Integrado na 12.ª edição do Festival Montepio Às Vezes O Amor, “As Canções de Amor” apresentou-se desde o primeiro instante como algo diferente. A sala não fervilhava, escutava.
Havia menos ecrãs erguidos, menos ansiedade no ar. O público parecia disposto a fazer o que raramente se faz hoje em dia: parar. Ouvir. Deixar que cada palavra assentasse. Antes da primeira nota, há um rosto. Ou melhor, vários. Fotografias gigantes de Sérgio Godinho, a preto e branco, desenham o cenário do Coliseu do Porto quando o pano sobe. A noite de domingo arranca em tom de memória e prepara o terreno para aquilo que se confirmaria ao longo das duas horas seguintes: mais do que um concerto, uma escuta. Quando Sérgio entrou no palco, a reação da plateia foi avassaladora, mas, ao mesmo tempo, estranhamente calma para mim. Este paradoxo traduz-se em aplausos incessantes e assobios, mas olhares fixos e ternurentos que traduzem uma cumplicidade enorme entre o público e o artista. Não era a primeira vez que aquela sala o via. De facto, mais que amigos de longa data, Sérgio e o Coliseu parecem uma paixão de outros tempos.
O músico vai direto ao assunto com o primeiro tema, “Aprendi a Amar”, que explica muito bem o motivo pelo qual estavam todos ali reunidos: para ouvir sobre o amor. E se achava que adultos não podiam ficar tão concentrados quanto crianças a ouvirem uma história, foi aqui que percebi que estava muito enganada. O segundo tema escolhido por Sérgio foi “Definição do Amor” que foi proclamada como um poema quando se ouve pela sala fora que “o amor é fogo que arde sem se ver, enquanto a iluminação vermelha criava uma aura calorosa e envolve. O verso repete-se no final como uma proclamação, e as palmas começam no fundo da sala, aproximando-se em ondas até ao palco. Termina esta temática de canções com títulos amorosos com “Às vezes o amor”.
Entre canções, Sérgio fala do Porto, das memórias de quando vinha ver espetáculos antes de saltar para “aquele lado”. Recorda o primeiro álbum com “Romance de um dia de estrada” e relembra que há mistérios que são sagrados com “Deusa do amor”. Conta histórias como quem puxa uma cadeira e diz “vou ter que me sentar para vos contar isto”, antes de avançar para “2º andar direito”, uma das suas músicas mais longas. Há humor pelo meio, incluindo a memória de ter ouvido Bob Dylan justificar a duração improvável das suas músicas. “Ele ganhou”, remata, arrancando gargalhadas e explicando que já não tinha como negar esta favorita do público que causou palmas fortíssimas e emocionadas e ainda um flash descuidado.
No final de “As certezas do meu mais brilhante amor”, levanta-se como uma aviso de que agora ia mudar de ritmo. Em “Não Vás Contar Que Mudei a Fechadura”, a guitarra elétrica e o clarinete dão à sala um tom de jazz urbano, como se estivéssemos a caminhar por uma cidade chuvosa numa noite de fim de semana. Já “Que Lástima, Querida Fátima” surge quase como uma canção-abraço, dedicada a uma amiga de amores infelizes. “Não sei se ela ficou mais bemdisposta… mas espero que sim”, diz, entre risos. Com “Quimera do ouro” é possível perceber a grande cumplicidade entre elementos da banda, que é pequena e coesa, criando um ambiente aconchegante, quase doméstico.
Em “É Terça-Feira”, a reação é imediata, com gritos e palmas espontâneas mal o título é anunciado e foi aí que fiquei a saber que afinal há quem adore este dia da semana. Durante a música, Sérgio olha para a banda com com orgulho visível, como quem dá espaço para cada um brilhar. A música termina de forma quase mística e recebe, até então, a maior salva de palmas da noite.
“Emboscadas” instala um silêncio diferente, denso mas confortável. “A Barca dos Amantes”, evocando Milton Nascimento, traz a flauta transversal de surpresa e transforma a bateria num simples tambor marcado a baquetas. As palmas intensificam-se de música para música. Em “Espalhem a Notícia”, os gritos surgem ainda antes do refrão, e o palco divide-se em verde e azul. “Bomba-relógio” é um título que por si só já promete um ritmo acelerado, tão mais acelerado que o cantor agradeceu ao publico por terem-no acompanhado com palmas. “A Noite Passada” leva parte da sala a cantar a última frase em uníssono, culminando numa explosão de assobios e numa plateia já em pé. Antes do encore temos a lendária “Com um brilhozinho nos olhos”, em que o cantor retira o micro do suporte, gesticula a letra da música e a plateia inteira canta em uníssono “hoje soube-me a pouco”. O ritual do encore é cumprido com a banda e o cantor a saírem do palco por uns meros segundos. As palmas continuam até que regressam para “As Horas Extraordinárias”, breve e intensa, num silêncio que não pesa, mas, lá está, envolve. Depois, “Tudo no Amor”, do mais recente trabalho dos Clã, uma banda que afirma acompanhar há muito anos, hipnotiza a sala. E finalmente, chegou o momento mais esperado: “O Primeiro Dia” transforma o Coliseu num coro coletivo. Sérgio desafia o público a cantar sozinho e, ainda assim, a maior parte da sala permanece atenta, respeitando cada pausa, cada respiração presente nesta canção que move montanhas e nunca exagerando nos assobios e berros com medo de perderem um simples acorde.
Foi uma experiência rara para mim. Num tempo em que muitos concertos vivem da vibração imediata e do registo em vídeo, ali viveu-se sobretudo a escuta. Pessoas de várias gerações reunidas não para ver, mas para ouvir. Para deixar que as palavras assentassem. No fim, percebe-se que o amor esteve mesmo no centro de tudo, não como conceito abstrato, mas como prática. Na forma como se escuta. Na forma como se aplaude. Na forma como uma sala inteira pode ficar em silêncio apenas para deixar uma canção respirar.
Texto de Rita Matos Braga || Fotografias de André Gomes













