Panda Bear está de regresso! Que haja regozijo, comemoração, um qualquer amplo gesto de alegria pura! Noah Lennox devolveu-nos a tristeza que nos faz tão felizes!
“Prenez garde à la tristessse, c’est un vice.”
Gustave Flaubert
Ninguém dá festas e colo à melancolia como Noah Lennox. Mais do que nunca, parece-nos. Talvez os ares da terra da saudade tenham ajudado, uma vez que é maioritariamente por cá que vai residindo e fazendo nela a sua muito particular música. Sinister Grift é tudo menos o que o título sugere. Ou, vistas as coisas de uma outra perspetiva, até pode ser que o golpe sinistro que nos pretende aplicar, afinal, se revele tão vizinho do que somos, que nada de fraudulento ou de duvidoso aspeto possa ressoar do seu mais recente longa duração. Nada há a temer, portanto. Até porque se tornou, logo à primeira audição, “muito cá de casa”, ou não fôssemos nós um povo tão sujeito a desgostos e feridas de tristezas episódicas, embora tantas vezes profundas. E porque também gostamos da leveza de respirar melodias e suspirar palavras, podem acreditar no que dizemos: está aqui um dos discos do ano de 2025, e ainda só vamos nos primeiros dias de março.
A edição física que tenho em mãos de Sinister Grift é linda, toda ela. A capa tem um sabor nostálgico bem definido, e isso parece transpor-se para a rodela de vinil, sumptuosa, na edição limitada e translúcida de cor blue coracao. Mas vamos ao que mais importa. Vamos aos temas de Sinister Grift, que são muitos e bons. Muito bons, mesmo. As primeiras cinco ou seis faixas elevam-se bem alto, na sua qualidade. São transbordantes de leveza, de doces mistérios, pérolas que nascem, uma a seguir à anterior, como a da divindade do quadro de Botticelli. Promovem aproximação, empatia de sons e ritmos, vozes concordantes e celestiais. Parecem vindas de uma ementa sonora gourmet do Olimpo. E, para que a sensação se torne maior e mais delirante, há palavras ditas em português (“Anywhere but Here”, a segunda canção do álbum, conta com o canto da voz de Nadja Lennox, filha do cantor), num momento de doce e serena paz. Lindo, tudo, do princípio ao fim! O tema de abertura (“Praise”) é tão bom que não apetece de lá sair, voltar atrás, ouvir de novo para ouvir melhor ainda, and so on até ao derradeiro instante do Lado B. Vale lembrar a pop perfeita de “50mg” (que bela canção para se cantar por aí), o swing de “Ends Meet” e de “Ferry Lady”, ou o quase pranto de “Elegy for Noah Lou”, todas distintas, mas com o brilho das coisas de génio.
Apesar de não dever ser visto como um disco que chora o divórcio recente com Fernanda Pereira, é provável que essa perda sentimental esteja presente em Sinister Grift. Nós, os lusos, gostamos da beleza que artisticamente pode haver nos momentos de dor, desde que bem doseada, com o requinte e a simplicidade dos ingredientes certos. Ou que pareça assim ser, porque nisto da arte, o que parece um cachimbo, na verdade, não é. Os temas vão-se tornando, aos poucos, mais contemplativos, sem perderem os focos centrais de todo o álbum, a beleza etérea que emana por todos os sulcos de vinil percorridos pela agulha do nosso contentamento. Se é verdade que existe por aqui, por quase todas as faixas, uma elegante inquietude, alguma sombra e escuridão, até mesmo nas mais ritmadas canções, a luz que vem dos arranjos vocais e das melodias de Sinister Grift acende-nos o coração (blue, como a cor da rodela que lhe dá corpo), dando-nos um esgar de satisfação contida, mas duradoura. Flaubert sabia bem o que dizia, a propósito da tristeza, essa distinta forma de íntimo contentamento romântico.
Já muitas vezes se disse que Noah Lennox é o novo Brian Wilson. De tanto dizer-se, parece ser facto indesmentível. Não desejo retirar esse pão da boca da crítica, nem dos ouvintes. Mas também ouço os seus discos, e mesmo entendendo a eventual verdade dessa comparação (ouça-se “You’re Welcome”, dos Beach Boys para se perceber a base do xadrez sonoro de Person Pitch, de Panda Bear, por exemplo), resta-me a convicção de que talvez não seja exatamente assim. Nem sempre. Não somente. Há muito mais mundo para além desse traço de concordância entre os dois artistas. Que não se fique por aí. Panda Bear tem a sua marca, a sua identidade, o seu caminho feito e ainda muito por fazer de muito seu. Que não se faça pobre uma tão rica rima.