Está salvo, o ano de 2024! Um novo álbum de Milton Nascimento é uma dádiva incomensurável e por isso o lado esquerdo do peito bate bem a preceito. Ainda há milagres no mundo, afinal.
É forçoso que se comece assim, desta maneira, nada escondendo: a música de Milton Nascimento é uma das maiores paixões da minha vida, pelo que quando fiquei a saber que um (muito provável) derradeiro disco desse meu muito querido carioca-mineiro estava pronto e quase a tornar-se público, imaginei, de forma antecipada, o que iria ouvir e depois escrever sobre o que aí viria. Tudo me passou pela cabeça. Receios, coisas boas, momentos surpreendentes. O que tivesse de ser, seria. E seria bom.
Milton + Esperanza ultrapassou as melhores expectativas e ouço-o agora, enquanto escrevo estas linhas, depois de digerido com cuidado e com amor mais de uma dezena de vezes. É um dos meus discos do ano de 2024, e muito provavelmente ganhará o ouro. Estou cada vez mais certo disso. Vai ganhar.
Milton + Esperanza é um disco feito com amor, muito amor de uma senhora chamada Esperanza Spalding que já confessou mais do que uma vez que as músicas que compõe são, na sua grande maioria, feitas a pensar em Milton Nascimento e na sua obra. Quando estiveram juntos a propósito da última tour de Bituca, o filho de Milton instigou Esperanza Spalding a produzir um disco do pai. Esse terá sido o início de todo o processo que se seguiria. No fundo, e como tantas vezes acontece, tudo se resume ao amor e aos seus insondáveis predicados. Os deuses celestes uniram um deus maior e uma deusa em ascensão para que divinamente surgisse Milton + Esperanza. E nós, os ouvintes, somos abençoados e ficamos agradecidos.
Milton + Esperanza está dividido em dezasseis momentos. São canções, interlúdios, pequenos instantes de conversas e risos, bom ambiente de estúdio. De Milton há as eternas “Cais”, “Outubro”, “Morro Velho”, “Saudades dos Aviões da Panair (Conversando no Bar)”, que conta com as importantes participações de Lianne La Havas, Maria Gadu, Lula Galvão e Tim Bernardes, e ainda uma canção que fez para Paul Simon, que o próprio canta em português remediado, digamos assim, com Milton. Há temas de Esperanza Spalding, naturalmente (um deles muito curto, com dois versos como letra, com o título “Late September” e que antecede “Outubro”, o que é bonito e bem pensado), assim como uma surpreendente versão de “Earth Song”, de Michael Jackson, com participação de Dianne Reeves, e uma outra de “A Day In The Life”, o que parece mais natural, uma vez que Milton Nascimento sempre foi um grande admirador dos fab four. A par de tudo isto, outros momentos há que fazem de Milton + Esperanza uma coisa muito boa de se ter nos ouvidos e no coração. São os casos de “Interlude for Saci” e “Saci”, esta última que soa, bem ao de leve e num particular momento, a “Tema de Amor de Gabriela”. No entanto, dou mais ou menos de barato que poderá ser apenas na minha cabeça que isso acontece, não me impedindo de cantarolar (baixinho, claro, de mim para comigo apenas) os versos “chega mais perto, moço bonito /chega mais perto, meu raio de sol”, enquanto o tema segue rasante ao do mestre António Carlos Jobim.
Apesar de muito recente (saiu a 9 de agosto), e depois de ouvido convenientemente, Milton + Esperanza parece um disco antigo e muito amigo cá de casa, um disco que sempre existiu e que apenas não o ouvíamos há muito, por um qualquer inconcebível esquecimento. Como se fizéssemos, no presente, as pazes com um passado que nunca houve verdadeiramente, mas que ocupou décadas da minha existência.
Sim, não deixa de ser verdade que a voz de Milton Nascimento já não é a voz que Elis Regina disse ser a de Deus, “se Deus cantasse”. O que importa é que ainda canta, ainda canta bem, mantendo brilhos e timbres já não tão puros e polidos, mas que soam (nostalgicamente ainda mais) maravilhosos, pertos da perfeição. Quanto a Esperanza Spalding, a cantora, baixista, multi-instrumentista, compositora e produtora norte-americana, sabemos que realizou o maior sonho da sua vida, que por qualquer razão transcendente, digamos assim e à falta de melhor explicação, também realizou o desejo sempre crescente em mim, o de que Milton Nascimento voltasse aos discos.
Uma última nota para capa, contracapa e encarte de Milton + Esperanza. Juventude e velhice aparecem com sorrisos nos rostos, de mão dadas, uma segura e a outra necessariamente trémula. Teimo em ver essas imagens como a metáfora que falta no mundo sofrido, agressivo e violento em que vivemos. E quando ouço, uma vez mais, “Um Vento Passou (para Paul Simon)”, dá-me um aperto no peito, desejando que tudo passe, mas que nunca passe a beleza que os corações dos homens bons ainda teimam em dar-nos. Obrigado, velho e bom amigo Bituca. Obrigado, Spalding. Fica a saber que a partir de agora escreverei a palavra esperança como se escreve o teu nome.