música de dança, que dificilmente perfazem um todo. Um deserto de guitarras compensado por um chorrilho de camadas incipientes de truques de pós-produção e lixo atmosférico.
O disco começa em formato lo-fi para depois enveredar de forma precoce por um universo tech sem se perceber muito bem, nem como nem porquê. “My Old Ways” é claramente o pior single do álbum. A coisa até parece poder endireitar-se com “Loser”, mas quando chegamos a “Oblivion” temos a confirmação do desnorte total. Reggaeton meus caros amigos! E como se as coisas não pudessem piorar surge “Piece Of Heaven”, um descuido new age a evocar o flagelo Enya. Mais à frente, em profundo contraponto, nos antípodas do paraíso, aparece-nos de chofre o desgovernado trance de “Ethereal Connection”. Feitas as contas, o disco vale por duas músicas. Duas, em 12, sendo “Loser” o único tema um bocadinho mais roqueiro do álbum inteiro, e “End of Summer” este sim um tema electrónico muito bem construído e um excelente desfecho de acto. Não chega. Falta muito mais para a diferença justificar a nossa indulgência. Para o nível de requinte a que KP tão bem nos habituou, “Deadbeat” é uma estéril e condenada pretensão, que desilude pela repetição de ideias vazias e revisitadas.