Uma igreja, um piano, sintetizadores, samples de pássaros e John Carroll Kirby. À partida, não parece haver uma grande lógica nesta combinação. Mas foi precisamente nesta mistura improvável que a segunda edição das The Church Sessions encontrou o seu lugar.
Se há lugares especiais para se pode ouvir (e sentir) música, a igreja de St. George, em Lisboa, é um desses. Linda e acolhedora, tem uma mística muito interessante (dito por uma pessoa não particularmente religiosa e/ou espiritual). Não há como negar.
Seria fácil fazer a piada que esta noite terá sido de inspiração divina, mas não seria totalmente verdadeiro. A inspiração foi assente numa sonoridade com os pés na terra, sempre de olhos (e, talvez, corações) ao alto.
Esta segunda edição das The Church Sessions, produzido pela CMT Live, trouxe a Lisboa o compositor americano John Carroll Kirby, talvez mais conhecido por ter produzido álbuns de Frank Ocean, Solange e Harry Styles. Kirby tem um passado mais focado no jazz, mas rapidamente começou a colaborar com artistas como will.i.am e Norah Jones, num estilo definitivamente mais pop e soul.
Mas antes de submergir na música de Kirby, não há como escapar à primeira parte do concerto, levada a cabo por Inês Condeço – foi arrebatadora. Condeço apresentou-se no palco, já com o piano e sintetizadores preparados com samples só à espera de serem libertados no ar.
Começou com um som de piano muito ténue e leve, que quase que nos transportou para um sítio no meio do campo (as samples dos passarinhos ajudam), muito leve e em paz (precisamos todos de um bocadinho disto, obrigada) mas que foi aumentando de intensidade (obrigada, sintetizadores). Às tantas pareceu-nos que a música nos ia engolir, mas com doçura, sem dar medo.
Condeço, pianista de formação, cada vez mais se foi assumindo como dj dos instrumentos à sua volta, rapidamente passando entre os botões dos sintetizadores como pelas teclas do piano, que permitiu uma certa frescura e modernidade à performance. Outra sonoridade interessante foi ouvir a sua voz (gravada no momento), repetida em loops, dando uma dimensão mais cheia. Podemos afirmar que foi um som experimental, mas com as suas próprias regras.
As músicas foram fluindo entre si, sem tempo para pausas (mas também não se atropelam). Foi uma performance que se foi construindo mais pela atmosfera do que por grandes momentos de ruptura, e que nos pareceu especialmente adequada à acústica da igreja.
Houve tempo para um pequeno interlúdio, a igreja encontrava-se cheia para receber John Carroll Kirby. Discretamente entrou em palco, cumprimentando todos os presentes com um juntar de mãos (estilo reza, achámos apropriado) e veio para apresentar o seu mais recente trabalho, Piano Works 2016-2026, lançado na semana anterior.
Para além de tocar músicas suas, Kirby aproveita para tocar composições de outros, mas sempre com o seu toque próprio. Há uma vontade evidente de explorar o som para lá daquilo que esperamos de um concerto de piano, aproximando-o de uma lógica mais ambiental e experimental.
Manteve a sua presença discreta ao longo do concerto, mas volta e meia interagiu com o público e teve momentos muito engraçados, como quando fez um pequeno interlúdio para explicar como iria produzir determinado som: pôs fita cola nas cordas do piano porque “it makes a cool sound” (sim) e confirmou que “this doesn’t hurt the piano, don’t worry, I sense that are some of us that were concerned”.
O concerto teve direito a uma surpresa: a vinda de Eddie Chacon (conhecido cantor de soul e R&B e amigo de Kirby). Chacon, de voz aveludada e quente, trouxe uma dimensão mais soulful a este concerto. Num concerto mais centrado na exploração instrumental, a sua voz permitiu uma dimensão mais cheia na sonoridade.
Uma das músicas que cantou foi “Pleasure, Joy and Happiness”, música que o próprio escreveu com Kirby. Partilhou ainda que foi o que o tirou da reforma de 25 anos, dando origem a um álbum com o mesmo nome, e que Kirby produziu.
O concertou terminou com dois encores (as pessoas não queriam mesmo que o concerto acabasse), em que o piano voltou a ser estrela (mais cordas, menos sintetizadores), terminando de uma forma muito bonita e que encheu o peito de todos os que assistimos.
Fotografias de Miguel Alverca















