Para o Dia dos Namorados em Lisboa, Miles Kane trouxe rosas e as canções do seu novo álbum Sunlight In The Shadows embora tenham sido os velhos clássicos que nos fizeram ficar.
Os feitos de Miles Kane conseguidos ao lado do seu compincha Alex Turner chegariam para encher uma carreira musical muito bem-sucedida. Desde a guitarra que gravou para o clássico “505”, dos Arctic Monkeys, até aos dois brilhantes álbuns dos Last Shadow Puppets (poderão ver aqui que não sou propriamente imparcial nesta matéria), parece que a criatividade dos dois amigos floresce quando estão juntos. Ainda assim, é um erro pensar que só vale a pena prestar atenção a Miles Kane quando surge em parelha. Desde Colour of the Trap, de 2011, onde conseguimos ouvir claramente a influência Arctic Monkeys-iana (ou será ao contrário?), que Miles nos tem dado, de forma discreta, mas constante, ótimos álbuns de bom e velho rock and roll. Neste Dia dos Namorados que passou, decidi dar uma nova hipótese a este amor antigo e ir ouvir como soavam as novas canções de Sunlight in the Shadows, lançado a 17 de outubro de 2025, nas colunas da sala 2 do Lisboa Ao Vivo.
Miles Kane e a sua banda entraram em palco ao som de “Stand By Me”, de Ben E. King, que soou no PA logo após “Can’t Take My Eyes Off You”, de Frankie Valli. De óculos de sol e com um ramo de rosas vermelhas em punho, Miles terminou aí as referências melosas à data que se celebrava naquele dia, e não perdeu tempo a atacar a setlist que já trazia preparada dos concertos que anda a dar pela Europa.
Apoiado por uma banda completa (e por uma excelente baterista), Miles apresentou uma muito equilibrada degustação de todos os seus álbuns (que já são seis). Incansáveis, a banda fez poucas pausas e atirou-se a versões cheias e um tanto aceleradas de todas as faixas, quer fossem novas ou antigas, dando mostras de serem uma máquina muito bem oleada e das excelentes capacidades de Miles Kane enquanto front-man. Embora tenham sido as canções de Colour of the Trap a suscitar as reações mais entusiasmadas – que maravilha foi voltar a ouvir ao vivo “Rearrange”, “Inhaler” e a homónima “Colour of the Trap” – foi refrescante perceber que as canções mais recentes, sobretudo as do novo álbum, conseguiam ombrear perfeitamente com os “clássicos”. Por exemplo, a jam rock de “Sing a Song To Love” não deixou de nos surpreender e de nos fazer pensar que não faria mal nenhum a Alex Turner pôr os olhos no amigo e na forma como aplica os seus dotes de guitarrista.
Quase no fim, “Don’t Forget Who You Are”, do álbum de 2013 com o mesmo nome, foi outra das que despertou o entusiasmo do Lisboa ao Vivo e o seu refrão cantável (“la la la, la la la la la la, don’t Forget who you are”) ficou a ecoar na plateia já depois da música ter terminado, facto que pareceu deixar o artista agradavelmente surpreendido. Foi com um “C’mon then” dito num profundo sotaque inglês, que Miles Kane, satisfeito com a sua conquista, deu início ao encore que nunca chegou a ser, dado que ninguém abandonou o palco. “Sunlight in The Shadow” e “Come Closer” fecharam o concerto (“something old and something new”) e a banda saiu sem grandes despedidas enquanto no PA ficava a tocar “My Way” de Frank Sinatra.
É assim mesmo que registamos a atuação de Miles Kane, assim como todo o percurso que tem traçado nos últimos anos. É um ótimo músico, um excelente performer, tem sabido navegar a sua carreira a solo sem precisar de se colar demasiado a Alex Turner e, sobretudo, parece estar a fazê-lo à maneira dele. Parece que ainda há alguma chama nesta minha velha paixão e é possível que eu devesse revisitá-la mais vezes.
Fotografias por Inês Silva









