Canção do dia

“Be My Baby” – The Ronettes

Imaginem a cena de um filme: uma mestiça, filha de uma negra-nativo-americana e de um irlandês, chega a um estúdio vestindo a sua combinação saia-casaco abaixo do joelho, um chapéu de abas largas e luvas. Calça uns sapatinhos com um pequeno salto-alto e está sozinha frente à porta de um grande estúdio musical.

Essa jovem chama-se Veronica Yvette Bennett e tem uma pequena banda com a irmã e uma prima chamada The Ronettes. Estas três moças tinham tido algumas actuações em palcos locais, mas atingiram muito pouco sucesso. Usavam muita maquilhagem e os cabelos penteados em colmeias verticais e eram atraentes, mas musicalmente estavam estagnadas. Tudo mudara com um telefonema.

Estelle Bennett ligou a um produtor chamado Phil Spector (esse génio da pop dos anos 60 e 70 caído em desgraça por ter assassinado uma actriz) e pediu uma audição. As coisas foram acontecendo e Veronica (que tinha como nome artístico Ronnie) acabou por ser escolhida para ser a voz principal de uma das grandes canções do século XX. 

Voltando à cena inicial, é 5 de Julho de 1963, e esta jovem entra em estúdio. Tira as luvas, o chapéu e o casaco leve, ficando com uma camisola de alças e a saia. Descalça-se por causa do calor e entra na cabine de som onde estão mais vinte pessoas, mas não há sinais de vista da prima ou da irmã. É então que os três compositores da canção explicam a Ronnie: ela será a única Ronette a cantar naquele tema a que chamaram “Be My Baby”. 

Ronnie engole em seco, respira fundo e arranja o vestido. A bateria dá a entrada, depois a percussão e a guitarra juntam-se para acrescentar ritmo à canção. As ancas de Ronnie soltam-se e bamboleiam-se, enquanto os pés ficam estacionários.Os braços avançam e recolhem ao ritmo dos ombros e as palavras começam a soltar-se com uma sensualidade como raramente tinha sido vista antes e como poucas vezes foi igualada depois.

Ronnie canta com uma tremenda doçura e frescura e ao mesmo tempo uma certa melancolia e ânsia. É como ver dois adolescentes apaixonados a trocarem palavras de amor eterno (“For every kiss you give me, I’ll give you three”, “You know I will adore you ‘till eternity”). E depois entra aquele coro num refrão perfeito. O coro de sete vozes incluindo as de Cher e Sonny Bonno (sim, esses mesmos) inexplicavelmente bem ensaiado para quem gravava um primeiro take.

A canção continua num crescendo, com as harmonias perfeitas entre o coro e Ronnie, até que a secção rítmica desce de intensidade para dar lugar a uma orquestra que reproduz a melodia de uma forma profundamente sedutora. Depois Ronnie solta algumas frases, dá um espaço para o break de bateria e solta uns “Oooohhhs” e “Uuuuhhhs” hipnotizantes. 

No final, Ronnie olha para a cabine de som, sorri para Spector e este sorri de volta. “Está feito, miúda! Conseguiste! Tens aqui uma canção que vai ficar para a história!”

Se ao menos fosse assim tão fácil… Mas não, a perfeição exige tempo, treino e amarguras. Spector ensaiou com Ronnie durante semanas e quando chegou a altura de gravar o tema, usou a sessão inteira para completar apenas uma canção, quando a prática comum era gravar entre quatro a cinco faixas durante um dia. Na sua biografia, Ronnie referiu que passou semanas só a cantar aquele tema para que ficasse ao gosto do produtor. 

Mas o esforço acabou por compensar – pelo menos para quem ouve. Não há nada de errado em “Be My Baby”. Está lá a letra de amor juvenil que todos queremos para a nossa vida, os coros bem harmonizados, uma das actuações de bateria mais memorável de sempre, uma orquestra inteira para tocar menos de um minuto de música e a entrega vocal perfeita de Ronnie e do coro. 

Sobre esta canção, Brian Wilson, o autor de uma das canções mais essenciais à humanidade, disse: “Esta é especial para mim. Que som incrível, a Wall of Sound [técnica de produção criada por Phil Spector e reproduzida em Pet Sounds]. Meu, a primeira vez que ouvi isto foi no carro e tive de parar na berma da estrada. Não conseguia acreditar naquilo. Os refrões deram cabo de mim; as secções de cordas são a melodia do amor. A canção traz consigo a esperança de tornar o mundo melhor”. E conseguiu. O mundo é um  sítio melhor devido a “Be My Baby”. E se não é melhor, é no mínimo, mais suportável.