Este não foi um concerto para fãs principiantes. Foi um concerto que pôs à prova quem conhece The Weeknd e quem conhece Abel Tesfaye.
Eu tenho uma superstição muito específica: criar todos os anos uma playlist no Spotify que documenta, ao milímetro, o que me andou a passar pelos ouvidos durante 12 meses. Todas têm o mesmo nome, “As Minhas de (o ano em questão)”. A primeira vez que fiz uma destas playlists foi em 2015, cerca de dois anos depois de ter criado a conta. Ora, na minha tenra idade de 13 anos, as primeiras músicas que para lá atirei foram “Often”, “The Hills” e “Twenty-Eight”. Todas da autoria do sujeito sobre quem estou a escrever esta peça e que, vou tomar a liberdade de assumir, pelo qual a estão a ler agora. Com 13 anos já conhecia o The Weeknd há algum tempo. Agora, com 24, posso dizer que ele me acompanhou desde a adolescência até esta vida semi-adulta. Devia-lhe, no mínimo, a minha presença no dia 6 de setembro, no Estádio do Restelo.
Uma das coisas que mais admiro num artista é pontualidade, provavelmente porque sou desastrosa nesse campeonato. Mas se já tinha uma grande admiração pelo Abel Tesfaye (formalmente conhecido como The Weeknd, sem “e”!), só aumentou quando ele decidiu começar o concerto poucos minutos antes da hora marcada. Ninguém esperava isto, ou pelo menos, eu não esperava. Esperava ainda menos que abrisse com “Professional”, ao invés do ritmo familiar de “Baptized in Fear”, o hino de abertura desta tour. Abel surgiu mascarado, com olhos cor de fogo, encostado à gigante boneca robô dourada, de uma forma totalmente misteriosa, sem permitir ao público uma reação assoberbada, mas sim gradual, por onde ia passando. Caminhava devagar até à zona principal do palco, uma paisagem de prédios em ruínas. Devagar, muito devagar, como quem avança a medo. Como se estivesse ele próprio a representar o medo de uma cidade a desmoronar-se à sua frente.
Antes de avançarmos, uma pequena explicação do conceito desta tour que parece interminável: a “After Hours Til Dawn” nasceu ainda em 2020, mas entre pandemias, adiamentos e a vontade deste artista canadiano de trocar arenas por estádios, só ganhou vida em 2022. E o nome não é um acaso, uma vez que junta as noites sem fim do álbum After Hours à madrugada eletrónica de Dawn FM, e mais tarde ainda encaixou Hurry Up Tomorrow no lote, fechando assim uma trilogia. Na prática, é um passeio pelas várias fases sonoras e estéticas de Abel Tesfaye, montado como uma cidade distópica em palco, com prédios cenográficos, passarelas cheias de LED, pirotecnia e a tal robô cromada gigante de 12 metros. Percebido o pano de fundo, vamos ao que interessa.
O espetáculo foi arrancando com uma versão encurtada de “Open Hearts”, já na plataforma da cidade distópica. Mas é com “Wake Me Up” que o concerto realmente começa, na minha opinião: é aqui que Abel pisa o acelerador, como se avisasse que vamos entrar numa nova dimensão paralela nos próximos 140 minutos. Como se dissesse “Eu comando isto, vocês vêm atrás de mim”. Foi aqui, e só aqui, que o estádio deixou de assistir e começou a dançar a sério.
“After Hours” chegou logo a seguir, um dos maiores hits do artista dos últimos anos, servido como serenata virada para a plateia do lado direito do palco. E de repente o ritmo trocou de marcha para a batida inconfundível de 2017, que deu nome a um dos maiores álbuns do artista: “Starboy”. Abel virou-se para o lado esquerdo e foi aí que o rapaz-estrela desceu dos céus até à terra. Sou suspeita, admito, porque foi esta a música que deu mote ao meu álbum favorito do artista. Talvez seja o mais comercial, mas é também aquele com jóias escondidas que sinto que ninguém chegou a descobrir de facto, marcado por um estilo muito Michael Jackson que já não vemos em artistas de hoje.
O final de “Starboy” desaguou direto numa das frases mais icónicas da carreira de The Weeknd: “never need a bitch, i’m what a bitch needs”, berrou o Estádio do Restelo assim que reconheceu o arranque de “Heartless”, a música que expõe a nova fase emocional de um coração, antes despedaçado, de Abel em 2019.
Abel decidiu que aquela era uma noite de surpresas, porque logo a seguir trouxe outro dos êxitos mais antigos, dos tempos de Kiss Land: “Belong to the World”, que não tocava desde 2018 e apanhou o público de pé atrás, mas rendido. Caras felizes e confusas em partes iguais, de quem não conhecia a letra mas sabia reconhecer qualidade quando a ouvia. Foi também aqui que o cantor arrancou a máscara de olhos de laser vermelhos que ainda usava e se mostrou, finalmente, de cara e coração ao público: um sorriso de orelha a orelha, contagiante, feliz por estar na capital portuguesa pela segunda noite seguida, certamente satisfeito com a primeira. Esfregou a cara, como quem se reconecta à realidade, e num tom animado cumprimentou Portugal, a preparar o seu amado público para o que aí vinha.
Depois de cumprimentos e trocas de palavras afetuosas, veio “Cry for Me”, com um público inteiro a fazer de coro, a berrar inspirado com o que ouvia, e a berrar ainda mais alto quando percebeu que a música seguinte era a própria “São Paulo”, com versos em português, que levou os faz a fazer um pequeno cântico só para o lembrar Abel em que país estava. Foi, sem dúvida, um dos hits mais esperados da noite, e não desiludiu ninguém.
Durante a passagem instrumental de “Until We’re Skin & Bones”, Abel colocou os óculos de sol, que se tornaram uma das grandes imagens de marca desta tour, para preparar o presente que estava prestes a oferecer. “I saw the fire in your eyes”, cantou em “Take My Breath”, quase um trocadilho para as chamas gigantes que rasgavam o palco a cada música e que aqui não faltaram, a transformar o estádio inteiro numa discoteca futurista. Essa discoteca futurista cruzou-se de seguida com o Studio 54 do final dos anos 70 ao som de “Sacrifice”, um tema tão contagiante que torna fisicamente impossível alguém ficar parado.
Para estrear o resto do palco, aquele labirinto de passarelas, Abel escolheu “How Do I Make You Love Me?”, enquanto perguntava ao Restelo o que mais faltava fazer para Portugal o amar ainda mais. As respostas foram certamente várias, mas resumiram-se todas a um uníssono de gritos em êxtase. E, no meio dessas declarações de amor coletivas, ecoou aquele que foi provavelmente o primeiro grande sucesso de The Weeknd por terras de herois do mar: a inevitável “Can’t Feel My Face”, com um ritmo ainda mais acelerado para não deixar o público respirar.
Depois veio a curva. Era hora de abrandar e mergulhar na vertente mais emocional e sexual do artista. Com “Lost in the Fire”, Abel abriu a porta a uma plateia com os sentimentos à flor da pele, que só se comoveu mais com “Kiss Land”, a favorita dos fãs de primeira hora, seguida de “Often”, a música que disparou a carreira do artista em modo foguetão em 2015 (aquela tal música que eu tinha na minha primeira playlist do Spotify, com 13 anos, lembram-se? Questionável). Abel continuou com três temas autodepreciativos, marca registada da sua escrita ao longo dos anos: uma versão encurtada de “Given Up on Me”, “I Was Never There” e, a fechar este capítulo do concerto, os primeiros acordes de “The Hills” que fizeram o estádio inteiro estremecer.
Chegou a vez de dividir o palco com Playboi Carti, o rapper que abriu a tour: juntos despacharam “Timeless” e “Rather Lie”. A festa continuou com “Creepin’”, que amostra “I Don’t Wanna Know”, de Mário Winans, de 2004, seguida de “Niagara Falls”. Um dos momentos mais bonitos da noite nasceu de “One of the Girls”: Abel cantou acapella um refrão inteiro com o público, ouvindo-se, sobretudo, vozes femininas a formar um coro que só o artista sabe orquestrar assim, e que só fazia sentido terminar em “Stargirl Interlude”, como um agradecimento a todas as mulheres presentes.
Chegou a altura de “Out of Time”, em que Abel passa o micro alguém do público para cantar uma parte da música, o momento mais hilariante do concerto para toda a gente, já que a pessoa escolhida raramente tem o dom da melodia nas cordas vocais. Depois vieram os clássicos catapultados: “I Feel It Coming” e logo a seguir um clássico ainda mais gigante, “Die for You”, pela qual muita gente ali esperou o concerto inteiro. Vi até quem enxugasse lágrimas. “Is There Someone Else?” foi simpática, mas quase ninguém a cantou. Já “Wicked Games” foi um banger absoluto, o maior clássico do primeiro álbum, Trilogy, e eu desfrutei cada segundo, ainda que tenha ficado desiludida por ver tão pouca gente à minha volta a reconhecê-la. “Call Out My Name” fechou este bloco, muito conhecida, favorita das rádios portuguesas na sua altura e para sempre associada à atuação em lágrimas de Abel no Coachella de 2018.
A transição para “The Abyss” marcou a entrada na reta final, com uma porta a fechar-se no ecrã gigante, uma imagem que parecia uma oportunidade perdida de chegar ao céu, como se o abismo fosse, afinal, inevitável. Vieram depois “Save Your Tears”, clássica e amadíssima, e “Less Than Zero”, menos conhecida, mas que serviu de rampa de lançamento perfeita para o clímax da noite: “Blinding Lights”. Literalmente toda a gente dançou e cantou, o estádio incendiou-se, e não é por acaso que esta é a música mais ouvida da história do Spotify. Seguiu-se “Adaptation”, que já tinha cantado na noite anterior, um escândalo e uma surpresa enorme na altura, mas que ninguém esperava ver repetida. E outro clássico absoluto do primeiro álbum: “House of Balloons”, que se tornou viral há pouco tempo graças à magia (ou desgraça) do TikTok. E confesso que nunca imaginei ver uma criança ao meu lado a cantá-la e a fazer algo que suponho que fosse uma espécie de dancinha viral, mas foi exatamente isso que aconteceu.
Para fechar com chave de ouro, não podia ter escolhido melhor do que “Moth to a Flame”. Fogos de artifício e lasers descontrolados a rasgar o céu, tudo absolutamente épico. Agradeceu com o resto de energia que ainda lhe restava no corpo, despediu-se da plateia, prometeu voltar e beijou e assinou a câmara que dá acesso ao ecrã gigante, o ritual de sempre que nunca falha.
Este não foi um concerto para fãs principiantes. Foi um concerto que pôs à prova quem conhece The Weeknd e quem conhece Abel Tesfaye. Quem conhece a persona criada para esta última era que marcou a digressão e quem o segue desde os tempos em que a imagem de marca eram umas rastas pequenas e uma ausência quase total dos holofotes. Quem é fã das músicas que tocam na rádio e viralizam e quem se apaixonou pelas letras do artista desde o primeiro dia. E há quem jure que esta tour pode ser a despedida da persona “The Weeknd” e a passagem para a existência única de Abel Tesfaye. Seja como for, o meu eu de 13 viveu na pele do meu eu de 24 por uma noite. Uma noite onde as estrelas se alinharam, depois de horas e até ao amanhecer.
Texto de Rita Matos Braga, fotografias de Sebastien Nagy, gentilmente cedidas pela organização.











