Reportagens

Massive Attack || Campo Pequeno

Duas noites em Lisboa recuperaram para os tempos modernos o icónico Mezzanine, talvez o mais celebrado disco dos Massive Attack. Mais que um concerto, o Campo Pequeno, em Lisboa, viveu uma experiência – pena foi a qualidade de som quase ter roubado protagonismo às canções e à mensagem.

Ponto prévio: uma reportagem a um concerto deve incidir sobre os artistas, repertório, noção de espetáculo e tudo o mais à volta. Ora, quem conhece o Campo Pequeno e já lá assistiu a mais que um par de concertos, sabe que é difícil partir para umas linhas sobre um concerto no recinto sem abordar um problema recorrente: o som. Mau, baixo, confuso, foi assim que se apresentou pelo menos na primeira das duas noites que marcaram o regresso dos Massive Attack em Lisboa.

Recuperar Mezzanine é recuperar um disco negro, denso, envolvente e próximo, mesmo que nefasto – no Campo Pequeno essa ligação com a audiência não foi total, mas a culpa maior nem sequer é da banda.

A atual digressão do grupo recupera na íntegra o marcante álbum de 1998 e junta-lhe homenagens diversas em formato versão, sem recurso a outro material próprio dos Massive Attack. “I Found a Reason”, logo a abrir, foi homenagem aos Velvet Undeground, e ao longo da noite haveria palco para celebrar, entre outros, Bauhaus (enorme “Bela Lugosi’s Dead”), Pete Seeger ou…Aviici.

As versões foram acompanhamentos, mas o prato principal todos sabiam de antemão qual era. Elizabeth Fraser, a voz dos Cocteau Twins, era convidada conhecida, Horace Andy já foi mais novo mas continua a ser elemento decisivo nas canções a que empresta a sua voz.  “Teardrop”, servida na reta final, foi o momento mais celebrado, naturalmente, e dos poucos em que os telemóveis sairam dos bolsos – este foi um concerto onde eram poucos os sub-30, e talvez por isso houve maior foco no experienciar do que no registar em vídeo ou foto.

Politicamente, o conjunto de Bristol continua ativo e não perdoa ninguém: há neste espetáculo um olhar em vídeo às redes sociais, ao futuro, a revoluções passadas, futuras ou falhadas, e olhar para os Massive Attack como mero agrupamento musical, mesmo que estetas supremos, é clamoroso erro.

Resumindo e concluindo: já vimos os Massive Attack em melhor forma, isso é certo, mas o maior entrave à celebração global nem se ficou a dever à banda – sim, lá teremos de falar novamente na qualidade do som e em pormenores técnicos. Nova tentativa de epifania fica guardada para a próxima vinda do grupo.

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Fotos cedidas pela organização (Everything is New)