Passados 20 anos desde o último disco e a entrada numa espécie de hibernação, os Loto emitiram novos sinais de vida. Disponibilizaram os discos online, entraram nas redes sociais e não devem ficar por aqui. Mas também ainda não dizem até onde vão. Talvez uns concertos, quiçá música nova. Tentámos saber mais, numa conversa com Ricardo Coelho e João Tiago.
Altamont: Quero falar sobre o presente, o passado e o futuro. Se calhar começamos pelo passado. O que é que temos aqui, puseram as vossas músicas todas na net, foi só ir revisitar o catálogo?
Ricardo Coelho: Sim, o gesto é simples. Ou seja, nós nunca tivemos nada nas redes, nas plataformas de streaming. Aliás, é isso, nem redes, nem plataformas de streaming, e foi simplesmente activar para voltarmos a ter as coisas pelo menos disponíveis. Para nós, em primeira instância, porque nós tínhamos isto tudo em catálogos e tudo espalhado por drives. Eu fiz um vídeo de cantar uma música dos Loto, que eu adorava, eu e o João Tiago adorávamos aquela música e há anos que não ouvia aquela música. Ou seja, esse gesto inicial foi mesmo disponibilizar as coisas para nós, e também porque estávamos com os nossos amigos, as pessoas que nos rodeiam, toda a gente queria voltar a ouvir as nossas músicas.
João Tiago: E o João Pedrosa [baterista] queria muito mostrar as nossas músicas aos filhos, ele dizia “eu quero pôr as músicas e eu só tenho Spotify, portanto isto tem que ir para o Spotify”.
Mas ao fazer isto, obviamente temos que abrir aqui portas para o passado, não é? Tiveram-se reminiscências e saudades?
JT: Foi um exercício muito engraçado, ir lá atrás e só o facto de irmos ligar os computadores antigos, ligar os Macs antigos, ligar o meu Compac, de mil novecentos e sei lá quando. Foi muito giro porque não foi só a música que voltámos a redescobrir, como o Ricardo estava a dizer, de voltarmos a ouvir as coisas – que já há algum tempo que também não o fazia -, mas foi também ver todo o resto do espólio, ver as fotos, ver os vídeos, ver toda a tralha que tínhamos ali guardada naqueles computadores antigos. Olhar para aquelas fotografias, todos com o cabelo, todos magros.
RC: Aquela foto dos New Order.
JT: Sim, dos nossos haters, nós temos uma foto de uns haters que para o Sudoeste uma vez levaram um cartaz a dizer New Order. E qual é que era aquele fórum que havia? Acho que era o Fórum Sons, em que nos odiavam, então era óptimo, foi óptimo redescobrir isso tudo.
RC: É isso, há muita coisa boa. Depois também houve algumas coisas meio estranhas. Fui abrir as sessões para ouvir as músicas e depois pensei que há aqui coisas já um bocado datadas, outras boas. Aquele exercício de «vamos voltar a tocar isto outra vez? Humm.. Tinha que se fazer aqui muita alteração». E comecei, eu e o João Tiago, a alterarmos umas coisas, a tentar perceber se isto dava para tocar ou não. É um exercício complexo porque, obviamente, se nós considerássemos alguma vez voltar a tocar, eu gostava de tocar orgulhosamente, e há muita coisa que eu já sinto que ficou ali, está muito datado. E esse exercício de transportar as coisas para os tempos de agora também é um pouco ingrato, porque muitas pessoas vão querer ouvir as músicas como elas eram e eu, pessoalmente, há muita música que ali está com que eu já não me identifico, gostaria de trabalhá-las para um contexto mais atual.
JT: É normal. Já são 20 anos. Aliás, desde o primeiro EP já são 24 anos, há muita bagagem. De lá para cá já assistimos a milhares de concertos, já vimos milhares de ideias à nossa frente que nos fazem pensar. Já faziam naquela altura pensar que aqueles discos podiam sempre levar mais qualquer coisa, quanto mais agora. E portanto, essa é a visão do futuro, se fizéssemos isso, tocar igual não iria ser.
RC: Eu acho que também a doutrina diverge um bocado. Se por um lado é interessante a ideia de voltar a fazer uns concertos, por outro, é tipo, há tantos exemplos de comebacks mal feitos e tristes, «pá, a sério que nós queremos fazer isto?». Ou seja, há algumas pessoas que querem mais esta ideia, há outras que é tipo vamos deixar as coisas marinar no passado, quando elas tiveram alguma proponderância, algum interesse. Portanto, é uma coisa que não é assim «bora lá»!
Sim, vocês estão aí a meio caminho entre o que o público quer – provavelmente, ouvir as músicas tocadas como elas eram – e o vosso lado, do ponto de vista artístico talvez não seja tão aliciante. No entanto, não descartem essa hipótese.
RC: Sim, ela não está totalmente descartada. Eu acho que há sempre uma vontade que está ligada à memória, e essa é uma memória bonita. Mas a carga de fazer alguma coisa é tão forte que eu não conseguiria simplesmente…tipo, «está aqui a sessão aberta do “Back to the Discos”, está a correr e vamos tocar isto». Não me vejo a fazer isso. E depois também há divergências entre nós. Eu acho que nós estamos num ponto… nós tivemos altos e baixos nas próprias relações interpessoais, entre mim e o João Tiago, entre mim e o Pedrosa, entre o Pedrosa e o João Tiago. Ou seja, entre nós tivemos sempre altos e baixos as nossas relações, mas somos amigos há muitos anos. E eu acho que hoje em dia nós temos uma amizade tão forte e tão consistente e tão boa, que também é essa coisa de voltar a trazer um bocado deste passado. Não concordas?
JT: Sim, se há outra coisa também que o tempo nos trouxe foi essa maturidade. Acho que já na altura, apesar da história se ter desenrolado como se desenrolou e termos findado o Loto também pela nossa própria saúde e pela nossa amizade, se nessa altura já conseguimos ter esse discernimento, agora estamos muito mais seguros daquilo que queremos e o que não queremos e até onde é que podemos ir. Portanto, eu acho que parte muito deste equilíbrio. Primeiro, há vontades, acho que há uma vontade de assinalarmos isto de alguma forma, de voltarmos a divertir-nos juntos neste registo, de tocarmos juntos. Mas ao mesmo tempo, como o Ricardo também estava a dizer, nós não temos essa visão dos comebacks eternos à la Ornatos Violeta que é um comeback que dura 10 anos. Isso não nos interessa. Pode-se assinalar, vamos fazer uma brincadeira e vamos fazer uma coisa com pés e cabeça. Se depois disso houver vontades e quisermos avançar noutro sentido, de voltar a criar juntos, isso logo se vê. Mas para já acho que a vontade que está presente em todos nós, apesar das divergências de como vai acontecer, acho que é «ok, vamos tocar juntos novamente, e vamos aproveitar».
E já começaram a fazer alguma coisa nesse sentido, já foram para uma garagem os três, fazer uma jam session?
RC: Ainda não chegámos a esse ponto, mas nós também nunca fomos muito de jam, nós já chegávamos à sala de ensaios com bases muito concretas, muito fortes. E foi esse o modus operandi desta vez: «vamos lá começar outra vez a pensar nisto, vamos lá pensar numas bases, abrir as sessões. Isto é uma caixa de Pandora que se abriu agora aqui». E começámos a fazer umas versões alteradas das músicas, super agressivas, depois umas coisas mais dançantes mas que depois perdiam a essência, eram já músicas totalmente diferentes e entrou-se neste processo meio estranho. Mas eu reaproveitei, tenho agora um projeto novo e reaproveitei a maior parte das coisas que fiz. Porque depois aquilo já não era Loto, já eram cenas super agressivas, electrozadas e já se perdia um bocado a essência do que é que eram os Loto. E também estar a voltar para um lugar que não é aquele lugar… é complexo. Mas obviamente nada está descartado, mas acho que o momento é para aproveitar, estamos a fazer as coisas completamente sem pressão, pôr o catálogo cá para fora, ter os nossos amigos a mandarem-nos mensagens a dizer «Finalmente ouvi a música que já não ouvi há 20 anos, obrigado». Um amigo meu lembrou-me: «Eu casei-me a entrar na igreja com o “Have No Fear”, finalmente consegui mostrar aos meus filhos». Isto já é bom. O resto… vamos sem grandes expectativas. Estamos neste processo de pôr as músicas no catálogo há 5 ou 6 anos,portanto, se calhar há mais 6 anos para nós pensarmos noutra coisa [risos].
Ao começarem agora a mexer, depois de muitos anos em silêncio, de repente estão nas redes sociais, músicas nas plataformas de streaming – isso veio criar no vosso público uma certa ansiedade…
JT: Sim, notas muito mais essa pressão, essa expectativa por parte do público, das pessoas que nos abordam. A semana passada, estava em Alcobaça a pôr música numa festa no Armazém das Artes, e vem uma rapariga falar, dizer «eu nunca esperei poder conhecer e poder falar com um dos Loto ao vivo, eu cresci com a vossa música, e agora encontro-te aqui e é ótimo poder dizer-vos ainda bem que voltaram, estou super feliz que voltaram». E depois eu tenho que explicar, atenção, não foi bem voltámos. E ela «mas agora vocês têm que voltar». E como ela, há muita gente que diz que temos de voltar a dar concertos… Portanto estamos a tentar não ser apressados por isso, acho que isso é muito importante. Mas também temos muito respeito por quem nos seguiu ao longo de todos esses anos, por quem ia aos nossos concertos, quem sempre nos deu apoio. E obviamente, parte da nossa celebração não é só para nós, ou seja, nós queremos divertir-nos, queremos fazer uma coisa em que os três estejamos confortáveis, mas obviamente também com o intuito de partilhar isto com quem quiser. Portanto, vamos tentar não demorar muito.
E olhando um bocado para o passado, a vossa carreira aconteceu ali um momento, entre 2002 e 2006, no movimento MadBaça, e pouco antes da explosão do indie, vocês acabam. Nunca sentiram que podiam ter continuado mais um pouco, a ver onde é que iam dar?
JT: Não..
RC: Acho que não. Na altura não estávamos a ver o início e o fim dos movimentos. Mas eu lembro-me que ficou um bocadinho um sabor agridoce. Porque eu acho que o Beat Riot, que é o último álbum que nós fizemos, tem alguns problemas – hoje consigo entender quais é que são – mas é um álbum que era completamente aquilo que se estava a fazer no mundo, tínhamos o Peter Hook, dos New Order e Joy Division, tinha o Del Marquis dos Scissors Sisters, teria tudo para ser um álbum icónico e acabou por ficar muito… Eu acho que houve algumas falhas nossas, bastantes, em termos de promoção e da maneira como nós decidimos apresentar o disco. Mas ficou esse gostinho assim um bocadinho agridoce, e nós também não queríamos ser uma espécie de one hit wonders, porque efetivamente o “Back to Discos” mexeu muito na altura, em 2004, foi mesmo uma coisa que estava no contexto daquele comeback dos anos 80. Ou seja, os anos 80 têm vindo sempre on and off. Ainda hoje em dia tens imensos movimentos que vão buscar essas influências, mas em 2004, ali no pós-anos 80, foi a primeira grande explosão de coisas atuais a irem buscar os arpeggios, as batidas, a maneira como colocas a voz, etc. E acho que nós, nessa altura, sentimos mesmo que estavam coisas a acontecer que nós nem sequer percebíamos o que era. E eu acho que o Beat Riot depois trouxe esse gostinho um bocadinho amargo. Mas, obviamente que isso acontece, não é? Todas as bandas têm discos que saem um bocadinho ao lado mas eu acho que, acima de tudo, foi isso que o João estava a dizer, nós chegámos a uma altura em que decidimos tentar salvar as nossas relações pessoais e voltar a tentar pensar na música como uma coisa que fosse mais prazerosa e não tão emprego das 9h às 17h, e eu não me arrependo de nada do que aconteceu, o caminho foi esse. Foi pensar que havia ali um espólio interessante e que o futuro era feito com outras coisas – o João Tiago teve os seus projetos, eu tive os meus projetos, o Pedrosa teve outros projetos de vida.
JT: E ainda bem, ainda bem que fizemos, por um lado, ainda bem que terminámos. Eu acho que o facto de estarmos a perceber que com o Beat Riot, apesar de ser um disco do caraças, e de termos as colaborações que tínhamos, e de aquilo que investimos naquele disco depois não estarmos a sentir um retorno tão pronunciado como o The Club, eu acho que também começou a pôr muita pressão, porque às tantas nós já esbracejávamos, o que é que vamos fazer? Isso também criou muita pressão entre nós. E de facto chegou ali a um ponto em que ou continuávamos melhores amigos e acabávamos a banda naquela altura, ou então arrastávamos aquilo até à extinção e depois nem banda, nem amizades.
RC: Mas ainda fizemos umas coisas giras. Fizemos uns álbuns infantis de que eu tenho bastante orgulho. Histórias ao Contrário, que são todas histórias infantis mas de uma perspectiva ao contrário, essas coisas deram-nos muito gozo na altura. E depois fizemos uma banda infantil, os 4 Amiguinhos.
JT: Passávamos muito tempo no estúdio e acabávamos por nos envolver nesse tipo de projectos a fazer outras coisas, a produzir, a fazer músicas, fizemos tanta coisa. Músicas para publicidades. A banda sonora do filme “Corrupção” [de João Botelho].
Agora falamos do futuro. O futuro de Loto, já vimos que nada está fechado, nada está aberto. Fora isso, a nível individual, vocês já foram fazendo coisas. Ricardo, o que é que já nos podes dizer sobre o teu projecto novo?
RC: Pá, ainda nada. Convidei o João Tiago para tocar, o nosso objetivo é ir tocar ao Brasil [risos]. Mas eu acho que a música também é muito reactiva à tua vida, não é? E eu divorciei-me e eu acho que com estas coisas mais traumáticas aparecem respostas criativas internas, e eu tive que canalizar um bocado a minha dor, a minha raiva, todos os sentimentos que estavam aqui prontos a sair num projeto. E são coisas que eu nunca tinha feito, foi essa a premissa que me autopropus, um caminho que ainda não explorei. Uma coisa mais agressiva, mais escura, e estou a trabalhar nesse projeto e estou entusiasmado para ele porque efectivamente são coisas novas para mim. Eu sempre fui muito ligado a uma pop mais doce, mais bonitinha, os Cavaliers of Fun super espaciais, solos de arpeggios e coisas assim espaciais máximas, com delays. E agora foi totalmente o oposto e estou entusiasmado com isso. E convidei o João Tiago para tocar, vai-se chamar Post-Dead Disco e no final do ano, fazer uns concertos, começarmos a fazer umas coisas. Vai ser giro.
JT: Eu continuo o projeto Plastic People. Estamos a gravar o próximo álbum, também esperamos que saia no final do ano, já temos estado a trabalhar em alguns temas, já começámos a parte das gravações de estúdio e esperamos acabar agora em Agosto, Setembro, as gravações ficam finalizadas. Porque as músicas estão feitas, parte do processo de gravação também já está completo, nomeadamente a parte rítmica – baixos e baterias também já estão gravados – agora estamos na parte de fazer as guitarras, vozes e as programações. Mas que até Setembro também estará finalizado. E portanto o próximo disco de Plastic People sairá muito provavelmente no final do ano, o mais tardar no início do próximo. E depois vamos ver o que é que sai deste novo projecto de Post-Dead Disco, que é uma cena também muito fixe, já tínhamos falado várias vezes de fazer coisas dentro desta linha.
RC: E era um bocado para onde os Loto se calhar iriam, assim uma coisa mais agressiva, mais LCD com Soulwax, coisas não tão airosas, não tão pop mas com elementos. Mas a overall vibe é um bocadinho mais dissonante, mais agressiva. Para dançar, mas de uma forma não tão luminosa.