Um disco profundo e urgente, que desmascara o fascismo com poesia, música e mestria.
Quem me diria a mim que, em 2025, os Mão Morta fariam não apenas um disco relevante, mas um disco enorme, total, urgente, e que merece estar bem lá para cima na discussão dos melhores trabalhos da já longa carreira do conjunto de Braga?
Pois é exactamente isso que acontece com Viva la Muerte, o 16º álbum de um caminho que começou nos anos 80, na então cristalizada cidade dos Arcebispos, e que sempre fez passos na transgressão, na inovação, no risco, no cruzamento entre o que é a música e todas as restantes artes. E se esse esforço foi sempre interessante mas nem sempre totalmente “degustável”, agora temos perante nós a síntese perfeita desse exercício estético e artístico.
Viva la Muerte nasceu da necessidade de marcar várias efemérides, acima de todas os 50 anos do 25 de Abril e os 40 anos do nascimento dos Mão Morta. Perante o desafio do Theatro Circo, que os desafiou a criar um espectáculo para comemorar o 40º aniversário do grupo, os fluidos criativos começaram a circular. Adolfo Luxúria Canibal, agora acima dos 60 anos, andou mergulhado na pesquisa e nas leituras acerca dos fascismos, interessado em encontrar a razão pela qual, em pleno século XXI, tanta gente se deixa embalar num doce e perverso anseio por regressar a tempos tão tenebrosos.
E se os Mão Morta são, na base, uma banda rock, a sua capacidade de habitar novos espaços já é por demais conhecida, e fica aqui mais uma vez bem patente. Este é um disco lento, cuidado, musicalmente muito trabalhado e até bonito, com um cuidado estético que só serve ainda melhor a agudeza certeira das palavras.
Aqui cruza-se rock com um coro masculino, a lembrar o que fazia o grande mestre José Mário Branco, num conjunto onde os Mão Morta conseguem a difícil proeza de equilibrar tudo: mensagem, letras cuidadas e ao mesmo tempo assertivas, arranjos originais e bem conseguidos, e instrumentais de grande bom gosto. Sente-se, na verdade, o ar teatral na génese deste trabalho, que aliás anda pelas salas do país.
Mas as letras, as letras. Temos de falar delas. Em exercícios entre o irónico e o fanático, Adolfo Luxúria Canibal vai dissecando o cadáver teimosamente resistente dos totalitarismos, do fascismo (“Viva La Muerte” é o nome de um filme de 1971, de Fernando Arrabal, versando sobre a guerra civil de Espanha e o fascismo franquista), do militarismo, da manipulação, do ressabiamento agressivo que tudo explica – para si próprio – com teorias da conspiração e com a incessante busca por bodes expiatórios para o seu próprio fracasso.
Está aqui tudo, de Trump aos venturinhas, dos que se apressam a tirar selfies com neo-fachos aos que fetichizam o Estado como entidade nacionalista, que prega os bons costumes, a pureza étnica e o culto da violência como forma de purificar um povo que será pobre, mas que terá sempre o consolo de se sentir útil para o Líder.
Viva la Muerte, saído logo em Janeiro, é um óbvio candidato a disco nacional do ano. Mais do que isso, é um trabalho necessário, uma reinvenção da música de intervenção, uma obra marcante e urgente que tem de ter a nossa atenção.