Duas décadas podem custar a passar, mas parece que foi ontem, o que vos trazemos hoje aqui: particularidades infinitas de quem sabe o que faz.
Costuma dizer-se que há infinito e mais além ainda. O povo saberá do que fala, sem margem para dúvidas. Postas as coisas desta forma, há que dizer que a expressão encerra uma bonita hipérbole, carregada de esperança, sobretudo se usada como maneira de realçar amores que não se esgotam, indo para lá do que a ciência dos afetos possa, eventualmente, conseguir explicar. Faz tudo isto sentido (aquele tipo de sentido sem razão, mais próximo do coração do que da mente) em si mesmo, mas parece fazer ainda mais quando nos socorremos de um disco em particular, e do infinito que ele próprio encerra. Veio ao mundo há vinte anos, mas não surgiu desacompanhado. Trouxe consigo um irmão nada gémeo, antes portador de um outro universo que, ao seu redor, revelava um outro lado da cantora e compositora Marisa Monte. Para o que agora importa, fiquemos por essa obra mais densa, mais tranquila, mais intimista que dá pelo nome de Infinito Particular que, como se prova, não se ficou pelos ares de 2006, chegando fresco e importante ao ano atual, prevendo nós que já se libertou há muito da lei da morte indo, portanto, para além do infinito da música popular brasileira. Assim sendo, avançamos ao seu encontro.
Infinito Particular é o quinto álbum de estúdio da artista carioca, a par de Universo ao Meu Redor, o tal nada gémeo parceiro, ambos saídos no mesmo dia dez de março do já mencionado ano. Depois do estrondoso sucesso dos Tribalistas (2002), feito com os amigos e parceiros Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, o disco em nome próprio anterior que Marisa Monte fez foi, tão só e apenas, a obra-prima Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, de 2000, para muitos o seu melhor trabalho de sempre. Perante esta dupla realidade, eram bastantes as expectativas sobre o seu próximo lançamento, que começou por espantar por ser duplo. Mas fiquemos pelo álbum da capa preta, nada festiva, antes revelando uma hipótese de sombra pelo negrume do seu rosto.
Depois de ouvido, percebe-se a ausência de luz, digamos assim, que a capa encerra. Ela, a claridade faltante, ficou confinada ao conteúdo, aos temas reservados do tal ilimitado título proposto. É um disco mais refinado, menos animado, mais triste do que qualquer dos anteriores de Marisa Monte. No entanto, nada disso lhe retira a elegância peculiar, reservada e singular que carrega consigo, através das suas treze composições. Algumas, são de tal génio que ficaram no lote das mais olímpicas da cantora, como são os casos de “Infinito Particular”, “Vilarejo” ou “Pelo Tempo que Durar”, isto para ficarmos apenas pela conta que Deus fez. A faixa título, curiosamente, começa com uma espécie de (falso) statement, quando Marisa Monte canta os primeiros versos que dizem “Eis o melhor e o pior de mim”, embora alertando, exatamente nos versos finais da canção que “Só não se perca ao entrar / No meu infinito particular”. Marisa Monte sabia bem o que queria e o que cantava. Infinito Particular era, até à data – e talvez ainda seja – o seu trabalho mais intimista, mais virado para dentro, ostra escondendo a pérola mais lírica e privada. Choveram algumas críticas dizendo que o disco era monótono, sem rasgo criativo, que as canções pouco se diferenciavam umas das outras, mas o tempo secou essas palavras, evaporando prontamente o sentido negativo que haviam tido naqueles precoces instantes.
Infinito Particular é merecedor de uma escuta atenta. Trata-se de Marisa Monte, deusa maior de um Olimpo restrito e consagrado. Não há que ter receios. Marisa Monte nunca nos enganou, engana ou enganará. É promessa que sempre se cumpre, voz que dá vida e ânimo até aos mais surdos do coração. É romance inteiro e absoluto que vale a pena viver, amar e desejar que esse seu infinito bom gosto nos possa sempre marcar particularmente. Se algum dia isso não acontecer, o problema será nosso, e nunca dela, podem crer.