O felicíssimo regresso de uma das bandas mais interessantes e idiossincráticas dos anos 90, 15 anos depois do último disco
Os Stereolab apareceram no início dos anos 90 mas nunca apanharam qualquer das ondas dessa década. Não eram rock, não eram grunge, não eram britpop, não eram hip-hop. O seu som era único e idiossincrático, uma rica mistura de pop, jazz, yé-yé, chanson, electrónica e muitas outras coisas, cobertas por um verniz conceptual que tudo colava: era o som do futuro se alguém nos anos 50 ou 60 se metesse a inventar o som do futuro.
Talvez por isso sempre tenham estado num campeonato à parte. Nunca andaram atrás de ondas, exploraram o seu universo a fundo mas sempre sem dele saírem, nunca quiseram ser algo que não eram, na sua essência. Tal como acontece com outras grandes bandas de culto, eles sempre estiveram no mesmo sítio: o que mudou foi o mundo que, continuando a girar, umas vezes esteve mais sintonizado com os Stereolab, outras menos.
O seu período imperial, mais feliz, em que a sua fórmula tão própria foi de forma feliz misturada com mestria pop, surgiu nos anos 90, com o trio de discaços Mars Audiac Quintet (1994), Emperor Tomato Ketchup (1996) e, sobretudo, com o magistral Dots and Loops (1997).
A banda (cujo núcleo duro é o inglês Tim Gane e a francesa Laetitia Sadier, em tempos um casal) foi sempre editando discos bons e interessantes, mas o mundo deixou de prestar atenção. Nunca foram grupo de massas e os seus fãs foram crescendo, constituindo família, distraindo-se com coisas do momento. Aquele que parecia ser o seu último disco, Not Music, apareceu em 2010, e parecia que as coisas ficariam por aí. Até que, em 2019, o grupo voltou a dar concertos – chegando mesmo a passar pelo lisboeta Lux numa noite memorável – e finalmente chega o tempo de um novo tomo para juntar à colossal obra dos Stereolab.
E o que podemos dizer é que este é um regresso muito feliz. Desde as primeiras notas deste Instant Holograms on Metal Film, mais concretamente desde os primeiros 20 segundos do segundo tema, “Aerial Troubles”, quando a guitarra e a batida arrancam e as vozes femininas se interligam, estamos imediatamente em território Stereolab, e reconhecemo-lo como o reencontro emocionado com um velho amigo a quem não vemos há muito.
Em “Melodie is a wound”, mais de sete minutos gloriosos, voltam a brindar-nos com um velho exercício que sempre dominaram com mestria: começam com aquele charme blasé e direitinho, para depois arrancarem, a meio, para uma segunda parte mais experimental e pura ‘motorika’, encharcada em fuzz, sopros e o seu costumeiro borbulhar de sintetizadores vintage de fazer inveja à garagem dos Air. O mesmo exercício, talvez ainda mais bem conseguido, aparece novamente na óptima “Esemplastic Creeping Eruption” (e desafio-vos a encontrar num nome de música mais Stereolab que este!).
“Immortal Hands” é uma delícia do princípio ao fim, começando por evocar a cena de Canterbury do final dos anos 60 para ir evoluindo para o seu costumeiro retro-futurismo, uma idade espacial numa base impecavelmente alcatifada. A instrumental “Electrified Teenybop!” relembra-nos que, aqui e ali, a electrónica também faz parte do pulsar dos Stereolab.
Já a negra e elegante “Colour Television”, com os clássicos “la-la-la” maquinais de Sadier leva-nos direitinhos de volta ao mundo verde e borbulhante de Dots And Loops, contendo em si praticamente todos os elementos de Stereolab vintage: os teclados, a voz desligada e ao mesmo tempo comovente, a guitarra e a bateria propulsoras.
Há destaques, sim, mas este é mais um daqueles discos que merece ser avaliado e consumido por inteiro, para assegurar uma eficaz imersão neste universo tão particular. Instant Holograms on Metal Film não é nenhum salto em frente, não é nenhuma ruptura, não traz qualquer garantia de uma vida futura e radiante para os Stereolab. É, sim, de certa forma um disco de Stereolab total, porque traz todas as suas marcas de sempre, e das quais tanto gostamos, e há tantos anos. Porque tem as melodias, uma produção como sempre imaculada (cortesia de Cooper Crain, dos recomendáveis Bitchin Bajas) e a dose certa de exploração sónica.
Como sempre, os Stereolab não se mexeram. Estão onde sempre estiveram, numa elegante cápsula espacial dos anos 60, a beber um cocktail colorido enquanto discutem filosofia. O mundo é que, parece, girou e voltou a alinhar-se com eles.
Ainda bem. Se há coisa que o mundo precisa agora é de um retiro seguro, confortável mas ao mesmo tempo estimulante. E sempre, claro, com grande estilo.