Não há qualquer conceito de partida, e, porém, um lastro pegajoso atravessa o disco, tanto nas palavras como na composição: a cidade-doença espalhando-se maligna.
Foi no ano da graça de 1988, ao sétimo dia do mês de Julho, na cidade de Braga. O calor era tanto no aterro do matadouro que os operadores vomitavam-se, tal era o fedor. Quis o destino que o parto acontecesse ali, naquele antro pútrido, com a dona Mão Morta agachada sobre os detritos (os vermes viscosos subindo pelas coxas). O tão desejado primeiro filho varão nascera por fim, assegurando a continuidade de tão ilustre linhagem.
Homónimo de nome, franzino de constituição, nem meia-hora pesando, com apenas seis dedos de canções, poderia não ser o mais bonito dos nado-mortos, mas havia um certo encanto na sua disformidade, uma certa harmonia em tudo ser repelente por igual, uma fealdade de tal forma absoluta que despertava respeito e admiração.
Tudo no primogénito grita o horror da degenerescência urbana: guitarras estridentes-Einsturzende-Neubauten!, rebarbadoras-zumbindo-zunindo-zurzindo!, a bateria-pneumática-metálica-hidráulica!, a voz-ferrugenta-tumor-na-garganta!, a produção abafada-apertada-apinhada!, Birthday Party na cassete estragada!, a asmática gorda na mala do carro!, pós-punk-pós-panca-pós-branca-pós-pó!
Seis doenças, seis hinos, sem espinhas, sem fé, da desengonçada E SE DEPOIS à claustrofóbica AUM (Swans com arroz de cabidela, portanto, punção, punição, prostração, podridão!).
ATÉ CAIR. Desaconselhável a quem sofra de síndrome vertiginoso, rodopio-corropio-puta-que-o-pariu!
SITIADOS. Uma ode ao belo que há no feio, Álvaro de Campos de Concentração!
OUB’LÁ. Viciante, quase pop, quase bop, agitprop!, o Pinto chutando-se no adro da sé!
CARÍCIAS MALÍCIAS. Um bico maroto no Bom Jesus…
Era o auge da Ama Romanta, antes do Peste foder tudo só porque sim.
Foda-se, saudades…