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Sr. Chinarro, um “traficante de prazer”

O Altamont aproveitou o lançamento de El Bando Bueno e meteu-se à conversa com António Luque, o homem por detrás de Sr. Chinarro. A entrevista é curta, mas o apreço é grande. E mútuo.

Altamont: El Bando Bueno parece-nos um disco zangado com o mundo, mas com alguma delicadeza na forma como transmite essa ideia. Concordas?

Sr. Chinarro: Acho que isso se pode dizer de todos os discos de Chinarro. O entertainer pode estar feliz com o mundo, mas o artista é obrigado a propor um mundo novo, é o seu papel. A delicadeza é o que diferencia a proposta do artista da do político.

E este namoro recente em disco com os sintetizadores que parecem saídos dos anos oitenta, como foi que começou?

O sintetizador que se ouve no disco é o Roland JX-3P e é de 1983: não parece, é. Os sintetizadores novos não conseguem soar assim, a tecnologia muda e, parece-me que sempre para pior. Começou nos anos oitenta, quando ouvia bandas que os usavam. Já consegui praticamente todos os que mais gosto: o Roland Juno 60, o D50, o Yamaha DX7, o Korg Polysix e agora este. No outro dia, no Wallapop, escapou-me um Korg M1 que estava muito barato. Foi o que usámos em “El porqué de mis peinados” e também no disco seguinte. Em Sr. Chinarro sempre houve teclados. No “El fuego amigo”, no “El mundo según”, no “El progresso” e “Perspectiva caballera” usámos instrumentos reais de cordas, que ficam bem mas são bastante mais caros e não sei se os prefiro aos sintetizadores, acho que não.

Uma vez que sabemos que já há várias novas canções feitas, o namoro ainda pode dar em casamento sério no próximo álbum, se é que tens já alguma ideia sobre ele?

Parece-me que os esboços novos são melhores do que os que tinha para o El Bando Bueno: foi o que me disse a minha companheira, que também faz de chefe neste aspeto, à falta de uma equipa de trabalho. Faltam as letras, isso sim. Deixo-as para o final para o caso de me cansar de algum esboço antes. Não gosto de ter de as adaptar de uma melodia para outra, é complicado e nem sempre fica bem.

Assim como não há Planeta B, que plano B existe para que os músicos possam sobreviver nestes dias em que não há concertos, festivais de verão, em que estão proibidos de exercerem a sua profissão?

Não sei, espero que possam conseguir ajudas do Estado como qualquer outro trabalhador; ou adiantamentos das discográficas, das sociedades de gestão de direitos, não faço ideia. Recomendo sempre gastar pouco e guardar para situações de crise. Muitos músicos gostam de viver como se fossem estrelas de rock desde o primeiro dia, e a esses só recomendo que vejam menos documentários do passado, porque o passado passado está.

Tens alguma música que te pareça melhor do que as outras 9 de El Bando Bueno?

Cada um de nós tem sempre as suas favoritas, mas as minhas não costumam coincidir com as escolhas da maioria. Também me acontece com os discos dos outros, às vezes as músicas mais populares não são as que mais gosto.

Para além dos 3 singles de apresentação, o Altamont adorou “Scorpio”, “Teleraña” e “La Odisea”. Fala-nos dessas 3 canções, por favor.

Por exemplo, tinha tirado a “La Odisea” do disco se tivesse alguma música de reserva: o baixista e o baterista mudaram o desenho do refrão e quando percebi já era tarde. Espero que em direto a possamos tocar como eu a tinha pensado (é um detalhe que quase ninguém vai notar, mas para mim é fundamental). A “Telaraña” também não ficou bem quando tocaram à sua maneira a linha do baixo e o ritmo da bateria que tinha na minha maqueta, por isso tive de suprimi-los. Por isso já vêem que duas das canções que vocês mais gostam estiveram na fronteira para sair do disco durante vários dias duros no estúdio. Por sorte, no final, ficaram bem: o ritmo que acabou por ficar em “La Odisea” talvez fique ainda melhor com a letra e, em “Telaraña” agradece-se o respiro e a mudança de ambiente. Já em “Escorpio” não mudámos quase nada, a não ser o arranjo de guitarra ao estilo de Beach House ou Cocteau Twins de Jaime, que ficou muito bem. O acrescento do sintetizador no refrão fez o resto.

Neste teu novo disco sente-se alguma nostalgia em relação a Sevilha, a tua terra natal. Gostarias de regressar a casa, como também pretendia Ulisses?

Ou a San Fernando, Cádiz. Um dia regresso. Não há nada que gostasse mais. Mas acredito que aqui, em Barcelona, tenho um melhor clima de trabalho. Era o meu sonho de criança, espero que não seja tarde.

Ser “traficante de placer” dá-te prazer também a ti, ou a criação artística implica mais sofrimento do que alegria?

Implica satisfação: prazer e dor ao mesmo tempo. Talvez até haja algo de sadomasoquismo. Não sou psiquiatra, mas suspeito que se trata de compensar certas neuroses. Ao fim e ao cabo, compor consiste em ordenar alguns elementos que estavam baralhados.

Para nós, que conhecemos alguma da música que se faz em Espanha, parece-nos que sem Sr. Chinarro, Los Planetas, La Bien Querida ou Bigot, há um enorme vazio de qualidade. Mesmo sabendo que não vais querer ser indelicado com os teus pares, parece-te injusta a nossa apreciação?

Tenho de dizer que coincidimos mais ou menos nos gostos. Em Espanha há uma mania de fazer músicas ruidosas e engraçadas que, raras são as vezes que resultam bem. Diria que nos primeiros discos de Siniestro Total e nos Nikis, que eu adoro, mas nada mais. Depois temos no indie atual um estilo épico falso que também é terrível. É como se da chamada “movida” madrilenha dos anos oitenta só tivesse sobrevivido a parte mais fútil. Por outro lado, as letras puras e duras de amor aborrecem-me bastante, só J ou Ana Fernández conseguem resolver bem esse transe com alguma frequência, por isso acabo por ouvir sempre música em inglês. Gosto de Bigott.

Alguma vez te passou pela cabeça (ou na de J, de Los Planetas) fazer um disco conjunto com ele?

A ideia pode animar os fãs comuns a ambas as bandas, mas nem para o J, nem para mim faria muito sentido. Porquê atacar uma vez se podes atacar duas? O que costumamos fazer é partilhar visões e opiniões, e não me ocorre melhor maneira de colaborar. Ainda que, como o próprio J disse ao cantar em “Planeta B”, as nossas vozes fiquem bem juntas.

*O Altamont agradece as ajudas preciosas da Susana Ximenes e da Inês Esteves para a concretização desta entrevista.

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