Um disco desigual, mas no qual um generoso punhado de grandes canções fazem a espera valer a pena.
Tal como tudo na carreira de Morrissey, o seu 14º disco de originais viveu um processo turbulento até ver a luz do dia. E tal como esse, processo, também o resultado é difícil, discutível, controverso. E, ainda assim, valeu a pena esperar.
Começou a ser pensado há pelo menos três anos, mas o cantor zangou-se novamente, a editora fartou-se de o aturar, e Morrissey ficou sem casa onde situar o disco que tinha começado a preparar. Como de costume, seguiram-se dúvidas, críticas ao sistema comercial da música, acusações de censura, etc, todos os clássicos de um artista controverso, narcisista e a envelhecer, depois de um longo caminho repleto de glória e controvérsia em iguais doses.
Finalmente, a histórica Sire Records decidiu girar a roleta e apostar num artista histórico, idiossincrático, por veze genial mas sempre problemático, e oferecer-lhe um contrato. Isso permitiu lançar o disco (há outro praticamente pronto, a caminho) mas aceitam-se apostas sobre quanto tempo esta relação irá durar.
Ainda assim, este novo trabalho mostra que vale sempre a pena estar atento ao que Moz vai produzindo. Tal como a grande maioria dos seus últimos discos, também Make-up is a lie alterna entre algumas excelentes canções e alguns tiros ao lado, mas sempre com Morrissey aos comandos. Como sempre, em toda a sua vida, é camp, é aqui e ali bastante inspirado, é melódico, é complexo, e é o cantor como quer ser ouvido, para o bem e para o mal.
Este disco marca também o regresso de uma personagem importante no universo Morrissey: o guitarrista Alain Whyte volta à parceria com o cantor e deixa a sua marca em alguns dos temas mais fortes deste trabalho. Whyte e Morrissey têm parcerias de composição em mais de 80 canções ao longo do tempo, mas já não trabalhavam juntos desde a excelente trilogia You are the quarry (2004), Ringleader of the tormentors (2006) e Years of refusal (2009), naquela que terá sido a última grande fase de inspiração da carreira a solo do antigo cantor dos The Smiths. Já a produção continua a cargo de Joe Chiccarelli.
Talvez por essa continuidade na produção, há aqui uma corrente que se mantém, e que é típica dos últimos discos do artista, uma imensidão de instrumentos, arranjos complexos e pormenores sónicos, que por vezes parecem encher demasiado as canções. E se, por vezes, ajudam a esconder temas estruturalmente mais fracos, noutras acabam por abafar melodias que valeriam por si próprias sem tantos ornamentos.
Talvez pela sua história atribulada, Make-up is a lie não é particularmente coeso. Ainda assim, há temas mais fortes, nenhum deles novidade mas talvez aqui mais marcados: o envelhecimento, a solidão do artista no âmbito da fama (ou da ausência dela, depois de uma longa e bem sucedida carreira), o amor e a sua impossibilidade.
Nos seus melhores momentos, há aqui muita coisa boa. O arranque com “You’re right, it’s time” dá o mote nocturno que perpassa todo o trabalho, em estilo night-club dançável. O mesmo registo, ainda que mais negro, aparece em “Notre-Dame”, uma belíssima canção que não merecia uma letra de teoria da conspiração que insinua mão criminosa no incêndio da histórica catedral parisiense. “Headache” é uma lenta balada que nos remete para os temas mais desolados de Strangeways here we come, o derradeiro disco de originais dos Smiths. “Boulevard” usa a imagem de uma rua, outrora grandiosa e impressionante e agora maltratada, cuspida e ignorada, para Morrissey se identificar, mas é uma música cénica, pesada, sóbria e lindíssima. “Lester Bangs” recupera a fixação que um jovem Morrissey, em Manchester, tinha com esse lendário crítico musical norte-americano, com uma letra finalmente honesta e que, talvez por isso, nos afete superiormente. E “Monsters of Pig Alley”, que fecha o trabalho, é pop extraordinária, numa canção direitinha, bonitinha e viciante, que nos remete mais uma vez para os Smiths e para os primeiros discos a solo de Morrissey, que não fugiam particularmente a esse registo.
Por estes temas, já o disco valeria a pena. Mas, como é habitual nos seus discos, há várias peças abaixo desse nível, afetando o veredito final. “Amazona” (Roxy Music), a única cover do álbum, não só não acrescenta nada como ainda o reduz; “Zoom Zoom the little boy” é a canção de direitos dos animais deste disco (tem sempre de haver pelo menos uma) mas parece algo inacabada, com a cítara eléctrica a brilhar num conjunto que não funciona lá muito bem. “Kerching kerching” é mais uma canção sobre os perigos da fama e do dinheiro mas nem a música é memorável nem a letra escapa a alguns lugares-comuns. “The night the pop dropped” é uma bem razoável canção pop, mas não acrescenta nada no universo Moz.
Morrissey é muita coisa, mas quase nunca é desinteressante. E isso volta a ser verdade aqui. Há melodias, há canções, há refrões, há ego e insegurança em iguais medidas. Há aqui temas viciantes e que vão ficar na cabeça daqueles que se derem ao trabalho de as ouvir com a mínima atenção, mas há também alguma palha cheia de tralha que não disfarça a falta de inspiração de base.
Mais um disco, mais um capítulo na história deste fascinante artista, que tanto atrai amor incondicional como ódio pelo que foi e naquilo que, politicamente e não só, se transformou. No fim do dia, o que fica são as canções. E em Make-up is a lie elas existem em número suficiente para nos fazer voltar e continuar atentos ao que o velho Moz ainda pode ter para nos dar.