No palco esfumaçado da Zé dos Bois, a noite construiu-se em dois momentos distintos, ainda que ligados pela mesma intensidade física do som. Coube aos Parque Império abrir o caminho, num concerto curto, preparando o terreno para a viagem mais extensa proposta pelos Rún.
O quarteto portuense Parque Império entrou com calma, mas o crescendo faz claramente parte do seu modo de operar, como se cada música estivesse sempre prestes a rebentar. Entre ritmos quadrados e repetitivos e uma tensão acumulada em cada instrumento, a banda formada por Ivo Arroja (bateria), Rui (baixo), Chico Apolónio (voz e guitarra) e Joana Mont’Alverne (teclados, vozes, guitarra e acordeão), manteve o concerto constantemente à beira do colapso controlado. Há um claro instinto para o hino na escrita dos Parque Império: trabalham os refrões com precisão e entrega, garantindo que chegam ao público com força suficiente para ficarem presos no ouvido — e, mais importante, para serem sentidos em conjunto. Na Zé dos Bois, o som foi dominado pelo peso do baixo e da bateria, que formavam uma base sólida e física, daquelas que se sentem no corpo. A guitarra, por vezes, ficava mais atrás, a dar densidade ao conjunto em vez de procurar protagonismo, enquanto os teclados e vozes de Joana Mont’Alverne surgiam por cima com momentos de brilho inesperado. Pelo meio apareciam também alguns desvios improváveis, como um acordeão a atravessar o caos e a abrir ainda mais o som da banda. Por fim, a voz rouca e visceral de Chico Apolónio, juntamente com a sua forte presença em palco, acabava por puxar o público para dentro das canções. O final deixou uma sensação de descarga total, com várias pessoas já a cantar e a pedir mais.
Depois, Rún, irlandeses de Sligo, tomaram o palco e transformaram o ambiente da sala numa experiência contínua. O trio, formado por Tara Baoth Mooney (teclados, voz, Shruti box), Diarmuid MacDiarmada (baixo e voz) e Rian Trench (bateria), começou num registo quase imperceptível, com drones e pequenos sons incidentais que pareciam vir de objetos mais do que de instrumentos — pedras, ossos, gestos mínimos que davam à abertura um carácter ritualista. A partir daí, o concerto desenvolveu-se como um único fluxo. As fronteiras entre canções dissolviam-se e a música avançava como uma narrativa contínua, onde cada momento parecia nascer diretamente do anterior.
O baixo assumia frequentemente o papel de guia, como se transmitisse uma frequência subterrânea, enquanto a bateria surgia em intervenções que alternavam entre o ambiental e o tribal. Havia algo de profundamente hipnótico nessa construção: uma sensação de transe que se ia instalando lentamente, quase como um rito druídico conduzido por amplificadores.
À medida que a intensidade aumentava, o som aproximava-se de territórios mais pesados, com momentos de peso stoner que pareciam sair da própria névoa da sala. A fumaça invadia o público e o cheiro tornava-se quase mais uma camada sensorial do concerto, misturando-se com o volume e a vibração do baixo. A voz surgia transformada em diferentes momentos — por vezes manipulada até ganhar uma textura robótica, por outras mais crua e ancestral, entoando frases em gaélico que reforçavam a dimensão ritual da atuação.
Entre o Shruti box, drones, manipulação vocal e improvisação constante, o trio construiu algo que se movia entre o art rock, o stoner e uma espécie de folk pagão futurista.
No final, ficou a sensação de ter assistido menos a um concerto tradicional e mais a um processo de transformação do espaço. Durante pouco mais de uma hora, Rún converteram a sala num território suspenso entre ruído, ritual e transe — música que tanto podia nascer de uma caverna antiga como de um laboratório de som contemporâneo.
Fotografias de Rui Gato





























