Um álbum pop perfeito ou o princípio do fim? Em 1985 e depois do sucesso dos disruptivos Remain in Light e Speaking in Tongues, os Talking Heads debruçam-se sobre o mundano.
O que fazer depois de atingida a genialidade, depois de concluída a mais perfeita depuração do experimentalismo new-wave dos Talking Heads? Em 1985, a banda já tinha atrás de si aqueles que são indiscutivelmente os seus melhores discos, mas isso não os impediu de pôr cá fora mais um sucesso comercial. A receita? Menos experimentalismo, melodias sem medo de ser dançáveis, algumas cedências (possivelmente lamentáveis) à estética dos anos 80 e letras com menos pretensões artísticas, sobre temas mais mundanos com os quais o público facilmente se relacionaria como o amor ou a paternidade. A crítica viria a estabelecer Little Creatures, o sexto álbum da banda de David Byrne como o princípio do fim, o início da descida de um pico de inspiração ao qual nunca mais voltariam e isso pode até ser verdade. Mas talvez Little Creatures mereça ser ouvido sem o peso da comparação com a restante discografia dos Talking Heads.
“And She Was”, que abre o disco em grande, parece pegar no fio condutor que “This Must Be The Place (Naive Melody)” deixa pendente no fim de Speaking in Tongues. É como se essa tal melodia ingénua, com a sua letra ternurenta e íntima, tivesse ajudado a acordar esta primeira “little creature”, a menina que plana acima do mundo quotidiano e o observa, estando e/ou sendo apenas, ao som de um instrumental cheio de luz e irresistivelmente dançável. Segue-se “Give Me Back My Name”, mais soturna na sua crise de identidade acompanhada por guitarras ansiosas mas a luz não demora a voltar no country de “Creatures of Love”. Se “I’ve seen sex and I think it’s alright” não é a letra mais David Byrne de sempre não sei o que será mas, para lá da análise estranhamente científica à paternidade, é inegável que o refrão “we are creatures of love” é inesquecível. “The Lady Don’t Mind” e “Perfect World”, mais duas pequenas criaturas misteriosas, trazem de volta o groove bem disposto, dando mais destaque a excelentes linhas de baixo e a sintetizadores eighties saltitantes, do que à sonoridade country que começavam aqui a explorar.
A segunda metade do disco é menos interessante, “Stay Up Late” parece uma versão menos conseguida das duas canções que a antecedem. Talvez porque tenta abordar a paternidade de uma forma ainda mais awkward do que “Creatures of Love”, com os terríveis versos “Cute, cute little baby, Little pee-pee, little toes”, ou talvez porque o instrumental aqui já parece um pouco eighties a mais, é possivelmente a canção menos interessante do disco. Da mesma forma, “Walk It Down” e “Televison Man” são esquecíveis, e um pouco longas demais, sem instrumentais particularmente originais, ainda que se note uma tentativa de manter refrões capazes de cativar até o público mais distraído. Porém, nada disto importa porque o disco fecha com a estupenda “Road to Nowhere”. Icónica, grandiosa, uma marcha paradoxalmente alegre sobre a inevitabilidade do fim, é a conclusão perfeita para um disco que olha para o quotidiano, planando acima dele, qual “Little Creature” que quer desesperadamente enturmar-se, mas que não consegue libertar-se totalmente da sua estranheza. Sabendo ela, porém, que é essa estranheza que lhe confere todo o charme.
Little Creatures está longe de ser o melhor trabalho dos Talking Heads. Ainda assim, é inegável que contém duas ou três canções dignas de integrar qualquer best of de respeito, e, pelo menos, um hino maior do que a vida e que, por si só, faz valer a pena a existência do disco. Se não for mais nada, Little Creatures é uma excelente porta de entrada na discografia de uma das mais interessantes bandas do século XX, atraindo novos fãs com o seu pop mais imediato e fácil, antes de mergulharem no experimentalismo mais punk e artístico dos seus primeiros trabalhos.