Desde 1989 que o irreverente Kravitz assalta os lugares cimeiros das tabelas de vendas e coleciona prémios. E aqui está mais uma demonstração imparável de eficácia e energia. Aos 60 anos, completados no final de maio, o músico finta qualquer semelhança entre a realidade e aquilo que mostram os registos. E promove outra explosão de rock e não só.
Leonard Albert Tarolo Kravitz: escrito assim, talvez só mesmo o apelido pudesse gerar a suspeita de que teria laços de parentesco com o cantor/compositor nova-iorquino. Felizmente, o universo musical simplifica e, por isso, aquele nome pomposo é mesmo o que corresponde ao diminutivo artístico de Lenny Kravitz.
O que tem caracterizado o percurso musical de Kravitz é a rebeldia, o distanciamento face ao convencional e ao óbvio, a constante afirmação de não olhar a géneros para temperar as suas criações e o talento para ser uma espécie de homem dos sete instrumentos. Por isso cruza rock (mais ou menos pesado) e reggae, mas também combina soul, R&B, funk, entre outros.
É como se a memória inspiradora dos Jackson Five nunca o abandonasse e, pelo contrário, sempre o incentivasse a exigir mais de si próprio. Ou a influência exercida pelo facto de o pai, Sy Kravitz, que trabalhou em televisão, ter amigos como Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Count Basie, Sara Vaughan ou Miles Davis (já agora, a mãe, Roxie Roker, era atriz).
De Manhattan a Brooklyn e Los Angeles, não faltaram oportunidades e muitas outras fontes de inspiração para que o rapaz se apaixonasse pela música. Outro forte exemplo que guardou: os pais, que se divorciaram em 1985, formavam um casal multirracial e a diversidade foi sempre natural para Kravitz. Pelo tempo fora, a voz do artista iria erguer-se para contestar o racismo e participar em campanhas contra qualquer tipo de discriminação, além de dedicar, em 2018, um álbum ao tema.
Até editar o álbum mais recente, Blue Electric Light, Lenny Kravitz ofereceu 11 exemplos de originais (e um de êxitos pelo meio, em 2000) a milhões de admiradores: Let Love Rule (1989); Mama Said (1991); Are You Gonna Go my Way (1993); Circus (1995); 5 (1998); Lenny (2001); Baptism (2004); It is Time for a Love Revolution (2008); Black and White America (que começou por chamar-se “Negrophilia”, em 2011); Strut (2014) e Raise Vibration (2018). Exuberância, versatilidade, inesgotável energia em palco são parte da sua imagem de marca.
Blue Electric Light traz-nos o rebelde de sempre com o poderio vocal e um estilo bem definido e inconfundível. Começa com “It’s Just Another Fine Day (in this universe of love)”, uma balada com ritmo bem vincado pelo baixo; “TK421” é a primeira explosão sonora, pautada por guitarras vibrantes e saxofone hipnotizante, a lembrar o génio do seu amigo Prince e sob a suspeita de que remete para o universo de George Lucas em “A Guerra das Estrelas” (no videoclip que o promove, o músico não se coíbe de surgir a dançar nu e de costas para as câmaras); “Honey” adocica o caminho com elogios ao amor, tema que tem sido o principal do seu percurso; mas logo “Paralyzed” nos devolve à forte presença da bateria e percussões, alguns tons abaixo do nível a que pode chegar a voz de Kravitz.
Depois, “Human” é a mais atraente canção do álbum, hino ao humanismo e contra a submissão a telemóveis; “Let It Ride” e “Stuck in the Middle” reforçam a sensualidade do disco; “Bundle of Joy” arranca com o som do escape de uma moto e irrompe em chamas sonoras a favor de uma rapariga inesquecível; “Love Is My Religion” é uma declaração de princípios; “Heaven” e “Spirit in my Heart” são espaços de ternura antes do final, a lembrar David Bowie com a canção que dá título ao disco.
Ficam para trás as colaborações de há muitos anos com o já citado Prince, mas também com Michael Jackson ou Mick Jagger, entre muitos outros. Mas não estão esquecidas e Blue Electric Light torna-se quase um tributo às lendas com quem se cruzou. É, nas palavras do próprio intérprete, uma celebração da vida.
Kravitz, que também tem presenças no Cinema (por exemplo, na saga “The Hunger Games”) e uma filha que é atriz (Zoë, fruto do casamento com a atriz Lisa Bonet, de quem se divorciou em 1991), é o primeiro a admitir, em entrevista à Rolling Stone, aquilo que vamos percebendo em palco e não só, apesar dos seus 60 anos: “Nunca me senti melhor em toda a vida, seja no plano mental, espiritual ou físico. Não se trata apenas de anos, é uma questão de espírito.” A realidade dá-lhe razão e contraria qualquer registo.