Prado, Hetta e Morte á Calçada encheram o b.leza numa bela noite de verão. Marcou-se o lançamento do primeiro registo dos Prado – Quantas Vezes Ao Sol Até Eu Morrer – com a celebração do movimento hardcore e, mais do que tudo, das ganas e da criatividade de quem o compõe.
Pouco mais de nove meses separam o concerto da passada semana da festa de lançamento de Acetate no início de dezembro de 2025. Confiem em mim, tenho uma série de razões – e todas muito boas, se é que esta qualificação vos fará algum sentido – para introduzir a coisa desta forma. Isto para lá das semelhanças no cartaz.
Apetece-me começar por sublinhar a grande satisfação que senti, e que continuo a sentir, por poder testemunhar o poder da música independente e da nossa (muito) jovem comunidade underground. O Rés-do-Chão da Sala Capitão e o b.leza são salas de média dimensão que esgotaram para ver e ouvir um punhado de bandas a que a maioria chamará de barulho. É certo que pode ser apenas uma percepção de nicho – ou de algorítmo analógico – mas fica a ideia de que a cena está a crescer e de que esse crescimento está muito assente numa nova geração que para além do mosh, do crowd surfing ou do slam, também gosta de assumir papéis mais interventivos como formar a sua própria banda, fotografar, ilustrar e afins. Será precipitado pensar que o underground estará a vir à tona?
Ainda neste sentido, gosto de pensar – e há sinais de que não se trata apenas de pensamento fantasioso – que os Prado tocarem no lançamento do disco dos Hetta e os Hetta tocarem no lançamento do primeiro registo dos Prado é mais fruto da comunhão e interajuda que tem reforçado a tal cena do que da pequena dimensão da mesma. (Infelizmente) habituados à lógica das capelinhas, é mesmo muito bom observar a partilha que vai existindo na comunidade.
Finalmente, e como deixa para entrar no concerto da passada quinta-feira, permitam-me entrar sem rodeios num dos meus lugares comuns preferidos – porque são escritos sempre com sinceridade – o da evolução da banda. Conheci os Prado naquela noite da Casa Capitão e fiquei imediatamente (muito bem) impressionado. No entretanto ainda tive a sorte de os apanhar no Vortex e posteriormente no Impulso, e fica cada vez mais transparente que a banda tem tanto ou mais conteúdo que a impressionante forma assente sobretudo na dinâmica vocal e performativa de Didi e Matilde. Quantas Vezes Ao Sol Até Eu Morrer está aí, em cassete e edição digital, para o provar. Para ajudar-nos a descascar as várias camadas de que são compostas os seus temas e para alimentar os seguidores que vão transbordando à beira do(s) palco(s). Que belo concerto, que intensidade e … não sendo preciso, a delícia da cover da sempre presente, e sempre saudosa, Reia Cibele.
E, à oitava tentativa, percebi, sou demasiado pouco para conseguir reportar decentemente um concerto dos Hetta. Sim, é verdade, sinto-me sempre pouco com qualquer banda … sinto sempre o tal síndrome do impostor, com a diferença que não sendo artista serei sempre o impostor! No entanto, com o quarteto do Montijo a coisa ganha dimensões demasiado grandes. Esta banda emana hipnotismo até à infinitésima casa. Mesmo que ficasse um concerto inteiro apenas fixado num dos quatro, nunca seria capaz de apanhar tudo … até porque o (só) aparente caos sónico é na verdade a harmonia extrema. Se juntarmos o som daqueles cinco instrumentos (baixo, bateria, guitarra, voz principal e coros) à intensidade e à tensão em cima do palco, ao olhar e à presença de Alex Domingos, às mais diversas reações na plateia e ao que mais me estiver a esquecer, percebe-se a dificuldade … o exagero sublime de estímulos. O deleite. Na próxima vez irei sem câmera e sem caneta … só sentir! E não contarei nada a ninguém!
A noite abriu com um quarteto denominado Morte á Calçada. “O acento è mal de propòsito” anunciam na respetiva página do instagram e o sentido de humor e/ou a ironia estende-se à própria definição estilística do som da banda – também anunciada no seu bandcamp: “alternative emo pimba roque screamo trap”! Se no caso dos Hetta, já descobri a minha incapacidade de processar tudo … aqui ainda tenho de estudar – ouvir e apanhar outras vezes ao vivo. A banda carrega para cima do palco a quantidade e diversidade de ideias que utiliza para se descrever e logo à primeira, não é fácil (para mim) apanhar tudo e integrar. A voltar, mas ainda de máquina e caneta na mão.
Fotografias de Rui Gato




































