Perante uma plateia cheia de fãs devotos e de amigos, Leo Middea confirmou o sucesso do seu último álbum e revisitou algumas pérolas do passado, numa bonita celebração de 10 anos a fazer música
Já passaram algumas semanas desde o concerto de celebração de 10 anos de carreira de Leo Middea, no estúdio Time Out, em Lisboa. Desde então, já tocou na Áustria, na Chéquia, na Alemanha e na Polónia, levando a sua tour por essa Europa fora e não deixando parar a “dança do mundo” de que parece alimentar-se. O concerto, tinha-nos prometido o artista, seria especial porque tentaria incluir material de todo o seu já muito respeitável repertório, tarefa difícil de cumprir sem que o tempo do espetáculo se estendesse para lá do razoável. Fomos, por isso, curiosos para a festa do 10º aniversário da carreira de Leo Middea, ansiosos por saber se o alinhamento iria diferir muito do de outros concertos que deu este ano em Lisboa e se surgiriam canções mais antigas e até convidados especiais. Sem grandes surpresas, a setlist foi dominada pelo álbum Gente, de 2023, o mais recente e possivelmente o mais bem-sucedido dos seus trabalhos, mas incluiu também, para gáudio dos presentes, canções de Beleza Insular (2020), Vincentina (2020) e de Dança do Mundo (2016), bem como dois singles, uma canção nova e uma cover, ficando só a faltar uma visita ao primeiro álbum, lançado quando Leo Middea tinha apenas 19 anos, em 2014.
Com um alinhamento longo para tocar, Leo Middea e a sua banda (percussão, teclas, baixo e bateria) não perderam muito tempo com conversa entre canções, dando início ao concerto com pesos pesados que não demoraram a pôr toda a sala a mexer e a devolver os doces refrões de “Que Sorte”, “Hello Goodbye” e “Bairro da Graça” ao cantor. Agora residente em Barcelona, Leo Middea confessou-se muito feliz de regressar a Lisboa e de estar ali connosco a celebrar 10 anos de carreira. E fazia todo o sentido que assim fosse, prova disso foi o público que encheu o estúdio Time Out. Bastante heterogéneo e diverso, todos os presentes encontraram na hora e meia que durou o concerto o intento comum de celebrar com Leo, cantar e dançar, quer fossem fãs desde o início ou só o conhecessem do festival da canção. Leo Middea, que o tempo e a estrada têm transformado num performer de excelência, soube muito bem aproveitar a energia vibrante, que já se sentia na sala, e multiplicá-la, incentivando coros, repetições e danças, como um maestro para quem o público pode sempre cantar um pouco mais alto, entregar mais um pedacinho.
Entre os seus hits mais acarinhados, apreciámos particularmente a versão que fez de “Nossa Gente (Avisa Lá)”, canção da banda baiana Olodum celebrizada por Caetano Veloso (obrigada ao nosso especialista em MPB residente, Carlos Lopes, pela ajuda na pesquisa). Com um ritmo irresistível, Leo Middea e a sua banda conseguiram torná-la sua e um complemento perfeito ao restante alinhamento, mantendo-se também fiéis à sua missão informal de divulgar a MPB através da sua música. “Ciranda” foi outro momento especial no concerto. Canção mais antiga pela qual Leo confessou nutrir um carinho especial, não atrapalhou a audiência que se tornou coro de apoio, entoando “cirandeiro, cirandeiro ó” enquanto Leo tratava da voz principal. Visivelmente satisfeito com a receção calorosa, Leo contou que escreveu aqueles versos numa “fase de fazer retiros espirituais no interior do Rio de Janeiro”, numa tentativa bem-sucedida de “fotografar” os cânticos que se ouviam ao longo do dia naquele local. Finda a história, Leo Middea continuou a explorar o ser repertório mais antigo e aproveitou a pausa mais longa para puxar para o palco Pedro do Vale, amigo e colega, para cantarem juntos “Pedaço do Céu”, num momento meio improvisado, mas com um resultado impecável.
Mas a noite não foi só de retrospetiva, não estivesse o próximo disco já em fase de preparação. Assim, Leo Middea fez espaço para, sozinho e à viola, mostrar uma canção nova, ainda sem nome, que escreveu quando recebeu a notícia do casamento de uma ex-companheira.
O último terço do concerto não teve mais pausas nem tempo para respirar. Depois de ter deixado a estrela da noite sozinha em palco, a banda regressou e com ela regressaram os temas mais dançantes de Leo Middea. “Do Subúrbio”, “Freguesia de Arroios”. “Lisbon, Lisbon” e “Se Eu Disser Que Quero Um Beijo”, no encore, mantiveram a energia da sala elevada até ao fim de um concerto que nunca deixou de ser animado e bem-disposto. Leo é, como já dissemos acima, um grande performer, e é comovente ver o carinho que consegue agregar junto de si, tanto de fãs que estão a celebrar com ele 10 anos a ouvir a sua música como de pessoas que vieram mais recentemente e ficaram pela sua simpatia, energia positiva e, sobretudo, pelas doces melodias que pedem um pezinho de dança. Ficamos à espera do álbum novo, e de mais oportunidades de dançar a “dança do mundo” com Leo Middea.
Alinhamento:
- Que Sorte
- Hello Goodbye
- Bairro da Graça
- Balanço de Amor
- Nossa Gente (Avisa Lá) – cover
- Esse Jazz Tocar
- Banho de Mar
- Ciranda
- Pedaço do Céu
- Sorrindo para a Saudade
- Olimpo ou Razão
- Música Nova
- Do Subúrbio
- Doce Mistério
- Freguesia de Arroios
- Borboleta Efeito
- Lisbon Lisbon
Encore
- Se Eu Disser Que Quero Um Beijo
Fotografias por Connor Wilkinson









