Reportagens

Super Bock Super Rock 2019 – Dia 2

No seu segundo dia, o Super Bock muda de foco. A eletrónica reina num dia dedicado a batidas titânicas e grooves intoxicantes.

As coisas começaram a aquecer e, depois de um primeiro dia mais contemplativo e a meio-gás, o segundo dia do festival prometia ser um teste à nossa resistência física e aptidão para dançar. Para começar, o country/alt folk/latino melódico, romântico e interventivo do colectivo abriu o palco EDP no segundo dia SBSR. Uma mistura de sons difícil de colocar dentro de um só género, mas que funciona. Há qualquer coisa em misturar uma guitarra acústica e um trompete que é tremendamente satisfatório. Esta mistura vem desta colaboração entre as duas bandas norte americanas da qual saiu um álbum em 2019 quase 15 anos depois de se terem juntado pela primeira vez. O concerto nunca desceu de tom e foi sempre uma ode aos sentidos. Bom início de segundo dia, que adivinhava algo mais quente mas que raramente passou do morno. A sorte foi de quem saiu da praia mais cedo e conseguiu desfrutar deste conjunto de músicos extremamente competentes que em nada defraudaram as expectativas dos festivaleiros.

Capitão Fausto

Envolvidos como nunca com o público que os segue religiosamente, os Capitão Fausto deram um concerto de festival. Cantaram todos os seus clássicos, e deu a sensação que o público fazia parte dos back vocals tal era a comunhão. Bonito de se ver. Preenchido de riffs, solos e interludios o concerto foi muito mais que um conjunto de letras cantadas. Foi um espetáculo de banda madura que sabe entreter o seu público mas também os curiosos, aqueles que em contexto de festival vêm só espreitar para ver se há algo para eles. E houve algo para muitos porque a prata da casa deu show. Foi de sorriso na cara que acabou aquela hora de concerto com pedido de “só mais uma”, infelizmente já não havia tempo. Ainda bem que são de Alvalade.

Christine e as suas Queens foram a surpresa do dia, trazendo consigo um espetáculo irrepreensivelmente coreografado sem que o fogo-de-artifício ofuscasse a sua música contagiante. A cantora francesa encheu o Super Bock de calor humano num concerto que poderia ser definido pela palavra vulnerabilidade. Não é assim tão comum sentir o desvanecer da linha artista/fã mas Chris conseguiu fazê-lo sem esforço, com um punhado de excelentes canções como “5 Dollars”, “Tilted” e “Girlfriend”. O concerto cantou ainda com uma comovente versão a cappella de “Heroes” de David Bowie.

Phoenix

Passaram-se só dois anos desde a última vez que vimos os Phoenix em Portugal, mas pareceu mais. A atmosfera do concerto foi de celebração, uma vez que foi o último da digressão. Outro factor que contribuiu para as festividades foi a celebração do décimo aniversário do magistral Wolfgang Amadeus Phoenix. Assim sendo, para além dos êxitos costumeiros, como “1901” e “Lisztomania” tivemos uma raríssima performance de “Love Like a Sunset” no encore. Os veteranos franceses deram um concerto de indie rock puro, matéria prima a partir da qual os verões mais inesquecíveis da adolescência são formados, e é seguro afirmar que tanto os pequenos, a formar as suas primeiras memórias festivaleiras, ou os graúdos que já as têm em catadupas saíram do concerto com mais uma memória inesquecível.

No palco EDP, FKJ e o seu arsenal de guitarras, sintetizadores e drum machines completaram a missão de injetar grooves pesadas a quem quer que estivesse a ouvi-lo longe ou perto. O músico compensou a ausência de banda (o que, discutivelmente, poderia resultar num concerto mais enfadonho) com uma relaxada exibição da sua proficiência num grande número de instrumentos: guitarras, baixos, teclados e até saxofone, passaram todos pelas suas mãos mágicas, enquanto o músico francês (começam a notar algum padrão aqui?) nos encantava com os seus clássicos como “Tadow”, “Vibin’ Out with (((O)))” e “So Much to Me”.

O video que passava à frente de Kaytranada não dava espaço para ambiguidades: “you’re watching kaytranada live”. Nesta altura do campeonato podemos afirmar sem reservas que Kaytranada não é tanto um produtor como um género músical distinto. Vemos isso quando observamos a fluidez com que o músico parte de um remix da “Kiss of Life” de Sade para um de “ATM Jam” de Azealia Banks. Pelo meio, pudemos contar com as melhores canções do seu já distante álbum de estreia, como “Lite Spots”, Glowed Up (em colaboração com Anderson .Paak) e You’re the One (com Syd dos The Internet, cuja canção “Girl” produzida pelo canadiano, também fez parte do alinhamento). O público permaneceu numa oscilação constante entre o êxtase e a euforia ameaçando alterar a topologia do recinto com a força com que batia com os pés no chão.

FKJ

Ainda não tinha Dām-Funk terminado o seu set de funk espacial e já estávamos com os ouvidos a zumbir, mas com um sentimento de satisfação por termos sido recompensados num dia que testou a nossa resistência física e auditiva. Lançado há quinze anos atrás, Madvillainy permanece um milagre, não só pela sua génese precária, mas também pela magnitude da sua influência no hip-hop alternativo. A história de como Madvillainy veio ao mundo é quase tão interessante como o disco. Depois de se ter reinventado como o super-vilão absoluto do hip-hop, Daniel Dumile, alter ego de MF DOOM, começou o seu plano para dominar o planeta Terra, usando exclusivamente a sua lírica cáustica como arma, deixando as suas impressões digitais em Operation Doomsday em 1997. Por sua vez, Madlib, o menino prodígio da editora californiana Stones Throw, já tinha alcançado algum sucesso com The Unseen de Quasimoto e, numa entrevista, afirmou que desejava trabalhar com DOOM. As sementes foram lançadas quando uma beat tape de Madlib foi parar às mãos de DOOM que quis trabalhar imediatamente com o produtor de Oxnard, começando assim a sua colaboração maquiavélica. Segundo testemunhos de ambos os intervenientes, a produção foi feita de forma alternada. Enquanto DOOM dormia, Madlib produzia beats a uma velocidade tão frenética como o seu consumo de cannabis. Quando adormecia no sofá do estúdio, o vilão acordava e gravava os seus versos. O desfasamento dos fusos horários alinhava-se ocasionalmente e ambos passavam o tempo a ouvir beats ou a consumir cogumelos mágicos. Nem tudo foi idílico no entanto. Numa fatídica viagem ao Brasil, na qual vários instrumentais para o disco foram criados, um CD contendo demos das canções foi roubado e foi logo parar à internet. O leak obrigou os músicos a abandonarem o álbum e a focarem-se noutros projetos (DOOM gravou Take Me to Your Leader e Madlib colaborou finalmente com o seu irmão musical, J Dilla em Champion Sound). É um pequeno milagre (ou um testemunho do talento destes dois titãs) que, no meio deste turbilhão de contratempos e projetos paralelos pudesse surgir um disco tão singular. É sem dúvida o disco mais citável de DOOM (linhas como “Got more soul than a sock with a hole” foram desenhadas para ficarem para sempre na memória de quem as ouve).

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Texto: Miguel Moura com António Fragoso || Fotografia: Inês Silva

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