Estamos junto ao rio, no Cais da Ribeira. O Tejo entra pelo armazém remodelado adentro, trazendo consigo os reflexos dourados das luzes das docas. Não está muita gente. Nas nossas mesas, aquecemo-nos da noite fria de Outono com bebidas fortes. Norberto Lobo chega por fim, com uma guitarra acústica numa mão e um instrumento oriental chamado tambura na outra, que pousa no chão. Senta-se com a guitarra e sem nos dirigir uma única palavra começa a tocar. De olhos fechados, os seus dedos sabem encontrar no escuro as notas que procuram. O seu corpo baloiça-se, ondulando ao sabor da música, numa espécie de transe. Nesse momento, Norberto já não se encontra no Cais da Ribeira, no último dia do mês de Outubro. É noutro lugar e noutro tempo que habita – o da pura poesia. E é para lá que ele nos leva.
Começa com “Maga Raga”, uma canção lenta e obsessiva que recria as ambiências exóticas da Índia ancestral. Um som da cítara emulado através do slide-guitar. Depois, atira o bottleneck para o chão e sem nos dar tempo sequer para aplausos, ataca logo outra música. Agora, os seus dedos compridos como patas de aranha correm depressa em todas as direcções. O seu virtuosismo é tão extraordinário que consegue extrair duas melodias simultâneas da sua guitarra. Ficamos a olhá-lo de boca aberta. Como é que um simples humano consegue fazer aquilo? De que planeta este prodígio veio? Onde é que está o seu terceiro braço escondido?
A maioria das canções são do seu último álbum a solo Mel Azul (e.g., Golden Pony Blues, Vudu Xaile, Rua da Palma Blues). Muitas delas são coladas umas às outras em engenhosas rapsódias. Quando finalmente faz uma pausa, a intensidade do nosso aplauso tem que ser redobrada, para fazermos justiça a todas as canções para trás interpretadas de um só jorro. Mas Norberto Lobo fica desconfortável. O nosso guitarrista não é de todo peixe de palco. Tímido como só os génios sabem ser (não era assim também Carlos Paredes?), agradece com um acenar nervoso da cabeça e foge o mais depressa que consegue para a próxima música, único território onde se sente tranquilo.
Além de temas novos, e de uma versão deliciosa do “Blue Velvet” (tema imortalizado no icónico filme do David Lynch), algumas canções mais antigas foram também relembradas, como a “Fio Mental (oiã)” e “Chaomin de Luz”, ambas do álbum de 2011 Fala Mansa. Nesta última, Lobo coloca o travessão a meio do braço da guitarra, brincando com os sons estranhos que extrai das cordas presas acima do travessão. Revela aqui outra das suas características que o definem como artista: o seu gosto pela exploração de novas possibilidades sonoras do seu instrumento. Não nos esqueçamos de uma coisa: Norberto não é bicho de academia, e, sendo autodidacta, tem uma liberdade e espontaneidade que os guitarristas de Conservatório muitas vezes não têm. É difícil rotular a sua música, mas se fossemos forçados a fazê-lo, teríamos que invocar uma “corrente” igualmente experimentalista e autodidacta: o americanismo primitivo de John Fahey e Jack Rose. O que Fahey fez nos anos 50 foi apropriar-se das velhas técnicas blues de tocar guitarra acústica (como o slide guitar) para expressar música mais experimentalista e dissonante. Justamente o que Norberto Lobo também faz, na sua inimitável maneira.
Quase no fim do concerto, Norberto Lobo dirige-se finalmente ao seu público: “Olá. Tudo bem. Obrigado por terem vindo.” Rimo-nos com ternura do insólito timing das suas primeiras palavras. E no último tema Norberto faz uso do tal instrumento oriental esquisito, a tambura, que domina com igual mestria. Dedica-o ao grande Lou Reed, que nos abandonou há dias. Depois, com um rápido aceno, e sem nada dizer, abandona abruptamente o palco. Nós compreendemos o statement. No território da beleza pura para onde Norberto Lobo nos leva, não são precisas palavras.
Fotos: Mário Romano
