O ano era de 1990, Nevermind ainda não tinha saído, e os Mão Morta fazem um álbum de rock frenético, inquietantemente negro, dado a mosh e biqueiradas desesperançadas.
No pico da epidemia da heroína, O.D., Rainha do Rock and Crawl cavalga inexoravelmente, pautado por declamações de natureza jornalística que parecem meio aleatórias mas não, em direcção ao mais puro dos estados febris.
É de longe o meu album preferido dos MM, apesar de ter apenas 5 músicas. As narrativas de Luxúria Canibal são especialmente interessantes, não apenas suscitando a curiosidade estética do universo a que depois nos acostumou, mas também prendendo o ouvinte, qual leitor, ou leitora, ávidos de saber no que é que aquilo vai dar. Ao mesmo tempo, a crueza das guitarras e percussão, envolvidas em órgão fúnebre, uma locomotiva febril punk
rock avançando pelas sombras da noite.
Em “Bófia”, ouvimos a história de um carocho que é indevidamente espancado por agentes da autoridade, mas que, depois, tomada a sua poção mágica, que nem lobisomem em noite de lua cheia, sacia a sua sede de vingança, destruindo à biqueirada o maxilar superior do dito agente. Revenge song com gráficos de violência, antes de qualquer filme do Tarantino ter saído no cinema.
Segue-se a “Charles Manson”, onde o narrador utiliza o facto de não ter estado presente em eventos históricos de ordem mundial para justificar a sua própria estupidez nihilista, como os labregos que, apesar de estarem a ser sodomizados pelo neoliberalismo há várias décadas, encontram refúgio na extrema direita. Aqui, a promessa de salvação é encarnada pelo próprio Manson.
Não é à toa que referi Tarantino, apesar do elemento de entretenimento ligeiro certamente estar ausente da obra dos Mão Morta, exceptuando claro para os leitores que praticam necrofilia. Em “Anarquista Duval”, a liberdade não é uma mamalhuda de cabelo ao vento segurando uma tocha com uma mão e a Constituição Francesa na outra, mas sim um fedor pútrido que nos apanha de surpresa num beco escuro na noite das sombras que, em vez de causar repulsa, nos atrai inexplicavelmente para aquilo que sabemos ser a constatação da inexistência de livre arbítrio e o desespero da ausência de sentido da vida.
“Quero Morder-te As Mãos” desfaz as dúvidas: em caso de desespero, abracemos com loucura os actos carnais, ora pois a incandescência existencial pode ser estimulada ao estudar o lento agravamento de uma racha na parede mas também ao cravar os incisivos em mão alheia. Finalmente a mais bela ficção de Luxúria Canibal, “O Divino Marquês”. Aqui a música tem propósito único de servir a literatura. Um conto a lembrar, claro, Sade, mas brilhantemente adaptado à tolice do catolicismo português, hoje em dia certamente menos presente que naquele findar do século XX. A depravação do Marquês, apesar de sublinhar a hipocrisia das normas sociais, é criminosa, imoral e bizarra. Ainda assim, é justamente ele o herói da história. Quando damos por nós a torcer pelo violador, sabemos estar diante de um escritor de considerável talento.
Os Mão Morta sempre souberam combinar de forma interessante o punk rock com a literatura, unindo a crueza do som à profundidade das palavras. O.D. Rainha do Rock and Crawl é o exemplo perfeito dessa fusão: um disco que tanto incita ao movimento como à reflexão, uma obra que se devora com os ouvidos e se digere com a mente.
(nota pertinente – no spotify as canções Anarquista Duval e Charles Manson estão inexplicavelmente trocadas)