O segundo longa-duração de Olivia Dean é um disco de canções de amor, mas de outros tipos de amor menos cantados: o próprio, o prometido, o exigível e o que se encontra nos lugares mais improváveis.
Foi em setembro passado que saiu The Art of Loving de Olivia Dean, mas ainda não parámos de ouvir as suas músicas, cada uma mais catchy que a anterior, todas elas espalhadas por toda a internet. É um excelente sinal, quando os discos se mantêm próximos passado o hype inicial e continuamos a escolhê-los em detrimento dos novos lançamentos que fazemos nota mental de não esquecer. O segundo longa-duração da inglesa de 26 anos não é absolutamente revolucionário, mas tem acompanhado muita gente desde o lançamento do primeiro single, “Nice To Each Other”, em maio, e isso merece o nosso apreço.
A receita é promissora: ritmos felizes, uma voz quente e um empurrãozinho de empoderamento e sororidade. Olivia Dean diz-nos para irmos atrás do que queremos sem grandes hesitações. As letras, completas e inteligentes, equilibram-se entre a razão e a emoção e, (ciente da abstração da próxima frase), sentem-se no disco os ares de Londres: encontramos nele os coros divertidos de Harry Styles e o storytelling honesto de Arlo Parks. É pop bem feito, com gosto e coisas novas. Comecemos, então:
Tudo sobre o amor, de bell hooks, muda a forma como os seus leitores encaram o amor e este disco é um dos seus ecos. Tal como o livro, esclarece-nos sobre a inevitabilidade de encontrarmos e sentirmos amor, assim como a possibilidade de ele se esmorecer. Mas o que “The Art of Loving (Intro)” nos diz é que nos deixemos ir, porque sairemos sempre a ganhar (alguma coisa). É um bom prelúdio.
Primeiramente, The Art of Loving é um disco sobre uma idade em que nos vemos de fora a mudar mas ainda não sabemos o que essas mudanças significam para o futuro que começamos a desenhar. Uma idade tão efervescente que nem a acompanhamos bem, mas onde confiamos que tudo se alinha, porque sabemos que tem sido sempre pelo melhor. “Lady Lady” é uma das músicas menos interessantes do álbum, mas fala precisamente de uma certa aceitação do que vem sem pedir muitas explicações.
Este é também um disco sobre as complexidades de um coração apaixonado e dos seus sentimentos paradoxais. Por um lado, “Nice to Each Other” traduz as hesitações que passam pela cabeça de quem não se quer deixar apaixonar, porque não acredita que as coisas alguma vez possam vir a correr bem. Por outro, “So Easy (To Fall In Love)” é um hino de amor próprio e, ao mesmo tempo, de dedicação ao outro e à ideia de uma vida conjunta. “There’s Heaven in my heart, and we could find you some space” encapsula essa ideia de complemento e questiona a de completude, tão mais enraizada em nós (e problemática).
Contudo, os desamores também encontram aqui conforto. “Close Up” mostra-nos que Olivia Dean conhece situationships de perto. Mas dá-nos também um dado importante sobre a atmosfera deste disco: “I feel stupid for wearing that dress / Yeah, I guess I saw something you didn’t” revela um coração partido acompanhado de um queixo levantado. A voz calorosa que canta “Let Alone The One You Love” também foi abanada, mas mantém-se confiante. É bonito o equilíbrio ao longo das doze faixas entre desilusão, amor próprio e auto-confiança. Dean sabe que não é ela quem perde, sabe quem é e o que quer, permite-se sentir todas as dores e escolhe ficar em paz no fim. É isso faz esta coletânea de canções de amor tão diferente.
Por fim, é um disco muito coeso, mesmo tendo faixas com musicalidades tão diferentes. “Man I Need” é pop puro, “Loud” tem umas cordas bonitas (ainda que a letra caia nalguns clichés) e “I’ve Seen It” (lindíssima!) entra de mansinho para fechar o disco, entrelaçada com a melodia da “Just The Two Of Us” de Bill Withers e com um piscar de olho a Jim Croce e à sua “I Have to Say I Love You in a Song”, e conclui sumariamente: vale a pena o amor.
Musicalmente, as melodias super catchy e bem executadas deixam as letras, a luz deste disco, brilhar com um aconchego duradouro. Olivia Dean não é a melhor poeta de todos os tempos, mas diz as coisas certas para a juventude moderna, o que é sempre refrescante de encontrar. Além disso, o álbum está maravilhosamente produzido: o fim abrupto das músicas e os ornatos instrumentais que vão aparecendo no meio da letra tornam tudo muito envolvente.
Talvez The Art of Loving seja um disco de canções de amor, mas não do amor que esperamos. Porque, mesmo quando Dean fala das suas malditas situationships, fala com quem a ouve para que os mesmos erros não sejam cometidos. São canções de amor, sim, mas são sobre outro tipo de amor: o amor que sentimos, o amor que podemos sentir, o amor que devemos exigir, o amor que encontramos em nós e à nossa volta, nos lugares mais recônditos e improváveis, quando o amor que nos prometem nos falha. E por isso é que estas são excelentes canções de amor.